destaque / entretenimento

 

“Don’t call me son”, diz o cartaz, em inglês, do mais recente filme de Anna Muylaert, que participou do Festival de Berlim em fevereiro. “D’une famille à l’autre”, em francês. Aqui no Brasil ele chega hoje, às telas, com o nome de “Mãe só há uma”; sob fundo rosa pink e foto abertamente provocativa. A vocação da cineasta em colocar o dedo em feridas abertas está escancarada. Saí da cabine de imprensa com aquela impressão de estar diante de um filme tão duro quanto necessário ─ neste momento, neste país.

Depois do sucesso (e polêmica) de “Que horas ela volta?”, o diálogo entre os filmes será inevitável. Mas, aqui, acompanhamos o filho. Pierre (Naomi Nero) é um adolescente de 17 anos que tem sua vida completamente alterada quando um exame de DNA prova que sua mãe não é sua mãe. E que sua mãe biológica esteve a sua procura durante todos esses anos. Se na ficção essa ideia já é aterrorizante, imagine que o roteiro é livremente inspirado numa história real, brasileira, acontecida em 1986 em Brasília. O menino foi roubado na maternidade.

Ecoam também os casos das crianças sequestradas pela ditadura argentina: recentemente José Luís foi apresentado pelas Avós da Praça de Maio e ainda tenta retirar o sobrenome que carrega dos seus sequestradores. Sua família biológica está viva, o que é raro pelas circunstâncias envolvidas.

A família de Pierre também está viva e quer contato com o rapaz. Mas tudo é assustador: deixar a casa, a escola, a banda de rock, ser chamado por outro nome (Pierre é Felipe, na nova família), deixar a irmã. Tudo lhe parece perda e, quanto mais pressão, mais fechado e agressivo Pierre vai se tornando. Ele tem que se reinventar. Ele tem que descobrir quem é. E isso inclui a sua sexualidade. Que adolescente não passa por isso?

 

Mas aqui, temos calma para olhar, para juntar os pontos, conforme o nosso repertório. Anna nos guia e nos dá esse tempo. Tempo de esperar um ovo fritar, de aguardar se a porta será destrancada, de esperar o personagem voltar para o quadro. É importante. Porque as questões serão perturbadoras: Pierre beija meninos, beija meninas, pinta as unhas, não se encaixa. Felipe é homossexual? Transexual? Felipe pode ser roubado novamente? Até que ponto as coisas podem piorar? Ele não vê nada de bom na nova casa, em conhecer um pai, um irmão? Também estamos, como espectadores, perdidos. Também não nos é dada muita explicação.

Sim, o filme exige que o espectador preencha lacunas. A ideia era justamente essa: explodir com os rótulos e jogar o espectador num espaço incômodo: da impossibilidade de rotular”, disse Anna Muylaert, ao blog @avidaquer.

Nesse sentido, é bem diferente de “Que horas ela volta?”, cuja estrutura narrativa era mais fácil de acompanhar. “Mãe só há uma” é menos solar, por assim dizer; embora o carisma do elenco assegure delicadeza, verdade e até momentos cômicos. Mas prepare-se: quando você achar que tem tempo para respirar, o filme vai acabar.

 


EXTRAS

  • São muitas mães nesse filme. Observe o papel da irmã de Pierre, na cena do ovo. Observe o papel da assistente social, sua impotência, sua escuta da situação. Observe o papel da tia, que acaba servindo de intermediária em toda essa transição. Mãe só há uma?
  • Fique até o final, quando aparecem os créditos da produção e confira o nome das atrizes que interpretam Aracy e Glória. Pra mim, foi totalmente surpreendente.

ENTREVISTA

annaM

A cineasta Anna Muylaert respondeu algumas perguntas pra gente. Confira:

@avidaquer: O filme foi gravado em São Paulo. É sempre forte ver que a história se passa em lugares reais, que muitas vezes conhecemos. Que importância isso teve, pra você, na condução do enredo?

 AM: Esse é o meu filme com mais locações.  Temos dois universos diferentes: a periferia que oferece mais liberdade ao jovem e os portões do condomínio do jardim Europa. Além disso, o personagem curte a cidade em baladas ao ar livre. Este passeio faz parte da sua adaptação na nova vida.  Por ele ser jovem, ele tem essa característica da mobilidade.

 

@avidaquer: O filme mostra em primeiro plano o conflito de identidade do rapaz, mas traz outras questões ricas para o debate (o papel das mulheres que cercam Pierre, o fato real que inspira a história, os limites da justiça/ da assistência social/ do poder aquisitivo). Como foi equacionar as esferas íntima e social, no roteiro?

 AM: Foi um jogo, um quebra-cabecas. Na verdade a história real já traz essa questão da intervenção do Estado no caso.  Ele foi resolvido parece que por robôs, já que jogaram o menino numa situação impiedosa. Ao mesmo tempo, ele acaba lidando com isso enfrentando seus novos pais e, consequentemente, a sociedade – em nome de sua identidade individual.

 

@avidaquer: Que dificuldades se apresentaram pra fazer este filme? Que outros desafios vai procurar, a partir dele?

 AM: Os filmes são sempre complicados, mas este filme teve uma harmonia boa em todo o seu processo. Creio que o período mais difícil foi o da montagem, até encontrarmos o caminho mais forte para esta história. Agora preciso descansar, mas já estou esboçando uma história sobre machismo. Estou interessada em histórias que desnaturalizem práticas sutis de autoritarismo ─ tanto sexista, quanto racista, quanto homofóbica ou transfóbica. Estou interessada em histórias de personagens que enfrentem e quebrem antigas regras em nome de suas liberdades individuais.

The following two tabs change content below.

Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

Latest posts by Lívia Lisbôa (see all)


Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas