O eu profundo e outros eus

flipzona 019 por você.

Uma das grandes motivações para minha vinda à Flip foi a mesa debatedora de hoje. Não por Mario Bellatin – autor que eu não conheço e, se me permitem a franqueza, depois da coletiva de ontem e do debate de hoje não pretendo conhecer. Mas por Cristóvão Tezza, que se tornou famoso por um best-seller (O filho eterno, Ed. Record, no qual conta em terceira pessoa as dificuldades que viveu para aceitar o filho que tem sindrome de Down) e que, como já falei, foi meu professor e me influenciou grandemente como escritora.

Escritora? Pois é, quanto mais respiro o ar desta cidade onde até as pedras do calçamento histórico parecem nos dar letras para ler, mais eu me aceito – enfim – como alguém que vive de escrever. Mas eu jamais pertenceria a uma escola de escritores que, como a de Bellatin, é contra o uso de referências autobiográficas nas obras de ficção. Por outro lado não descreveria minha vida em terceira pessoa, como fez Tezza em O Filho Eterno.

Daí toda minha curiosidade com este debate de hoje. E me deparei com dois escritores muito diferentes entre si, o que torna o debate ainda melhor – e vale ler a descrição que Luciano Trigo, do Máquina de Escrever, sobre eles.

Cada dia mais vejo o blog como um jornalismo gonzo, aquele no qual acabamos sendo figuras das histórias, nos quais as aventuras que vivemos para chegar no texto final permeiam a obra – como os relatos de Luis Nachbin no final do Passagem  para… da TV Futura. E sobre este tema, Tezza falou

“é um grande perigo transformar a vida pessoal em literatura, porque você pode se tornar um personagem de si mesmo. Os grandes desfiles nazistas faziam isso, ao transformarem a massa num fator de composição estética, esmagando a individualidade.”

flipzona 015 por você.

Ainda bem que eu não tenho a pretensão de fazer literatura, né?

Mas eu tenho a pretensão, sempre, de participar de uma conversa com o leitor e foi com imensa surpresa que ouvi Tezza contar que esta é uma experiência totalmente nova na vida dele. Lembro de ter noticiado aqui, com entusiasmo, do lançamento de sua coluna na Gazeta do Povo chamada Blog de Papel e creio que ele se referia a ele quando comentou que ao começar a escrever para um jornal de Curitba (há menos de dois anos) ele viveu a experiência de ter o retorno, a reação, o feedback do leitor. Pessoas que mandam cartas, mensagens, que comentam o que ele escrevia. Eu não consigo imaginar que ele pode viver sem este retorno. (E passarei dias pensado sobre o que esta não-relação fez com ele como escritor)

O blog nos dá isso com uma dimensão tão forte, não? Ele nos dá outra coisa, pensei durante a conversa de Tezza com Bellatin, moderada por Joca Reiners Terron. Universaliza, globaliza, democratiza. Em resposta à última pergunta da rodada, que tratava de uma suposta literatura nacional, ambos os autores concordaram que ela não existe. E Tezza revisou a história em poucas palavras, nos fazendo concordar que a literatura foi a primeira coisa globalizada. E foi o grande meio universalizante e globalizante em termos de cultura – e quando usada com este objetivo, é democratizante também.

Daí vou voltar aos blogs: eles trazem em si o mesmo potencial, mas, como em tudo, depende de quem o utiliza fazê-lo vingar e florescer. A semente, creio, é a mesma, basta terra fértil, sol e bom senso. 😉

#flip2009 por samegui.
Mario Bellatin na coletiva de imprensa da Flip 2009.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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