Não existem estrangeiros

Semana de eleição costuma ser tensa e neste ano, particularmente, os nervos de muita gente estão sendo postos à prova. Os meus, pelo menos, estão.

A simples possibilidade de elegermos um candidato que se coloca abertamente contra minorias, e que já falou publicamente em homenagem a um torturador desafia os meus neurônios (e o meu fígado). Ao mesmo tempo que tento respirar, pergunto-me o tempo todo se não estou exagerando, se não estou reagindo a uma bolha de informação muito fechada, se não estou apenas tentando preservar os meus próprios privilégios.

E aí, a lição que tenho aprendido é a de que é necessário me abrir mais. E tentar ver a escuridão com outros olhos. É isso o que a arte faz. E é isso o que as pessoas corajosas fazem.

Como sou dessas que acreditam que não haver coincidências, uma amiga compartilhou comigo, hoje, este vídeo:

E minha reação foi: “Os invisíveis” estreia amanhã! Preciso escrever este texto já!

Por quê?

Porque o filme de Claus Räfle traz histórias reais, com depoimentos reais de judeus que sobreviveram ao nazismo, dentro do lugar mais perigoso pra se estar entre 1943 e 1945 (depois, obviamente, dos campos de concentração): Berlim.

O trailer é emocionante, a direção de arte é linda, mas pérola mesmo é ver o rosto envelhecido dos quatro jovens (Hanni, Cioma, Eugen e Ruth) contando suas histórias. Sim, em meio à trama de fuga, astúcia e delações, parte do filme é um trabalho documental, que pesquisou e entrevistou testemunhas contemporâneas. E, ao olharmos para elas, é impossível não pensarmos que “cada vida importa”.

Arrancados de suas rotinas, os quatro são obrigados a passar um medo, uma fome e um frio que, anos depois, ainda estão inscritos em seus corpos. Mas a palavra que eles escolhem registrar para a posteridade, na frente de uma câmera de cinema, é uma palavra de amor. Eles são capazes de agradecer aos alemães que salvaram as suas vidas, enquanto outros alemães tentavam desumanizá-los e exterminá-los.

Alguns dos protagonistas não estão mais vivos. Mas sua história foi registrada, para não ser esquecida. Não é uma história toda bonita, mas é a história do povo alemão.

“Nós nos voltamos para o Centro Memorial da Resistência Alemã, em Berlim, que abriga o grupo de pesquisa do Centro Memorial dos Heróis Silenciosos. Seus historiadores dedicaram muitos anos a essas histórias que se desdobraram em um contexto ilegal”, disse Räfle, diretor do filme.

E havia gente corajosa, agindo na escuridão dessa página tenebrosa da História do Mundo; gente alemã.

Gente que via no judeu, no estranho, no estrangeiro, não o “inimigo da pátria”, não o “aliado do diabo”, a “raça impura”, mas o tio, a filha, a namorada do filho que foi pra guerra e pode não voltar, um primo distante que é preciso acolher (como a Valarie fala, em sua conferência, naquele primeiro vídeo lá em cima). No final das contas, não existem estrangeiros.

Que as ruas escuras possam se converter em uma bênção, que nos permitam o encontro com a nossa sombra, assim como protegiam os encontros de Ruth Arndt com sua família. Que a gente possa atravessar a semana (e os próximos anos) tendo em vista esse amor revolucionário, que torna visível aquilo que é realmente importante.

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

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