O que Madame me ensinou

Madame, da California Filmes, se tornou um filme especial: é o primeiro que estamos combinando assistir numa sessão com os amigos do grupo Cinema em casa.

Eu assisti o filme bem antes, numa cabine de imprensa e senti uma comédia cheia de estilo e que retrata um mundo tão elitista que a gente demora até a achar caricato! Fui confiando muito no trio que protagoniza e acertei: Toni Collette,  Harvey Keitel e Rossy de Palma estão ótimos!

Os coadjuvantes – destaque para Michael Smiley e Tom Hughes – também fazem contrapontos interessantes e mantém a história coesa, gerando até uma expectativa inusitada aqui e outra ali de momentos ao estilo Pretty Woman madura.

Aliás, um ponto para o filme: mostra que as pessoas “normais” acima dos 40 têm vida sexual, o que é um feito no cinema, né?

Ah, um destaque que a gente precisa sempre dar: a direção é de uma mulher. Amanda Sthers.

Creio que ela quis fazer uma obra que tinha várias camadas e muitas referências, aquilo que a geração dos meus filhos chama de “easter eggs”.

Para os brasileiros, a primeira seria a luta de classes que ficou famosa no cinema há poucos anos com Que Horas Ela Volta?.

Li críticas de cinéfilos de verdade (eu não sou deste time) que fazem referência “à grande comédia italiana e o filme Uma Vida Difícil, de Dino Risi, de 1961, no qual Alberto Sordi também é chamado a integrar uma mesa só para fugir ao fatídico número de 13 convidados”.

Assim vi acontecer com Val (Regina Casé em Que horas ela volta?) e li que acontece com Silvio Magnozzi (Alberto Sordi em Uma vida difícil), a experiência de se sentar à mesa com quem realmente move as peças do jogo muda radicalmente a vida dos personagens. E aqui Madame dá o sinal de que não seria uma Pretty Woman porque (1) não é um conto de fadas hollywoodiano (nem pelas calçadas de LA nem pelo sonho americano) e (2) a personagem de Maria (Rossy de Palma) não é uma jovem inocente, é uma imigrante de meia idade que cuida dos filhos de pessoas ricas para dar oportunidade para sua filha ser mais. Nisso ela lembra demais Val e aqui mora o grande diferencial do filme, que, de um jeito sutil, mostra alguns tipos femininos do nosso tempo: a esposa que precisa se posicionar na sociedade porque veio de uma posição inferior (em certo ponto descobrimos que Anne, vivida por Toni Collette, foi instrutora de golfe do marido), a governanta e as empregadas da casa que observam todas as excentricidades e absurdos da família com um misto de piedade e desaforo, a sombra da ex-mulher do rico decandente Bob (vivido por Harvey Keitel) que é apresentada como uma fã de Margaret Thatcher, a professora de francês que não está preocupada com nada, nem com a etiqueta nem com os modelos pré-estabelecidos, a amiga recém-divorciada que busca um novo homem para se sentir parte da sua trupe e até o marido do primeiro-ministro que faz piadas sobre seus papeis sociais durante o fatídico jantar nos lembram como alguns esteriótipos são frágeis e passageiros e outros nunca mudam.

Eu vi há pouco a série Reign em maratona na Netflix e muitos momentos me lembraram as coisas “imbecis” (desculpem o jeito, mas não acho outra forma de colocar) que os Medicis, os Tudors e os Valois sustentavam sem nenhuma sustentação.

Enfim, Rossy de Palma justifica porque se tornou a atriz favorita de Pedro Almodovar, o filme tem diversão e romance na medida certa, mas, vale lembrar, é um filme europeu, não é uma comédia romântica no estilo americano, ta? E, para completar, se passa em Paris, numa época do ano linda, clara, iluminada, com externas queridas para quem já esteve lá e muito doce para quem sonha ir um dia.

Recomendo! Mas ó, vá com outras pessoas para conversar depois, vale cada minuto com as companhias certas.

Sinopse:

Anne e Bob são um casal rico que decide se mudar para Paris. Chegando lá, se apresentam à sociedade em um grande jantar. A chegada de um convidado a mais faz com que a conta dos presentes seja igual a 13 – um número maldito pelo casal. Eles decidem então arrumar a empregada da família como se fosse uma cidadã da alta sociedade parisiense para espatar a uruca – mesmo que com isso, façam com que tudo dê errado por causa da atrapalhada mulher.

 

Se você entende francês, pode se divertir com esta conversa às mesa sobre o filme no programa  #CàVous, com Anne Elisabeth Lemoine, que contou com a presença da diretora Amanda Sthers e da atriz Rossi de Palma. 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.