O filme da minha (sua) vida

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Não sei mais quem foi que disse que a resposta a um texto é outro texto; que a resposta a uma obra é outra obra. Mas foi praticamente isso que o ator e diretor Selton Mello explicou na coletiva de imprensa que o blog @avidaquer acompanhou semana passada. Selton apresentava o filme que estreia amanhã, “O filme da minha vida”. E ele é o resultado cinematográfico da história que o chileno Antonio Skármeta conta no seu livro “Um pai de cinema”. Mas é, no fundo, a história da sua vida. A vida do Skármeta, a vida de Jacques (ou Tony Terranova) – o protagonista que não se sente protagonista –, a vida de Selton Mello, a minha e a sua.

1. Skármeta é o autor de “O Carteiro e o Poeta”, que, adaptado para o cinema, obteve cinco indicações ao Oscar. 2. Selton Mello faz 35 anos de carreira. Começou menino, na tevê. Foi seu trabalho anterior, como diretor de “O Palhaço”, que chamou a atenção do escritor chileno. 3. O diretor de fotografia é Walter Carvalho, uma referência na trajetória de Selton Mello. Os dois trabalharam juntos em “Lavoura Arcaica”.
1. Skármeta é o autor de “O Carteiro e o Poeta”, que, adaptado para o cinema, obteve cinco indicações ao Oscar.
2. Selton Mello faz 35 anos de carreira. Começou menino, na tevê. Foi seu trabalho anterior, como diretor de “O Palhaço”, que chamou a atenção do escritor chileno.
3. O diretor de fotografia é Walter Carvalho, uma referência na trajetória de Selton Mello. Os dois trabalharam juntos em “Lavoura Arcaica”.

 

É assim que reconhecemos as grandes obras: quando elas “nos atravessam” de tal maneira que os detalhes não mais importam, já que reconhecemos o sentimento que elas nos inspiram. “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Essa é fácil: quem disse foi o Tolstói, escritor russo.

E, olha, este filme é uma pintura! De paisagens externas e internas. Vá ver no cinema, na tela grande… As serras gaúchas nos enchem os olhos de beleza! É um Brasil belo e humano que o filme nos mostra.

Quase dá pra sentir aquele friozinho da manhã que só um café quente, na caneca, espanta. Quase dá pra sentir o vento no rosto de quem aprende a andar de bicicleta; o frio na barriga dos apaixonados que não conseguem fincar o pé no chão; a tristeza, a ternura, a decepção, a euforia, os sentimentos todos misturados como o rio que corre ou o trem que passa.

Tony Terranova (Johnny Massaro) volta para a cidade natal, para iniciar sua carreira como professor de francês, no mesmo trem que leva seu pai (Vincent Cassel) embora. Ele não sabe dos motivos, e sua mãe (Ondina Clais) é só tristeza. Ele se apaixona pelas irmãs Petra (Bia Arantes) e Luna (Bruna Linzmeyer), enquanto lida com os alunos e com a memória dolorida de sua família unida. O amadurecimento pode vir tanto das conversas existenciais com o amigo da casa, Paco (Selton Mello), quanto da travessia sob o olhar silencioso de Giuseppe, o maquinista do trem (Rolando Boldrin).

Aliás, é muito bonito ver a história de Boldrin, o apresentador do programa Som Brasil, há tanto tempo afastado do cinema, ser louvada, assim: a poesia viva do artista na história ficcional.

Sim, é um filme sobre a memória. Com tempos de cidade do interior. Da época que se revelavam fotos em um quarto escuro, se escutava o rádio, se esperava carta. Mas é um filme divertido, com tiradas ótimas. Daqueles filmes pra rir e chorar; com um olhar otimista, talvez ingênuo, mas muito generoso, para com o passado. Tony avança porque sonha. E porque tem um coração enorme.

Na vida real, é o cineasta que se mostra também otimista e generoso: cada ator que chegava para a coletiva recebia, dele, elogios, por suas características específicas. Selton Mello já partilha, de antemão, o sucesso que o filme, porventura, venha a ter! Ele olha pra trás, pro passado e, assim, nos ajuda a criar um futuro diferente para o cinema brasileiro: uma narrativa de reconhecimentos, da busca pela verdade, de acolhimento das nossas paixões, dos nossos medos, dos nossos defeitos, do aprendizado duro de virar protagonista.

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.