O importante é explicar as diferenças entre sexo, identidade de gênero e orientação sexual

Carol Duarte e Tarso Brant em cena de A força do querer  (Foto: TV Globo)
Carol Duarte e Tarso Brant em cena de A força do querer (Foto: TV Globo)

Mesmo quem não acompanha a novela A Força do querer deve saber do núcleo da família “normal” (de perto ninguém é normal!) que tem uma menina com transtorno de gênero. Nesta semana o drama do núcleo teve seu ápice, alguém sugeriu chamar o psiquiatra e Daniel Barros respondeu ao chamado.

Sua coluna no Estadão é de aplaudir de pé.

#abreaspas:

Eis que a conversa sobre as questões de gênero finalmente chega à sala da família, trazida às luzes da ribalta pelas mãos da autora ponta de lança Gloria Perez.

Em cena memorável tanto pelo pioneirismo como pela precisão das atuações, a personagem Ivana revelou que desde sempre se sentiu como um menino. Nascer com o corpo de uma mulher “foi um engano”. A incredulidade dos familiares refletia menos indignação do que ignorância. Chegaram a imaginar que se tratasse de um surto, que ela estivesse delirando, e sugeriram que se chamasse um psiquiatra. Ok, aqui estou.

Mas, ao contrário do que imaginavam, o melhor a fazer não é convencer Ivana de que ela é menina. O importante é explicar as diferenças entre sexo, identidade de gênero e orientação sexual. As definições podem variar um pouco, mas de forma geral sexo se refere à biologia – dos cromossomos XX para fêmeas e XY para machos até às características sexuais secundárias. Gênero refere-se ao papel sociocultural habitualmente atribuído a homens ou mulheres, bem como às características esperadas desses papéis. É aí que entra a identidade de gênero – o mais habitual é as pessoas nascidas biologicamente homens se identificarem com o gênero masculino, o mesmo se dando com as mulheres. Mas há pessoas, chamadas transgêneros, que não se identificam com seu sexo de nascimento. Reserva-se o termo transexuais para quem tenha desejo de adotar o gênero oposto, transformando corpo e genitais. E há ainda a orientação sexual, que diz por quem a pessoa sente-se sexualmente atraída. Também é mais comum que a atração se dê pelo sexo oposto ao sexo de nascimento e gênero – mas qualquer combinação é possível.

Hoje não se considera patológica a identificação com um gênero diferente do sexo. É o sofrimento que o desencontro pode gerar – como a personagem Ivana ilustra tão bem – que deve ser tratado. E se tal sofrimento só puder ser sanado com a redesignação de gênero, ou seja, ajudando a pessoa a transformar seu corpo para ser o mais próximo possível de sua identidade, é isso que deve ser feito.

 

Texto de Daniel Barros, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP.

 

Entenda:

Na novela A força do querer (2017), a autora Glória Perez apresentou um personagem com transtorno de gênero e as cenas em que a personagem Ivana (vivida por Carol Duarte) admite aos pais – Joyce (Maria Fernanda Cândido) e Eugênio (Dan Stulbach) – que se sente outra pessoa trouxeram o debate ao grande público.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.