empreendedorismo / sustentabilidade

“O direito ao crédito deveria ser o primeiro dos direitos humanos, porque ele estabelece os outros direitos.”
Muhammad Yunus

Não tive ainda tempo de escrever com calma, mas a palestra com o Muhammad Yunus na terça-feira foi incrível. Como escrevi no twitter (como sempre, fiz uma espécie de cobertura ao vivo pelo microblog ), foi um divisor de águas em minha vida. Estive na palestra pelo Real Sustentabilidade, que patrocinava o evento.
A vida dele e seu trabalho para dar crédito aos carentes e ensiná-los a sair da pobreza é uma obra prima que foi reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz em 2006, quando o mundo o conheceu como o Pai do Microcrédito. E, como falou o jornalista no vídeo acima, foi quase uma ironia sua palestra no meio da crise econômica atual. E eu senti como uma chance de descansar no oásis no meio do deserto em que vivemos, uma sociedade em que a água da vida (o amor ao próximo) é um bem tão escasso.
Identifiquei-me com tantas coisas, que saí de lá com o coração pleno. Como ele, não combato o capitalismo, mas acredito também que o dinheiro deve ser um meio, não um fim. Como ele disse:
“Ganhar dinheiro é um meio, usá-lo no social é um fim”.
Partindo desta idéia Yunus começou a emprestar dinheiro para mulheres pobres de Bangladesh, seu país natal, na tentativa de tirá-las do sofrimento impingido pelos contratos com agiotas. Daí a criar o Grameen Bank (banco do vilarejo, na tradução literal) foi questão de tempo. Certo tempo e muita força para suportar o preconceito que em seu país significava até um repúdio social por ele ter voltado o projeto para as mulheres. Ele nos dizia, com uma simplicidade e paz que não dava para acreditar, que já que as mulheres eram metade da população, considerou que o justo seria metade do dinheiro emprestado ficar nas mãos delas. E lutou por isso, contra religiosos que acreditavam que ele estava fazendo algo contra seus dogmas (a sociedade é muçulmana), contra outros banqueiros que faziam pirraça da sua insistência no público feminino e paupérrimo e, pior, das próprias mulheres que preferiam que os homens que chefiavam suas famílias fossem os beneficiários. Demorou 6 anos até que os tomadores de empréstimos chegassem a ser em número igual de homens e mulheres, mas ele conseguiu. E conseguiu muito mais seguindo uma regra simples: ao atender pessoas numa aldeia, os representantes do banco fazem as entrevistas nas casas das famílias e assim verificam realmente quem é pobre ou quem quer se passar por pobre. O banco vai até a casa de seus clientes e conversa sobre suas necessidades e, ao conceder o empréstimo, não exige nenhuma garantia, dispensando advogados e burlando a burocracia.
Visita dos entrevistadores do Grameen Bank nos arredores de Bangladesh

Visita dos entrevistadores do Grameen Bank nos arredores de Bangladesh

Não seria uma solução para nossos projetos sociais como o Bolsa Família? Yunus opinou sobre este projeto. Disse que se apenas der dinheiro à família carente, não serve. Mas se tiver uma segunda etapa que ensine a mudar de vida usando este crédito, isso pode dar resultado. E ele insiste que mudando a vida de uma família daremos chances às crianças e, pensoeu, faremos uma corrente do bem que vai se refletir na nossa sociedade.
Hoje, o Grameen é o maior e mais famoso banco de microcrédito do mundo, tem um superávit anual de 22 milhões de dólares, conta com 22 mil funcionários e já emprestou mais de 7 bilhões a cerca de 7 milhões e meio de pessoas. O índice de inadimplência é de dar inveja a qualquer banco convencional: não chega a 2%. Os números do banco impressionam, não pelo valor, mas pelo alcance. Começou informalmente em 1974 emprestando 27 dólares a 42 pessoas, sem juros e sem um prazo fixo par
a devolução. Ele não só recebeu tudo de volta, como conseguiu apoio do Banco Central de Bangladesh para ampliar o modelo. “Se 27 dólares faziam aquelas pessoas mais felizes, isso poderia ser feito para muito mais gente”, afirmava Yunus. Ainda hoje as cotas de microcrédito costumam ser em torno de mil dólares, que já fazem toda diferença na vida de uma familia carente. Ao final do encontro, os participantes ganharam um livro bilíngue do Banco Real sobre Microcrédito, que estou começando a ler e que, do fundo do coração, espero que me sirva de inspiração para começar uma mudança mais perto de mim, atuando como fomentadora de grupos de microcrédito para pessoas carentes também. Quem sabe? Todos podemos ajudar de alguma forma.
🙂
P.S. Se você ficou interessado, tenho um exemplar a mais do livro que trouxe para sortear entre os que participarem da blogagem coletiva da sustentabilidade que estamos planejando para o começo de dezembro.
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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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