cartas para o futuro / destaque / girl up!

Taí um projeto que eu adoraria adaptar para nossas terras: mostrar, num mapa real e vivo, as mulheres que fizeram história por aqui.

Já pensou em caminhar por aí e ser avisado de que naquela esquina uma mulher mudou um pouco o destino da gente? E poder contar isso para as meninas que você conhece, mudando o modo como elas se sentem sobre seu papel social, sobre o que podem fazer para o mundo ser melhor?

Incrível, né?

O projeto da SPARK, uma Organização Sem Fins Lucrativos criada com o objetivo de colocar as mulheres no mapa, começou por conta daqueles ícones fofos do Google, sabem? As garotas de lá notaram que só 17%  dos doodles comemorativos do Google mostravam mulheres, contataram a empresa e começaram a trabalhar juntos para mapear e mostrar mais mulheres que fizeram história.

A Organização contatou o Google e passou a pesquisar e homenagear mulheres notáveis através de um projeto de mapeamento utilizando o Google Field Trip app.

Por conta desta parceria, quando usuários do aplicativo estão perto de algum lugar onde há registros de notificações históricas de conquistas por mulheres, eles são abordados por um bip do celular, podendo ler um pouco sobre a conquista no app.

Na defesa do projeto, eles levantaram alguns dados (disponíveis no Equal Visibility Everywhere) que a gente podia descobrir por aqui também:

  • Não há feriados nos EUA que homenageiam mulheres – será que temos por aqui algo além do dia da padroeira do país?
  • Não há mulheres nas notas de dolar dos EUA – aqui nós já tivemos, devo admitir!
  • Só 9 das 100 estátuas do US National Statuary Hall são de mulheres
  • Menos de 25% dos selos dos EUA homenageiam mulheres – este dado filatélico eu não sei nem onde buscar para saber como é no Brasil!
  • Na cidade de Nova York, há 150 estatuas e somente 5 são de mulheres – qual será a proporção das nossas?

Uma das características mais originais da Organização SPARK é que o movimento de colocar mulheres no mapa conta com a contribuição de garotas de 13 a 22 que trabalham investigando e se educando sobre mulheres inspiradoras na história. Vamos inspirar meninas brasileiras também?

Eu queria, por exemplo, andar na rua e saber que Eufrásia Teixeira Leite esteve lá. Admiro esta brasileira, primeira mulher a negociar comanditeis brasileiros no exterior, que a escritora Claudia Lage livrou da pecha de ser “namorada de Joaquim Nabuco.

eufrasia teixeira leite

Após a morte dos pais, ela viajou para a França, entrou para o mundo dos negócios e multiplicou sua herança, tornando-se acionista de empresas de diferentes países. Elegante, independente, inteligente e voluntariosa, Eufrásia Teixeira Leite frequentou a aristocracia francesa, ganhou admiradores e se relacionou durante alguns anos com o político pernambucano e abolicionista, Joaquim Nabuco. Francisca faleceu na França em 1899. Eufrásia só voltou a frequentar a Chácara da Hera em períodos esporádicos, já na década de 20. Em 1930, aos 80 anos, morreu em seu apartamento no Rio, sem nunca ter se casado e sem herdeiros. Suas cartas revelam um espírito inconformista que a levou a uma vida fora dos padrões de sua época.

Destaco um pensamento que cabe em muitas de nós, no século XXI:

“É demais a opinião de minha gente, que não compreende como eu não sou a mais feliz das criaturas; parece que para isso só me falta ser como todo mundo”.

analia franco Anália Franco, por exemplo, você sabe quem ela foi? Sabia que por volta de 1906 ela inaugurou uma colônia para mulheres na Mooca, onde também fundou uma orquestra

Moro na Mooca e certamente eu ando em ruas onde Anália Franco fez poucas e boas no começo do século XX. Escritora, professora e jornalista, ela nasceu em 1º de fevereiro de 1856. Colaborou em jornais literários e na imprensa feminista. Em 1901, criou a Associação Feminina Beneficiente e Instrutiva de São Paulo, preocupando-se com a miséria e a erradicação do analfabetismo. Em 1903, foi pioneira na criação de creches para crianças cujas mães trabalhavam fora. Em 1906, adquiriu uma fazenda na Mooca e ali inaugurou uma colônia para mulheres. Dessa iniciativa surgiram ainda uma orquestra e um grupo dramático musical. Expandiu seu trabalho por toda a cidade, sempre centrado na educação e na solidariedade.

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Como Eufrásia, ela era abolicionista convicta e dedicou-se à educação e ao acolhimento de crianças carentes, em sua maioria negros, que se encontravam excluídos da sociedade. Seu trabalho não se restringiu à associação, tendo ainda fundado mais de setenta escolas e mais de vinte asilos para órfãos.

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Situado entre as ruas Professor João de Oliveira Torres, Antonio Alves Barril, José Oscar Abreu Sampaio e a Avenida Regente Feijó, o Lar Anália Franco – uma edificação bandeirista do século 18 – possui uma intrínseca relação com a história do Brasil após a abolição da escravidão, em 1888.

Espero que nunca mais você consiga passar por estas regiões sem lembrar destas grandes mulheres. E de falar delas para as meninas que você conhece, mostrando para elas que uma andorinha só faz verão sim e que juntas somos muito mais fortes.

Você nunca veio para o Tatuapé, também chamado de Jardim Anália Franco?

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Ah, mas tenho quase certeza de que já passou pela Praça Pérola Byington, na Bela Vista, onde fica o Teatro Imprensa, entre outras tantas coisas paulistaníssimas.

Descendente de imigrantes norte-americanos, nascida em 1879, em Santa Bárbara, SP, Pérola fundou, em 1930, com a sanitarista Maria Antonieta de Castro, a Cruzada Pró-Infância, entidade voltada ao combate da mortalidade infantil, cujos índices eram assustadores na época. Lutou pela institucionalização do Dia e da Semana da criança, não por motivos comerciais, mas com o objetivo de chamar a atenção sobre os problemas da infância. Procurou influenciar autoridades para a execução de programas voltados ao cumprimento de direitos adquiridos pelas mulheres. Desde 1933 defendia a importância da educação sexual.

No Brasil, foi uma das primeiras a defender a divulgação das causas da mortalidade no parto e pós-parto, com a finalidade de melhorar o pré-natal. Nessa defesa, em julho de 1938, na Semana das Mães, fez uma intervenção pública, enfrentando críticas. O Hospital Pérola Byington, criado pela Cruzada Pro-Infância, é hoje administrado pelo Estado e tornou-se referência no atendimento à saúde das mulheres e particularmente das que são vítimas de violência.

Pérola Byington

Continua achando tudo estranho? Pois então achei um lugar onde você já esteve!
A Esplanada Li Bo Bardi, aquele vão sob o MASP. Isso mesmo, em 13 de agosto de 1992, uma lei municipal deu o nome de ao famoso vão do MASP, situado embaixo do Museu de Artes de São Paulo, na Av. Paulista. Além de ser conhecida por ter projetado o MASP, Achilina Bo, mais conhecida como Lina Bo Bardi, foi uma importante figura dentro da arquitetura brasileira, além de ser uma admirável personagem da vinda intelectual brasileira.

Já falamos com carinho dela no post 11 de dezembro: parabéns arquitetas brasileiras! Lina professora, escritora, designer gráfica, de jóias e de móveis, editora de revistas, cinegrafista, figurinista e curadora de exposições. Junto com seu marido, Pietro Maria Bardi, criou e dirigiu o Curso de Desenho Industrial no Instituto de Arte Contemporânea (IAC), onde lecionaram grandes nomes da arte nacional, como o pintor Lasar Segall, o paisagista Roberto Burle Marx e o arquiteto Rino Levi.

lina bo bardi no masp

Em 1952, promoveu o Primeiro Desfile de Moda Brasileira com tecidos desenvolvidos especialmente para o clima, os quais possuíam padronagens feitas pelos artistas Sambonet, Burle Marx e Caribé. Nesse período, Lina ingressa no Partido Comunista Italiano e participa da resistência à ocupação alemã. Ao longo de toda a sua vida, participa e desenvolve projetos permeados de preocupação social, marcados pela influência da cultura popular brasileira e pela presença do diálogo entre as pessoas e os espaços/objetos.

Você lembra de outras mulheres que viveram momentos históricos por onde andamos todo dia ou que estão imortalizadas nas ruas das nossas cidades?

Conte para nós.

Mande seu texto com fotos para avidaquer@gmail.com.

 

(Gratidão aos dados daqui, que me ajudaram a iniciar a pesquisa das ruas paulistas)

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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