a vida quer

Passei um domingo de frio e chuva zapeando canais na TV a cabo e revendo alguns filmes. Peguei a última meia hora do filme The Deep End of the Ocean (Nas profundezas do mar sem fim , 1998) no AXN. É um belo filme, baseado na obra homônima de Jacquelyn Mitchard que se tornou um sucesso após ser indicado por Oprah Winfrey em seu programa de TV. Aliás, uma história que mescla uma questão social – o desaparecimento de uma criança – e a luta pessoal dos pais, o sofrimento dos irmãos e a redenção num final feliz é a cara do programa dela.

A história, que mostra o que a família Cappadora (curiosidade, o pai é o Treat Willians, de Everwood) passa depois que o pequeno Ben, de 3 anos, desaparece numa reunião de ex-colegas de escola da mãe, retrata aquilo que muitos de nós já vivemos, ainda que por poucos segundos, num turbilhão de emoções e imagens que nos acomete quando cometemos o mesmo erro. Sim, quem pode dizer que nunca perdeu, por segundos, uma criança? Eu passei por isso duas vezes com meu filho mais velho e posso testemunhar que “vi” uma vida passar na minha frente por segundos, imaginando o que seria viver sem ele.

Esta capacidade de empatia e identificação que sentimos em casos como este, foi comentada numa entrevista que vi com Contardo Calligaris (no Roda Viva da TV Cultura) comentando o “sucesso” do caso Isabela Nardoni. O psicanalista italiano radicado no Brasil, famoso por suas obras e por uma coluna muito popular na Folha de S. Paulo, dizia que todos, no fundo, já estiveram perto de uma atitude extremada com suas crianças. Todos podíamos ser o pai de Isabela, já chegamos em casa cansados e perdemos as estribeiras com nossas crianças. E por isso, penso eu, até por auto-punição e autocontrole, optamos por condenar imediata e veementemente o comportamento dele.

Tendemos a ser extra-punitivos como povo. A mãe do filme que citei, personagem vivida por Michelle Pfifer, é assim, ela sofre e ao mesmo tempo acusa, de forma silenciosa mas insistente, o filho mais velho pelo sumiço. O personagem teria 7 anos e largara a mão do irmão de 3, por quem era responsável no tal evento. Pode uma criança ser responsável por outra?

Penso nos meus filhos e vejo que de forma natural esta responsabilidade acontece, no mínimo no lado emocional. Meu caçula divide entre o pai, a mãe e o irmão seu porto seguro. Muitas vezes me parece que qualquer um de nós lhe traz segurança, mesmo o irmão criança serve como porto seguro ou referência. O primogênito não, ele é sempre forçado a ser mais do que gostaria – ou talvez possa – ser, mesmo sem nossa cobrança. No final do filme que comentei, o filho desaparecido, que ressurge após 9 anos e não consegue se lembrar de nada da família de origem preferindo ficar com o pai adotivo, mas ao final volta ao lar porque se lembra do irmão mais velho. A lembrança lhe faz ver que sentiu falta dele e ensina o caminho de volta, numa sequência de cenas lindas, que sempre me emocionam, como me emociona pensar na importância da vida com irmãos, da fraternidade para seguirmos em frente. Os irmãos são o esteio da vida e sou feliz por ter crescido com irmãos e poder oferecer esta convivência fraterna aos meus filhos!

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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