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Sebastião Rodrigues Maia, o Tião da Marmita, o Tião de Niterói, o Síndico, ou simplesmente Tim Maia, é um personagem único na história da música brasileira. Com uma vida intensa, marcada por picos extremamente altos e intensamente baixos, a única constante em sua trajetória é a música – expressa na genialidade do compositor que mais trouxe alma para a soul music brasileira.

A biografia “Vale Tudo – o Som e a Fúria de Tim Maia”, de Nelson Motta, um dos mais respeitados jornalistas musicais brasileiros e antigo amigo de Tim Maia, relata inúmeros causos de seu caminho errante , trazendo histórias suficientes para muito mais do que um filme, talvez uma série.

Não por acaso, mesmo fazendo uma difícil seleção, cortando diversos momentos da vida do artista, o diretor Mauro Lima, a roteirista Antônia Pellegrino e sua equipe entregam o filme “Tim Maia – Não Há Nada Igual” com 140 minutos de duração – que, graças à intensa vida do biografado, não cansam em nenhum momento.

O longa narra a trajetória do cantor, desde quando ele era um garoto pobre e entregador de marmitas em Niterói, amigo e vizinho de outros artistas como Erasmo e Roberto Carlos, até o fim de sua vida, encerrada em 1998 por uma infecção generalizada, consequência de um edema pulmonar.

Mais do que um cara divertido, curioso, e gênio musical, Tim Maia foi um verdadeiro meteoro entrando em atmosferas tão densas, que seu desgaste e poder de autodestruição também são tão notáveis quanto seu sucesso.

O filme é narrado na voz de Fábio Stella, amigo do artista por mais de 3 décadas, e interpretada na telona por um Cauã Reymond meio hippie. A escolha narrativa é bem interessante, já que nos deixa próximos ao artista e nos faz sentirmos amigos dele, dividindo sensações de pena, raiva, admiração e simpatia.

Os sentimentos são evocados desde que conhecemos o garoto, décimo oitavo filho de uma mãe negra na Tijuca vivendo os repressores anos 50 e 60, e entregando marmita de porta em porta.

As perspectivas do garoto só começam a mudar quando ele se envolve com a música, que permeará cada momento de sua vida. Junto com Roberto Carlos, Arlênio Livio, Edson Trindade e Wellington Oliveira, ele forma os Sputiniks e participa dos primeiros momentos da Jovem Guarda nos programas da TV Tupi comandados por Carlos Imperial.

Aqui cabem alguns breves comentários. Carlos Imperial, um clássico magnata com características de cafajeste, mas personagem essencial na história da TV e da música brasileira, é outro indivíduo digno de biografias. No filme ele é interpretado por Luis Lobianco, da Porta dos Fundos, que traz muito bem o lado cômico de um figura desses.

Roberto Carlos, interpretado por George Sauma, está engraçado. Reproduzindo de forma quase caricatural os cacoetes e a personalidade do “Rei” em começo de carreira, ele consegue reproduzir um divertido Roberto Carlos. O curioso é que o cantor, conhecido por lutar contra suas biografias, viu o roteiro do filme, e permitiu que até mesmo sua controversa relação com Tim Maia fosse explorada livremente.

Inclusive, liberdade de exploração é uma virtude desse filme. Diferente de outras cinebiografias de músicos, como a de Renato Russo, Tim Maia consegue ser bem fiel à obra de Nelson Motta e ganha por não ser hipócrita e mostrar todo o lado “feio” de Tim sem exageros, explorando seus problemas com drogas e até mesmo as duas vezes que ele foi preso. Se os personagens parecem caricatos em vários momentos, acredite: a história deles é uma loucura mesmo.

Com um linguajar engraçado e verborrágico, carregado de palavrões, Tim Maia soa como um parente próximo de Gil Brother, o Away de Petrópolis (caso não conheça, basta pensar no personagem mais desbocado que você conhecer). O mérito de um Síndico tão vivo e próximo é tanto de Babu Santana (que interpreta o canto em sua fase mais velha) quanto de Robson Nunes (que brilha ainda mais em sua fase mais jovem).

Uma coisa se torna notável em toda a trajetória do cantor: ele sempre soube se virar. A característica é claro em dois momentos: quando, sem perspectiva, ele vai aos EUA, sem saber o que procura, além de inspiração; e quando ele volta ao Brasil e tenta, com todas as forças, emplacar a carreira de artista aqui no Brasil, quando consegue, não pára por nenhum momento e está o tempo todo procurando sugar cada gota de inspiração.

Talvez, a maior de suas inspirações tenham sido as mulheres, que são tantas e tão únicas na história dele, que acabam sendo todas sintetizadas no papel de Janaína, interpretada por uma linda Alinne Moraes. Ela funciona como a grande fonte de dor e inspiração de Tim.

O único pecado é que, por questões de tempo, são exploradas relativamente poucas músicas de sua carreira.

A verdade é que é impossível não ter empatia com Tim Maia – seja ouvindo suas músicas, lendo suas histórias, ou vendo seu filme. Com o melhor e o pior dos artistas consagrados como gênios, ele deixa uma história tão triste quanto interessante, e que vale a pena ser conhecida no filme, um bom registro de um dos grandes personagens da música brasileira.

Nota da Editora: para quem não viveu a época de Tim na TV e não viu shows ao vivo (nem eu vi!), vale rever alguns momentos memoráveis:

Show na Globo:

Entrevista a Jô Soares no SBT:

No Serginho Groissman em 1987:

Com Leda Nagle:

Tim por ele mesmo:

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Jornalista e pesquisador falando aleatoriedades. Umas tags: #games #tech #música #sustentabilidade.

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