a vida quer

2533-estada-guilherme-setembro-07-013.JPEEu já tinha escrito meu texto quando recebi umas fotos do meu sogro com este texto dele. Sim, tenho um sogro filósofo e autor de mão cheia, um daqueles talentos de quem um dia gostaria de ser a editora. (risos… e sogro dá uma canja desta para nora?!)

Enfim, nem pedi autorização mas estou publicando aqui o texto dele, que casa bem com meu texto de ontem. Gui autorizou.

65, O UMBRAL DOS TEMPOS MAIORES
Sessenta e cinco anos tenho,
denunciam minhas cãs e meus compridos cenhos.
Olho para o tempo como um panorama
acima da montanha. Vejo tudo.
Como são tantos os seres.
Todos me pertencem e nenhum ao mesmo tempo.
Daqui, dos umbrais da terceira idade,
como chamam agora a velhice,
vejo as duas primeiras, se não forem mais.
Tenho filhos. Quatro. Tive medos mas fui ousado.
E eles acharam outros quatro ao seu lado.
Assim, a vida me deu oito entre rebentos e enxertos.
Netos tenho ainda mais, cinco,
pela ousadia de meus filhos, ousados também.
Vejo meus antepassados em meus sinais atávicos,
os bons e os nem tanto. Quantos!
Nossa! Enxergo meus amigos, também tantos,
ao meu lado sempre, mesmo afastados,
distantes, esquecidos e lembrados.
Vejo a infância, livre e rica, de aprender felicidade.
Vejo a adolescência, quanta riqueza de aprendiz,
quanta ferramenta de sonhos,
quanta dor gostosa por se machucar para aprender.
Vejo a adultez, em seus momentos doces, eufóricos,
bem sucedidos e benditos, frustrantes e malditos.
Vejo homens, mulheres, vejo bens construídos
que foram consumidos, protegidos, trocados e perdidos.
Vejo quem chegou e me trocou por tudo
na esperança de ter vida e bens multiplicados,
que me ajudou a ver dobrados, descortinados
como asas de borboleta, os desejos, as magias,
as surpresas, as omissões, frustrações e ousadias.
Sessenta e cinco anos tenho. Denunciam minhas cãs
e meus compridos cenhos.
E ao me olhar, não me vejo, não consigo,
vejo tudo o que me veio dos outros.
É meu olhar reflexivo, de todos tenho um pouco.
Com todos tive sonhos, mas os sonhos que realizei
foram meus, não, dos outros. E gostei,
assim me fiz, me encontrei.
Tantos colos tive, tantos seios,
acalantos e suspiros, dramas, desesperos,
em todos entrei e de todos consegui sair
preocupado e preocupando, encantado e encantando,
em cenas nas quais fui ator e de atores fiz os outros,
estes, sim, foram os reais artistas da vida
em que fui protagonista. Fui capaz de receber
e de oferecer aos outros. Tem um pouco de mim
por aí, aonde andei e vivi. Tudo vejo do alto
desses meus sessenta e cinco anos,
que denunciam minhas cãs e meus compridos cenhos.
De todos os lugares tenho um pouco.
De todas as pessoas tenho um pouco.
E de todos aprendi a esquecer o que foi amargo e duro,
que é fugaz e pouco se aproveita tudo o que nos leva
a procurar a glória deixando os outros para trás.
De todos aprendi a ser mais doce e terno
porque assim a vida é mais fácil e mais feliz.
Ah! Aprendi também a amar a natureza,
mãe da vida, em suas excitantes maravilhas,
com quem compomos antes, durante e depois
dessa caminhada única, dure o que durar.
Então, agora, que sou maior no tempo, mais velho,
devolvo essa vida cheia, onde tudo e todos
tiveram seu lugar, foram parceiros, que ficaram,
ou se retiraram, ou se foram sem voltar mais.
E quando eu vier a termo, porque isso é certo,
deixarei um pouco do que recolhi e semeei,
como faço agora, jardineiro e hortelão de outras vidas.
Assim e só assim valeu a pena ter vivido e aprendido
nesses meus sessenta e cinco anos,
que denunciam minhas cãs e meus compridos cenhos.

 

Manuel
Vésperas do aniversário, 30 de setembro de 2007,
Ao completar 65 anos de idade.
Curitiba – PR

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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