O oposto de vício não é sobriedade. É conexão humana.


Admiro o trabalho meticuloso de atualização e contextualização da filosofia de Montessori que Gabriel Salomão faz.

Fora os livros que li e descobri ainda com meu filho mais velho bebê, o site Lar Montessori foi um dos meus guias – o único brasileiro – para apoiar a decisão de uma casa e atitude montessoriana para nossa caçulinha.

E essa reflexão dele sobre a “adicção” (fiz disciplinas eletivas de Psicologia na UFPR e prefiro essa palavra, explica melhor o vício) me fez rever mentalmente como voluntariar em grupo no Interact em asilos de idosas e de meninas deficientes mentais (pois é, sempre mulheres, é a sororidade) e no centro da cidade para meninos em situação de rua me salvou de recair na busca de outras coisas na adolescência vivida sem um núcleo familiar estável e sem pais presentes.

Pensei na hora numa frase do meu pai quando conseguiu deixar o cigarro:

– Sinto falta da companhia que me fazia, pois quando estava sozinho bastava acender um.

Ou sobre seus lamentos mesmo duas décadas depois de deixar o álcool:

– É muito triste sentar com amigos e ser o único que não “pode” beber, então prefiro não encontrar mais essa turma.

Quantas pessoas vivem assim e recusam nossos convites por motivos que não enxergamos?


Mas, sendo positiva… eu pensei também na hora que li que a adolescência dos meus filhos tem sido plena porque eles têm um grupo maravilhoso de amigos e amigos dos amigos e se reúnem para fazer o bem.

E porque (aqui acho importante frisar que dar um lar estável não é tudo na adolescência, temos que sair de cena porque viver excessivamente em família nesta fase pode favorecer outros tipos de “escravidão”, que é o que adicção significa) eles sentem-se livres e seguros para ampliar seu universo sem receio de não ter para onde voltar de tempos em tempos.

#abreaspas para o texto do Gabriel:

Indico também o link do Huffington Post de onde tirei a frase de Johann Hari, autor de Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs’(Perseguindo o grito: os primeiros e os últimos dias da guerra contra as drogas, em tradução livre), que usei no título: “O oposto de vício, portanto, não é sobriedade. É conexão humana.”

Ele começa contando de experimentos com ratos de laboratório e nos dando conta do quanto eles eram “limitados”, pois criavam um ambiente muito diferente da realidade humana.

 

Essa teoria foi estabelecida por meio de experimentos com ratos – experimentos que foram injetados na psique americana nos anos 1980, em um famoso anúncio da Partnership for a Drug-Free America. Você talvez se lembre. O experimento é simples. Coloque um rato numa gaiola, sozinho, com duas garrafas d’água. Uma delas tem só água. A outra tem água misturada com cocaína ou heroína. Em quase todas as vezes que você fizer esse experimento, o rato vai ficar obcecado com a água com drogas. Ele vai tomá-la até morrer. 

(…)

Mas, nos anos 1970, um professor de psicologia de Vancouver chamado Bruce Alexander percebeu algo estranho nesse experimento. O rato está sozinho na gaiola. Ele não tem nada para fazer além de usar a droga. O que aconteceria se tentássemos algo diferente? Então Alexander criou o Rat Park. É uma gaiola sofisticada, onde os ratos têm bolas coloridas e túneis para brincar, vários amigos e a melhor das comidas: tudo o que um rato poderia desejar. Alexander queria saber o que iria acontecer.

Quer mais? Eu me convenci com esta parte:

“O viciado da rua é o rato da primeira gaiola, isolado, sozinho, com uma única fonte de conforto. O paciente do hospital é o rato da segunda gaiola. Ele vai para casa, para uma vida em que está cercado pelas pessoas que ama. A droga é a mesma, mas o ambiente é diferente.

Isso nos dá um insight muito mais profundo que a necessidade de entender os viciados. O professor Peter Cohen argumenta que os seres humanos têm uma necessidade profunda de estabelecer laços e conexões. É como nos satisfazemos. Se não conseguirmos nos conectar uns com os outros, vamos nos conectar com o que encontrarmos – a bolinha pulando na roleta ou a ponta da agulha de uma seringa.”

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.