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(Mulheres com seus filhos desnutridos na cidade de Hodeida, no Iêmen)

(Mulheres com seus filhos desnutridos na cidade de Hodeida, no Iêmen)

Vivi a infância ouvindo falar das crianças da Etiópia que passavam uma fome descomunal e das famílias sofridas do Sertão Nordestino que não tinham água para sobreviver, sempre tendo estes exemplos como motivos para eu não desperdiçar o que tinha de benefícios na vida.

Isso moldou muito do que sou, mas, é triste, não me levou à África ou ao Sertão como missionária. Continuo por aqui, levando a mesma vida boa de sempre.

Anos depois, vejo meus filhos sofrendo com as notícias e me entristeço por ver que alguns nomes de regiões até mudaram, mas a desigualdade e a miséria humana não.

A Unicef alerta que a grave desnutrição que afeta países como Nigéria, Somália, Sudão do Sul e Iêmen apresenta “iminente risco” de morte para 1,4 milhão de crianças pela crise de fome nessas regiões.

E veja, dá tempo de tentar fazer alguma coisa:

“Ainda podemos salvar muitas vidas. O tempo se esgota para mais de um milhão de crianças. A grave desnutrição e a crise de fome são ocasionadas em grande parte pelo humano. A humanidade que compartilhamos demanda ações rápidas.”

Entenda o que acontece em cada país:

Nigéria: calcula-se que 450 mil crianças do nordeste do país sejam afetadas pela desnutrição aguda em razão dos conflitos armados na região.

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O gigante da África (tem a maior população e o maior PIB do continente), é o sétimo país mais populoso do mundo, mas um paiol de pólvora, pois é habitada por mais de 500 grupos étnicos.

O país é dividido ao meio entre cristãos, que em sua maioria vivem no sul e nas regiões centrais, e muçulmanos, concentrados principalmente no norte. Uma minoria da população pratica religiões tradicionais e locais, tais como as religiões igbo e yoruba.

Mas o problema não é só esse.

Como vemos em muitos locais (a Síria é apenas um deles), as nações que foram colonizadas por países europeus e estiveram sob seu controle até meados do século XX sofrem com problemas semelhantes.

A Nigéria é, infelizmente,e apenas um deles.

Por muito tempo a sede de inúmeros reinos e impérios, o Estado moderno da Nigéria tem suas origens na colonização britânica da região durante final do século XIX a início do século XX, surgindo a partir da combinação de dois protetorados britânicos vizinhos: o Protetorado Sul e o Protetorado Norte da Nigéria. Os britânicos criaram estruturas administrativas e legais, mantendo as chefias tradicionais. O país tornou-se independente em 1960, mas mergulhou em uma guerra civil, vários anos depois. Desde então, alternaram-se no comando da nação governos civis democraticamente eleitos e ditaduras militares, sendo que apenas as eleições presidenciais de 2011 foram consideradas as primeiras a serem realizadas de maneira razoavelmente livre e justa.

Quer ver um pouco? Civil War, o filme do Capitão América versus Homem de Ferro se passava em parte na capital nigeriana, Lagos:

Somália: a seca prolongada fez com que 6,2 milhões de pessoas, a metade da população do país, esteja em situação de “aguda insegurança alimentícia” e ao longo do ano 185 mil crianças sofram de desnutrição.

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Na Antiguidade, a Somália foi um importante centro de comércio com o resto do mundo antigo. Seus marinheiros e mercadores eram os principais fornecedores de incenso, mirra e especiarias, os itens que foram considerados luxos valiosos para os antigos egípcios, fenícios, micênicos e babilônios com quem o povo Somali negociava.

A Somália nunca foi formalmente colonizada e por sua resistência aos ingleses, o Estado Dervixe foi reconhecido como um aliado pelo Império Otomano e o pelo Império Alemão, e manteve-se durante a Primeira Guerra Mundial como o único poder muçulmano independente continente africano. Após um quarto de século, mantendo os britânicos na baía, os dervixes foram finalmente foram derrotados em 1920, quando o Reino Unido usou pela primeira vez na África aviões que bombardearam a capital, Taleex. Como resultado deste bombardeamento, o ex-territórios dervixes foram transformadas em um protetorado da Grã-Bretanha. A Itália enfrentou situação semelhante quando sofreu a mesma oposição de sultões somalis e dos exércitos e não adquiriu o controle total de partes da Somália moderna até a era fascista, no fim de 1927. Esta ocupação durou até 1941 e foi substituído por uma administração militar britânica. O Norte da Somália continuaria a ser um protetorado e o sul da Somália tornou-se uma tutela. A União das duas regiões, em 1960, formou a República Democrática Somali.

Um país muçulmano desde o início dessa religião, a Somália é um dos membros fundadores da Organização da Conferência Islâmica e é também um membro da ONU e MNA. Apesar do sofrimento constante de guerras civis e da instabilidade política, a Somália também tenta sustentar uma economia de livre mercado que, segundo a ONU, supera as de muitos outros países da África. 

A Somália é conhecida por ser um dos países mais corruptos do mundo.

Quer ver um pouco? O filme Capitão Phillips (de 2013), história verídica na qual Tom Hanks interpreta o capitão Richard Phillips na adaptação cinematográfica do livro de memórias da experiência assustadora de um capitão quando piratas sequestraram seu navio na Somália. Phillips entregou-se aos piratas, a fim de manter a sua tripulação a salvo e foi mantido em cativeiro por três dias até ser resgatado.

Aqui no blog também contei um pouco da Somália ao indicar o livro de Alexa Clay, Economia dos desajustados. Ela entrevistou piratas da região e conta como eles fazem seus negócios usando técnicas muito “modernas”.

Sudão do Sul: os conflitos armados e a pobreza do país já fizeram com que 270 mil crianças estejam gravemente desnutridas.

No mundo atual é difícil compreender como um país que tem reservas de petróleo e oleodutos para transportar essa riqueza até o Mar Vermelho pode ver metade da sua população passar fome. 

Apesar de ser rico em petróleo, o Sudão do Sul é um dos países mais pobres do mundo, com altas taxas de mortalidade infantil, e um sistema de saúde muito precário, considerado um dos piores do mundo. Em termos de educação somente 27% da população acima dos 15 anos sabe ler e escrever, chegando a 84% o índice de analfabetismo entre as mulheres e boa parte das crianças não frequentam unidades escolares.

A explicação, novamente, tem relação direta com as colônias europeias. 

Por meio de forte domínio militar os países europeus impediram que as diferentes tribos criassem fronteiras diferentes daquelas que haviam sido, por eles, arbitrariamente criadas. Essa imposição é uma das razões históricas para os frequentes conflitos entre tribos que ocorrem até o dia de hoje.

Mas, é claro, fica bem mais fácil culpar as diferenças religiosas dentro do país ou dizer que a África é assim, né?

Não achei um bom filme de ficção leve para mostrar o Sudão do Sul, mas indico este o documentário “The Village: Life in South Sudan”.

Iêmen: a guerra que afeta o país há dois anos já levou 462 mil crianças à desnutrição.

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O Iêmen, com uma área comparável à da França ou à Bahia, 5,7 vezes maior que Portugal, fica na Ásia Ocidental, ao longo da metade meridional da Península Arábica, cercado pelo Mar da Arábia, pelo Golfo de Aden e pelo Mar Vermelho.

Dos países citados pela ONU neste começo de 2017, é o único não africano, mas não se enganem, ele fica logo ali, pertinho da Somália.

A situação lá lembra a de outros países do Oriente Médio dos quais ouvimos falar muito nos noticiarios nos últimos anos – como a Síria e o Afeganistão – mas o fato é que pouco acompanhamos daquele país antigo e atualmente retetalhado entre grupos opostos e facções terroristas, alvo de bombardeios aéreos constantes, com a economia em frangalhos, hospitais destruídos e imerso numa crise de fome e desnutrição que está matando suas crianças.

O Iêmen agoniza, mas pouca gente vê.

Apesar de a situação humanitária no país da Península Arábica ser uma das mais severas do mundo, a guerra tem pouca visibilidade. tensão no Iêmen começou a se acirrar na Primavera Árabe, em 2011, quando os rebeldes xiitas houthis participaram de protestos contra o então presidente e se aproveitaram de um vácuo no poder para expandir seu controle territorial em algumas regiões do país. O grupo rebelde é respaldado pelo Irã, também xiita, e reivindica mais participação no poder.

Diferentemente de conflitos como o da Síria, o Iêmen não atrai o mesmo nível de atenção internacional.

Entre as razões apontadas, está o baixo valor estratégico do Iêmen para os grandes poderes mundiais. Segundo o instituto, apesar de o terrorismo gestado por lá historicamente ter sido um desafio para os governos ocidentais, a guerra limitou significativamente a capacidade desses grupos extremistas de viajar para fora do país, assim como o acesso de seus apoiadores ao território iemenita.

Por isso, o país não é um motivo de preocupação tão grande quanto o Iraque ou a Síria, por exemplo.

Ficou com coração partido? Eu fiquei! E honestamente não tenho como terminar este texto de um jeito bom. Digo apenas que temos que começar já a olhar para o mundo como uma coisa de todos nós e ter interesse em saber o que está por trás das notícias que lemos.

E, já que eu indiquei filmes de ficção para dar uma noção dos países que citei antes, deixo também um que tem o Iêmen como pano de fundo.

Em Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen, 2012) um xeique visionário (Amr Waked) acredita que a arte da pesca do salmão pode transformar a vida de sua gente e decide levar a pesca esportiva para o meio do deserto. Sem medo do quanto essa ideia iria custar, mas disposto a fazer o seu sonho tornar-se realidade, ele tenta contratar um especialista britânico em peixe e pesca, o Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor), que a princípio acha a história toda um grande absurdo e pensa em recusar a oferta. O assunto morreria ali se não fosse a interferência do governo britânico, que vê na iniciativa uma boa oportunidade de trazer ao público uma notícia positiva referente ao Oriente Médio, o que desviaria a atenção sobre a participação do exército no Afeganistão.

E deixo isso para fechar porque, afinal, boa parte das histórias que contei hoje aqui têm este elemento em comum: a interferência de governos estrangeiros e a oportunidade de desviar a atenção das pessoas sobre as guerras reais, que envolvem dinheiro e poder.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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