relacionamentos

Nesta semana muitas reportagens dão conta do papel da mulher atual. Eu acompanhei várias, mas o panorama mais interessante que ouvi sobre nossos avanços foi da redação de um dos meus meninos. O texto fazia um levantamento dos papeis femininos das mulheres da família no século XX e deixava antever o que seria das mulheres nascidas no novo milênio.

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(Senta que lá vem história!)

A primeira mulher da família nascida no século XX foi minha avó Matsuno, em 1902. Criada numa cidade nas montanhas de Niigata num Japão quase feudal, era filha mais nova de uma família de “goushi” (casta dos agricultores),  nasceu no período Taishô (que sucedeu ao Meiji, quando o país se abriu para o ocidente e universalizou a educação fundamental e antecedeu à bélica era Showa) e, apesar das restrições de direitos femininos, estudou e teve uma infância e adolescência feliz e bem tratada. Foi enviada para o Brasil pelo irmão mais velho e aqui casou jovem com meu avô com quem teve 10 filhos (dois falecidos ainda bebês) e construiu uma história no campo, repetindo a tradição de sua família. Apesar disso, Batian viveu cheia de vergonha por ter migrado e não ter “feito a América”, apostando em poucos descendentes para continuar seu amor pela leitura e por escrever histórias. Embora ela demonstrasse apreço por meu empenho escolar, descobri, quando morei no Japão e fiz contato com a família dela, que ainda mora lá na mesma propriedade, que ela se envergonhava tanto da “mistura de sangue” dos filhos que nunca (em mais de meio século de cartas trocadas com uma prima) contou que nós, os mestiços, existíamos.

Cinco anos depois, em 1907, nascia minha bisavó materna, Conceição, brasileira filha de Mineiros que migraram para o interior do Paraná para a construção de ferrovias. Criada no “Norte Velho”, perto do que seria a divisa de São Paulo e por isso distante da capital, teve poucas chances. Não estudou, casou-se cedo, ficou viúva aos 17 anos já com minha avô bebê nos braços, casou outras 3 vezes para se manter “apoiada” e só conheceu um pouco de de felicidade conjugal com o quarto esposo, que lhe “deu” uma dúzia de enteados para terminar de criar. A vida dela foi cuidar dos outros, indo de uma casa de filho ou neto para outra, onde achava que “precisavam dela”.

Em 1924 nasceu minha avó Maria Augusta, em circunstâncias não melhores do que sua mãe, Conceição. Ainda criança ela foi “acolhida” por uma família rica com a qual aprendeu muito sobre os cuidados da casa, organização de eventos e o trato com a “alta roda” paranaense, mas não aprendeu a ler ou escrever uma única palavra e foi só ao casar com meu avô, um jornalista 20 anos mais velho que ela, que se matriculou no “Mobral” (curso de alfabetização de adultos), do qual saiu antes do tempo por conta dos enjoos com a gravidez da minha mãe. Ela já tinha 23 anos e com estes rudimentos de leitura e escrita é que viveu até os 63.

Em 1915 nasceu na Espanha a avó do Guilherme, Maria Del Carmen (que ainda está viva e completa  97 anos em julho). Filha de comerciantes na Andaluzia, migrou com a família para o Brasil ainda bebê e completou um ano no navio a caminho daqui. Estudou pouco, até a quarta série, ainda em Bauru, interior de São Paulo, onde casou. Trabalhou pouco tempo fora de casa também (como bordadeira) e viveu a vida em função dos filhos e, por mais de 5 décadas, viveu com o marido, cuidando da casa e atendendo aos caprichos de ambos.

As avós dos meus filhos, minha mãe e minha sogra, nasceram na década de 1940 e viveram realidades muito diferentes por serem pré e pós Segunda Guerra Mundial e pela idade que tinham no Golpe de 1964. Seis anos podem significar muito, mas crescer e viver em uma cidade média (minha mãe, de 1948, é de Ponta Grossa, no Paraná) ou naquela que seria a maior cidade da América do Sul (minha sogra, de 1942, é paulistana, criada na Zona Norte e fez faculdade na PUC-SP no começo da década de 1960), mas as condições familiares também pesaram. Uma era filha de imigrante, outra tinha a ascendência européia mais distante. Mas vejo na escolaridade, feita por ambas em escolas de freira, o “melhor” da época para as moças de família, a grande demonstração do jeito como se pensava a condição feminina naqueles tempos de “O sorriso de Monalisa”. No Brasil de 1960 (quase começo de 1970) algumas mulheres passaram suas mães no estudo (ambas fizeram curso superior, sempre trabalharam na área que escolheram), mas não tiveram que “lutar” para ter seu lugar ao sol e abrir espaço inteligente numa sociedade que esperava que, no fundo, elas se contentassem com uma vida profissional medíocre (“pra cumprir tabela”) e se regozijassem em “reinar no lar”, atendendo prestimosamente ao marido e filhos.

Para esta geração houve a universalização da ajuda doméstica (empregadas e babás passaram a ser apoio mais acessível porque as mulheres podiam pagar por seus serviços), a chegada da pílula anticoncepcional que permitia programar o tamanho da família (em 1969), o divórcio que lhes permitiu “recasar” e “começar de novo” (em 1978), mas ainda faltava o “direito de se sentir no direito” a tantas escolhas. Poucas mulheres “normais” optavam por ir além nos estudos, a não casar, a abertamente optar por não ter filhos mesmo casadas, a não ser Super Mãe e Mulher Maravilha ao mesmo tempo.

Eu nasci quando os direitos a escolha começaram a surgir de fato e a única escolha que não tive foi a de não avançar nos estudos. Nunca me perguntaram se “eu queria” fazer faculdade, eu era convidada a contar “qual curso queria”. Sempre gostei de artesanato, mas nunca pude guardar nada pro meu enxoval porque meus pais não queriam que o casamento fosse um objetivo da minha vida. A festa do casamento e a casa perfeita não foram, mas a parceria a relação amorosa que me completa acabaram sendo bênçãos que eu ganhei ainda jovem. Casei com 23, fui mãe com 27 e 29, para mim tudo foi a hora certa e nada me impediu de continuar sendo cidadã e profissional.

Creio que se temos algo para comemorar, observando todos os avanços sociais e culturais que as mulheres conquistaram no século em que nasci e que, felizmente, são naturais para as meninas nascidas no século XXI e que serão minhas noras (e netas, quem sabe?), é o fato de não precisarmos mais nos ater à luta e sim buscar uma convivência harmoniosa e colaborativa entre homens e mulheres, entre diferentes gerações e povos, de modo que possamos nos atuar em conjunto na construção de um momento verdadeiramente igualitário.

Este post faz parte da Blogagem Coletiva pelo Dia internacional da Mulher, promovida pelo blog Uma pitada de cada coisa.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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