Obesidade pode ser uma questão de saúde ou de reeducação alimentar. Mas não deve virar rejeição social

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“Obesidade pode ser uma questão de saúde. Ou de reeducação alimentar. Mas não pode se tornar um problema de rejeição social.”

Walcyr Carrasco, autor da novela Amor à vida, levantou este tema polêmico em sua coluna semanal da revista Época nesta semana no texto “Ser gorda, e daí?“. Ele falava sobre as reações que tem recebido, no Twitter (onde é bem ativo, no perfil @walcyrcarrasco) sobre a personagem Perséfone, vivida pela atriz Fabiana Kharla na trama. Mas, acima disso, ele contava algumas das situações constrangedoras que ele mesmo viveu quando estava acima do peso – “quase obeso”, como diz – e da rejeição nem tão velada assim que quem está acima do peso vive.

E ele levanta uma questão que acho realmente triste e, infelizmente, comum, algo que sempre vejo, ouço e cada vez que presencio me deprime. É um julgamento pela aparência, algo que define todo um padrão de comportamento do outro sem qualquer aprofundamento, é a crítica vazia e imediata, aquela que pune e sentencia sem qualquer chance.

“A gordura sempre é encarada como desleixo. Alguém pode ter um problema hormonal ou de qualquer outro tipo. É visto como preguiçoso. Gula existe. Tenho vocação para gordo, porque gosto de comer. Um amigo obeso é capaz de comer um queijo inteiro antes do jantar. Existe a compulsão pela comida, que merece tratamento. Muitos magros sofrem da mesmíssima gulodice. Só que a genética, para eles, deu sorte. Há quem devore um leitão inteiro e não ganhe 1 quilo. Para outros, como eu, basta respirar que o ar já engorda!”

Cresci sendo esta pessoa que tem uma genética boa. E ao mesmo tempo, sou “uma Magali” em termos da quantidade de comida e da fome constante, apesar de fazer opções saudáveis, o que garante minha boa saúde. Meu marido, apesar de se sair ainda melhor do que eu nos checkups, poderia ser classificado como “o tipo que engorda só de respirar”.

Quem nos vê julga, de imediato, que falta saúde e não raro surge com dicas de dietas e sugestões alimentares para todos. Isso que não estamos nem perto da obesidade… avalio então quem está, como faz?

Creio que não faz, sofre calado, se deprime, come ainda mais, se fecha para a vida. Será isso que realmente queremos mostrar e viver em sociedade? E com este modelo preconceituoso é que queremos cuidar das nossas crianças e evitar a tão comentada “epidemia de obesidade”?

Na semana retrasada estive na minha nutricionista, Karine Costa Durães (do blog Nutrição Infantil) e levei para ela um livro do amigo Dr. Carlos Nogueira, pediatra nutrólogo e Diretor do Departamento de Nutrologia Pediátrica da ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia). Dias depois li este trecho destacado por ela na sua fanpage e que me remeteu ao tema levantado por Carrasco e ao modo como estamos lidando com os nossos próximos, as pessoas queridas (ou desconhecidas, mas pessoas que merecem nosso respeito) no dia a dia e nos pré julgamentos que fazemos, muitas vezes sem perceber.

A imprensa representa a criança obesa “esparramada” no sofá, assistindo TV, com um saco de salgadinho na mão e um copo de refrigerante na outra, resumindo a criança obesa a uma condição de comilona e preguiçosa. Será? Vamos então, nos colocar no lugar dessa criança para tentar enxergar o lado dela:“Vamos imaginar que hoje você esta transformado em uma criança obesa. Se levanta, e já está cansada pela noite mal dormida. Olha pela janela, vê outras crianças brincando e quer ir lá também. Mas algo o incomoda: a fome. Vai até a cozinha e come, come muito mais que seu irmão magrinho, e ainda assim você não consegue satisfazer-se totalmente. Você gostaria de ter comido menos, mas não conseguiu. Sensação ruim de barriga muito cheia. Finalmente vai até a rua. Quando chega, ofegante, é recebido com piadinhas, apelidos, gozações. Entra no jogo, mas tem um péssimo desempenho. Volta pra casa mais cedo do que gostaria, sente-se desanimado em frente à TV, pega um pacote de biscoito e come rapidamente, sem pensar. A bolacha e a TV ajudam você a se acalmar e esperar pela hora do almoço”.
Adaptado do livro: De gordinho à fofinho, do Dr. Carlos Alberto Nogueira de Almeida

Como nós recebemos a criança que tenta participar das atividades e deseja brincar? Como reagimos com os amigos que começam a correr, que nos acompanham no clube ou na academia, que fazem parte da escolinha de esporte dos nossos filhos? Estaremos de fato atuando como pessoas maduras e abraçando-as como são, apoiando seus passos na direção de uma vida mais saudável, independentemente de que esta mudança de vida se concretize numa mudança de aparência?

É algo para pensarmos!

P.S. Estou acompanhando a novela Amor à vida e gostando. Mas acho curioso como pessoas comuns não têm espaço na teledramaturgia. A novela retrata uma São Paulo sem negros, nordestinos, japoneses (ou melhor, orientais, afinal são muitos os coreanos e chineses por aqui também) e só faltava não ter gente acima do peso nesta cidade comer bem é parte do lazer de quase todos.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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