O resultado do estresse tóxico infantil nas guerras urbanas

 

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(Foto de Brian McMarty)

Entre 2011 e 2013, fotógrafo americano Brian McCarty visitou as regiões de conflito com o apoio de organizações humanitárias, como a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA, em inglês), Israel Trauma Coalition (ITC) e centro de Spafford (Jerusalém), especializadas em amparar e oferecer apoio psicológico aos refugiados. Com o apoio de terapeutas, as crianças são motivadas a compartilhar suas visões pela arte-terapia e depois, com os desenhos em mãos, McCarty reproduz as tristes lembranças com os brinquedos, como na foto que abre o texto, tirada da fanpage do artista.

Basta olhar para estas crianças e sentir que o que a gente chama de infância se foi… vê-se o peso do mundo, da crueldade e da aleatoriedade das coisas ruins que acontecem para boas pessoas, no olhar de cada um.

Qual relação existe entre repetência escolar e bala perdida? Como viver bem quando o abandono da família faz parte do contexto? Como aprender e lembrar algo sobre a lição da escola se as regras para sobrevivência são outras? Como apagar da memória as cenas de abusos vivenciadas em casa e na vizinhança? 

A gente não sabe como explicar. Mas tudo isso e muito mais está na cabeça, no coração e no corpo de cada criança que convive com a guerra urbana, na Síria ou aqui.

Já ouvi dizerem que “a gente aqui não sabe nem o que pode ser viver em guerra constante ou o que isso pode trazer para as futuras gerações”.

Aposto mais que sabemos, pois é o que vivem as crianças em favelas e periferias de risco social, comandadas por criminosos e nós fechamos os olhos para a realidade da nossa região.

O fato é que me entristeceu saber do estudo sobre o “saldo” dos seis anos de guerra na Síria que causam uma crise de saúde mental entre as crianças do país.

O estudo da organização Save the Children, que entrevistou mais de 450 crianças, pais, professores e psicólogos em sete regiões sírias, sugere que os bombardeios e a violência contínua no país fazem com que as crianças vivam num estado constante de medo, o que pode gerar uma condição conhecida como estresse tóxico.

Se não for tratado, o estresse tóxico infantil é capaz de impactar na saúde física e mental dessas crianças durante toda a vida adulta, aumentando o risco a longo prazo de suicídio, doenças cardíacas, diabetes, dependência de substâncias tóxicas e depressão.

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De acordo com o estudo, a pressão psicológica constante se manifesta de diferentes formas em crianças, como na perda da habilidade de se comunicar, por exemplo. Entrevistados também relataram aumento na autoagressão e nas tentativas de suicídio entre crianças de até 12 anos.

Agora vejam como isso lembra o que acontece nas nossas periferias:
  • 50% das crianças afirmaram que não se sentem seguras na escola ou brincando na rua;
  • 49% das crianças sentem angústia e tristeza extrema sempre ou durante a maior parte do tempo;
  • 89% dos adultos disseram que seus filhos e alunos têm demonstrado mais medo e nervosismo.

A guerra na Síria começou em março de 2011, tendo causado mais de 300 mil mortes e deslocado pelo menos metade da população síria.

Dois terços das crianças entrevistadas disseram ter perdido um ente querido, tido sua casa bombardeada ou sofrido ferimentos relacionados ao conflito.

A pesquisa também revelou que 51% das crianças recorreram às drogas para lidar com o estresse, e 71% passaram a urinar involuntariamente em público ou na cama, um sintoma comum do estresse.

 

Você já deve ter ouvido falar de TEPT em filmes:

“O transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) se tornou um critério diagnóstico em 1980, após acúmulo de observações clínicas de mais de um século. Mais do que uma conceituação com motivação política ou social do sofrimento humano, os componentes biológicos permitiram melhor descrição das consequências do estresse traumático, que ocorre desde a infância e que possui efeitos adversos a longo prazo, durante a adolescência e a vida adulta. Sintomas do estresse traumático precisam ser identificados pelos profissionais de saúde para esses eventos serem interrompidos e, mais importante ainda, devem ser realizadas ações preventivas como um compromisso com os direitos de saúde de crianças e adolescentes.”

 

Há estudos sobre a relação de estresse e infância no Brasil.

Um deles está aqui, feito por Dilma Ferreira Silva e Paulo Roberto de Santana sobre com o título Transtornos mentais e pobreza no Brasil: uma revisão sistemática. Os autores concluíram que as desigualdades sociais no Brasil foram associadas a problemas de saúde mental na população e que fatores como baixa escolaridade e gênero feminino quando associados à pobreza aumentam a prevalência de TMC. Mulheres apresentam maior prevalência de transtornos mentais comuns e a situação econômica compromete igualmente a saúde mental infantil.

O outro, mais antigo, trata da Violência física e fatores associados, num estudo de base populacional no sul do Brasil. Os autores são Lílian dos Santos Palazzo, Alessandra Kelling, Jorge Umberto Béria, Andréia Cristina Leal Figueiredo, Luciana Petrucci Gigante, Beatriz Raymann e Diego Garcia Bassani. A ideia deles era estimar a prevalência de violência física e sua associação com aspectos sociodemográficos, eventos estressantes e utilização de serviços de saúde por problemas emocionais. E a conclusão foi de que a prevalência da violência física na população foi significativa, com conseqüências emocionais e impacto nos serviços de saúde, requerendo capacitação dos profissionais da área, especialmente em indivíduos do sexo feminino a partir dos 20 anos de idade, maior escolaridade, maior vivência de eventos estressantes com 20 anos ou mais e consulta por problemas emocionais a partir dos 10 anos de idade.

consequencias-de-transtorno-de-estresse-pos-traumatico-em-criancasE o estudo que respondeu melhor às minhas perguntas foi o de Evelyn Eisenstein, Eduardo Jorge e Lucia Abelha Lima, intitulado Transtorno do estresse pós-traumático e suas repercussões clínicas durante a adolescência. A conclusão deles é tristemente real:

Todo evento traumático deve ser evitado durante as fases de crescimento e desenvolvimento cerebral, pois as repercussões serão marcantes e indeléveis no corpo e no comportamento, e é importante minimizar seus impactos negativos a longo prazo. A implementação de medidas de prevenção do problema tem sempre um custo social menor em termos de saúde pública do que programas de intervenção precoce, ainda que necessários e urgentes no atendimento de adolescentes nos serviços de educação e saúde no país. As equipes multidisciplinares precisam de treinamentos específicos para avaliação diagnóstica da violência que ocorre cotidianamente e dos traumas causados com tantas repercussões clínicas durante os períodos da infância e da adolescência. A banalização da violência fortalece os danos à saúde, o ciclo da pobreza e a falta de aprimoramento dos fatores de proteção social que todo cidadão merece, especialmente os adolescentes, que representam o futuro imediato para o nosso país. 

E se você acha que já leu o suficiente, deixo esta outra pesquisa para pensar no quanto este assunto é urgente e grave:

O estresse severo e crônico causa modificações genéticas que podem ser transmitidas às próximas gerações.

Pelo que li, estudos tentam relacionar comportamento de filhos e filhas de sobreviventes (como o Holoacausto) e saber se eles podem reproduzir, sem perceber, as alterações de comportamento manifestadas pelos pais, como inseguranças, irritabilidade sem motivo e tendência ao isolamento.

Um estudo da neurobióloga suíça Isabelle Mansuy, do Instituto de Pesquisa do Cérebro da Universidade de Zurique, ampliou a compreensão desses efeitos, mas não comprovou sua hipótese em humanos. Ainda que as experiências traumáticas possam deixar cicatrizes genéticas, isso não é uma sentença.

Mas, por causa delas, a pessoa pode ter predisposição para ser ansiosa ou deprimida e jamais apresentar outra alteração.

“Tudo depende dos estímulos recebidos, do ambiente em que crescem e das suas experiências”, disse em entrevista a psicóloga Ana Maria Fonseca Zampieri, especialista em estresse pós-traumático. Para ela, as revelações do grupo suíço são mais um caminho para entender a vulnerabilidade de quem passa por acontecimentos traumáticos e de suas famílias. “Isso mostra quanto é importante dar suporte psicológico àqueles que sofreram catástrofes e às suas famílias.”

 

Vale lembrar:

A proteção de crianças e adolescentes contra qualquer forma de abuso, abandono, exploração e violência está assegurada pela Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (CDC/ONU) e confirmada pelo Brasil, país signatário desse documento. Desde 1990 existe ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n° 8.069, que assegura os direitos de cidadania, saúde e educação, como prioridade absoluta para crianças e adolescentes até os 18 anos de idade.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.