Caminhar consciente nos motiva a construir uma sociedade que faça mais sentido para todos

Há alguns anos um amigo me indicou o texto: Eu, negra.

Nele, há um relato forte, que muitas vezes me fez chorar, sobre o processo de autoidentificação da autora, minha amiga e mãe de um garoto que já brincou aqui na minha casa, com o racismo estrutural que baliza nossas relações.

Arrisco republicar um trecho:

Eu estava ajeitando a bolsa no espaldar da cadeira quando nos demos conta que o segurança da loja estava retirando o meu filho, pelo braço.

Nos segundos que duraram nosso estupor e a reação, o segurança nos perguntou, nervoso e irônico: “a criança está com vocês?” Bom, fizemos um escândalo, a gerente veio se desculpar, tornamos o caso público, a loja nos mandou uma mensagem formal e leviana de desculpas (daquelas que se isentam da responsabilidade “porque o pessoal é terceirizado”), mas, no final das contas, não a denunciamos judicialmente. E, até hoje, no meio das minha reflexões, me pergunto por quê. Por que não denunciamos a loja por racismo?

Meu filho estava vestido como qualquer criança de classe média, obviamente o motivo de expulsá-lo não foi social. Como em tantos casos semelhantes ao nosso, foi racial. E eu soube disso no exato momento em que aconteceu. Mas, não fizemos a denúncia.

Aliás, sempre me perguntei também como o segurança não presumiu que ele estava com a gente. Finalmente, meu marido e eu não somos brancos. Nosso filho é a perfeita combinação de nós dois.

Nosso filho é negro.

E vê-lo negro, identificá-lo negro, tem sido fundamental para o meu processo de reconhecimento. Se bem aquele momento me paralisou, pelo inesperado, foi também uma epifania: a partir dali, não dava mais fingir que não seríamos vítimas de injúria e/ou atos racistas. Porque se o “meu ser-não-ser negra” tinha me colocado em situações por vezes difusas de preconceito mas me poupado de ser expulsa dos lugares, não pouparia o meu filho. E todo o meu processo de autoidentificação também passou a ser sobre nós, não apenas sobre mim.

E tem sido por causa disso tudo que me alinho mais ainda à militância.

Para saber educá-lo, para saber me educar, para empoderá-lo, para me empoderar, para protegê-lo, para me proteger. Para que ele e eu aprendamos juntos a tratar como devem ser tratadas situações como a da Doce Mania. Não apenas com um desabafo nas redes sociais – embora sua publicização seja importantíssima para confrontar e expor o racismo estrutural que baliza nossas relações -, mas, com a gravidade que merece.

Um tempo depois, Vanessa fez um chamado para parar a discriminação e a violência contra jovens negros no Brasil e contou esta história no TEDx São Paulo:

Neste movimento, no último ano tenho acompanhado o trabalho da ex-consulesa da França Alexandra Loras. Graduada em marketing e vendas pela École Superieure de Comptabilité et Gestion ESCG, mestre em Gestão de Mídia pelo Institut d’Études Politiques de Paris, ela escreve um blog sobre a dignidade negra e realiza palestras em várias organizações.

No vídeo abaixo, ela fala da importância de ajudar a melhorar a autoestima das crianças afrodescendentes. Gosto porque, no meio do discurso sobre a síndrome do impostor, ela fala até de nós, asiáticos.

Alexandra falava que sonhava em ver negros em papeis “normais” nas novelas. Eu também, como oriental, já pedi isso aqui no blog.

 

Haafu ou junsui? 

E outra coisa que Alexandra comenta e vale ressaltar: quantos heróis negros vemos? Como os vemos? Quem pode ser um herói?

Os heróis negros e a identidade étnica

Precisamos reflexionar sobre os valores estéticos da sociedade e sobre o destaque que damos para figuras não-brancas e não-masculinas. Precisamos sair da inviabilidade. 

Essa invisibilidade está explicada na palestra sobre inclusão social e justiça de Djamila Ribeiro, que trata de questões como o direito à voz em uma sociedade que se silencia frente às desigualdades. Mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo e colunista da revista Carta Capital, Djamila é conhecida pela militância nos movimentos negro e feminista.

O incômodo que Djamila nos pede é constante aqui no blog. Como falamos da necessidade de Afrobetizar a educação.

Afrobetizar a escola, que ideia linda!

Eu já perguntei sobre seus professores, quantos deles eram negros. E comentei como foi minha realidade na UFPR.

Quantos professores negros você teve?

Segundo a Filosofia Contemporânea, “é somente ao perceber o outro como diferente, que pode nascer, no sujeito, sua consciência identitária“.

Não me canso de dizer que foi quando eu morei no Japão e me vi fisicamente em todo mundo (no tamanho, na cor da pele, nos shampoos possíveis no mercado) que eu me entendi como pessoa e me aceitei de verdade.

🙂

Sou filha de um casal interétnico e, como Alexandra Loras, eu nunca me vi na minha mãe. Nem verdadeiramente no meu pai. Sofri insistentemente preconceito da minha a vó paterna (que perdurou e teve resultado até uma década depois a sua morte) e das minhas tias. Do lado alemão, eu também era a japonesa, do lado japonês, a “ainokô”, mestiça, mercadoria avariada. Tive que me construir em mim. Mas eu sabia exatamente de onde vinha.

O vídeo que posto a seguir, de Juliana Luna, me abriu os olhos para a experiência de quem não sabe exatamente de onde veio ou que se envergonha de suas origens.

No silêncio dos dois primeiros minutos em que se transforma fisicamente com um “adereço”, ela nos leva a uma jornada pela busca de sua identidade, consciência e propósito, e mostra que o que inspira a troca de ideias é a descoberta do potencial de cada um.

Segundo ela, quando buscamos a conexão com nossas raízes, onde quer que elas estejam, a descoberta do nosso potencial é eminente, a nível individual e, consequentemente, coletivo. Caminhar consciente nos motiva a construir uma sociedade que faça mais sentido para todos.

Editora de estilo da Revista AzMina, estrategista de comunicação, articuladora urbana, artista, atriz e embaixadora cultural. Nativa da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, e com ancestralidade nigeriana, estudou dança na UFRJ e na Germaul Barnes Dance company em NYC. Atualmente, mora entre os EUA e o Brasil e viaja o mundo criando experiências compartilhadas para pessoas de todo tipo de estilo de vida. Vive de aprofundar seus laços entre o Brasil e a Nigéria e se expressa artisticamente na confecção de turbantes, além de atuar na defesa de diversas causas sociais como os direitos da mulher e o combate ao racismo.

🙂

E para fechar este Dia da Consciência Negra, trago uma pergunta que uma nova referência nesta militância compartilhou e que eu levei para meu grupo de mães. Thais Ferreira, do Mãe&Mais, comentou sobre o Racismo no Empoderamento Materno.

Conheci o trabalho dela no Social Good Lab deste ano e tem sido interessante ter este novo olhar para questões que eu já via ou ouvia.

Alegria da semana: ser mentora da fase final destes projetos lindos do Festival Social Good Brasil 2017 🙂 Eles me lembraram, cada um à sua maneira, porque estou aqui, que dons recebi de Deus e como podemos abençoar muitas pessoas com nosso trabalho #obrigadasenhor #abraçosquecuram #encontrosquetransformam #pequenasalegrias #contesuasbênçãos #maisamorsemfavor #menospresentemaispresença 🙃😊 #repost @socialgoodbrasil: É incrível falar e refletir sobre inovação social, mas é mais legal ainda ver quem está trabalhando com isso e colocando muitas ideias na prática! Por isso os finalistas do SGB Lab têm um momento especial no palco do Festival Social Good Brasil! O Lab é o nosso laboratório que ajuda empreendedores sociais a desenvolverem seus negócios. Os finalistas desse ano são: O Chat21, uma plataforma que oferece acolhimento e informação à distância para famílias de pessoas com síndrome de Down. O Blindsight é conjunto de dispositivos de auxílio à locomoção de deficientes visuais, e o Mãe&Mais é uma solução em saúde orientada por dados que oferece ações e serviços acessíveis mães. sgb.org.br/festival

Uma publicação compartilhada por Samantha Shiraishi (@samegui) em

Ela me disse:

“As desigualdades raciais persistentes são evidenciadas pelo silêncio. Silêncio não é apenas o não-dito, mas aquilo que é apagado, colocado de lado, excluído. Sob o silêncio da opressão está a defesa dos privilégios raciais, ele não é neutro e tão pouco transparente, ele é tão significante quanto as palavras. A branquitude é portanto, o território do silêncio, da negação, da interdição, da neutralidade, do medo e do privilégio.”
Maria Aparecida Bento

Em parte falamos isso acima. Mas há algo mais para completar este Dia da Consciência Negra de Empoderamento Feminino. Thaís alerta para uma realidade diferente:

“Falar sobre questões de raça, gênero, classe, acessibilidade ou qqr outra “minoria” é cada vez menos sobre ajudar a mulher, o preto, a mãe, o pobre ou o surdo a construírem histórias únicas ou trajetórias fora da curva. É muito mais sobre virar a chave e se comprometer com a mudança de mentalidade social que a gente diz acreditar. Estes devem ser assuntos de todos e de todos os dias. Diversidade (proporção e pluralidade) é pilar chave para um futuro integralmente sustentável.”

Então, é isso, simples assim: vamos virar a chave e nos comprometer com a mudança de mentalidade social que a gente diz acreditar!

P.S. Por favor, leia também: Sobre cabelos crespos e livros infantis.

Sobre cabelos crespos e livros infantis

 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.