Neve negra – cinema argentino

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Confesso: falou que tinha o Darín e o Sbaraglia, eu já fiquei muito a fim de assistir. Afinal, a lista de filmes bons que os dois estrelaram é de tirar o fôlego: “Nove Rainhas”, “Um conto chinês”, “O silêncio do céu” (tem resenha no blog!), “Relatos selvagens” e aquele que, pra mim, está em primeiro lugar: “O segredo dos seus olhos”. Escolha qualquer um deles e a diversão está garantida!

O cinema argentino que eu já vi tem uma mistura de ação e diálogos intrigantes que me encanta. Tem espaço para o silêncio, um silêncio perturbador, que deixa a paisagem falar, abrindo possibilidades, contextos, interligações. Tem espaço para o drama e para os momentos cômicos, lembrando ao espectador que a vida é mesmo cheia de surpresas.

“Neve negra”, do diretor Martín Odara, aposta todas as fichas na surpresa, no suspense. O blog @avidaquer acompanhou a pré-estreia deste filme que estreia em terras brasileiras amanhã, dia 08 (veja o trailer oficial e a resenha da Monise Reis aqui) e pode garantir que os dois atores estão arrasando como sempre. Mas não só isso…

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Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia são os irmãos Salvador e Marcos. Eles não se veem há muito tempo e o espectador vai descobrir o porquê aos poucos, em flashbacks que atravessam as ações do presente como lembranças fantasmagóricas, como o aviso de que algo terrível está pra acontecer. Família de passado complicado, segredos soterrados, intenções escusas… A morte recente do patriarca promove o encontro, na partilha da herança. A morte antiga do irmão caçula dos dois os afasta de forma reiterada.

Mas o espectador é conduzido, como testemunha, pelos olhos de Laura, a cunhada. Esposa de Marcos, ela está grávida, e cabe à atriz Laia Costa fazer a ponte entre os homens, equilibrando-se entre a empatia e a dissimulação, entre a passividade e a ousadia. Tarefa difícil estar à altura desta façanha.

Ela (nós) quer(emos) entender o que está acontecendo de verdade, mas, simultaneamente, também não quer(emos) saber. Sua beleza e aparente fragilidade contrastam com a rudeza de Salvador e a violenta tempestade de neve que ameaça contê-los. Afinal, o que seria de um filme de suspense em terras geladas sem uma tempestade?!

As locações, aliás, são lindíssimas, trazendo, para a tela, a solidão assustadora de uma cabana, no meio do nada, na Patagônia argentina. E o universo da caça é uma metáfora eficiente (embora manjada) para a relação entre os irmãos. A história, em si, é simples. O principal trunfo do filme é mesmo o clima, que o diretor consegue manter em tensão – em grande parte, com a ajuda da trilha sonora. Às vezes, com música, às vezes com silêncios pontuados por um tiro de espingarda, uma chaleira no fogo ou alguém que acorda em sobressalto.

Por favor, atenção: cuidado para não quebrar a magia com seu pacote de pipoca!

Assim como na mágica, acho que “Neve negra” pede a boa vontade do espectador em aceitar seus ilusionismos, em embarcar no jogo. Na condução do roteiro, por vezes, as situações me pareceram inverossímeis, ou criavam pistas que infelizmente não se desenvolviam.

Me senti um pouco como a outra mulher do filme, a irmã de Salvador e Marcos, Sabrina (Dolores Fonzi), internada numa clínica psiquiátrica: esperando que a resolução dos segredos mude sua trajetória. Tentando comunicar seu sofrimento com as armas que tem. No seu caso, um caderno de desenhos. No meu caso, este texto. Quem sabe o que nos reserva até o acender das luzes…?

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

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