Minha gratidão a quem faz sua voz ser ouvida nas ruas, em casa, nas redes sociais


Em 2013, comecei a pensar no #vemprarua. 

Foi um convite inusitado e uma prova de confiança de Bia Granja – me chamar para ser curadora #socialgood às vésperas de dar à luz à minha caçula – e quando nós decidimos falar de gente que vai à rua protestar e fazer diferença se reunindo através das redes sociais digitais era abril e o tal Vem Pra Rua de junho não tinha acontecido nem dado sinais. 



Com uma recém-nascida e duas crianças, eu não fui pra rua. Protestei na janela, com os panos brancos, como farei hoje com a bandeira brasileira. 

Não sou menos politizada, menos cidadã, menos patriota porque não fui pra rua cara-pintada – isso foi nos meus 19 anos e eu, que tinha ido pra rua muitas vezes em 89 contra o Collor, me arrependo por não ter me manifestado. 

Mas não fazer algo é parte da história da gente e faz parte da cidadania fazer escolhas, se arrepender e tentar de novo.



Tenho amigos queridos e também tenho pessoas a quem respeito nos dois lados dessa polarização que toma conta do país. Valorizo a posição e a voz de cada um. 

A voz e o direito de se posicionar sobre um tema deveriam ser defendidos por todos, mas em especial para as pessoas que, como eu, viveram o totalitarismo e os anos escuros do Brasil sob o controle militar. 

Meu avô, jornalista e político que se opunha ao possível Golpe, foi deposto assim que os militares tomaram o poder. Minha família viveu sob investigação e observada de perto por mais de uma década, mesmo depois do falecimento de meu avô. Mas minha mãe preservou os livros dele e foi assim que descobri sua postura política, sua personalidade e suas crenças, tão diferentes das minhas, mas tão coerentes com alguém que viveu de 1904 a 1969, noticiou duas grandes guerras, opinou sobre o amadurecimento da democracia brasileira e consumiu a fortuna da família para ser reeleito sem patrocinadores.

Cresci vendo meu pai, uma das pessoas mais informadas que conheço, sendo obrigado a posar nos palanques com militares porque era gerente de um banco estadual em plena ditadura. Ao sair para compromissos assim, eu perguntava o que era, se eu podia ir junto, e ele me dizia que se pudesse não iria, que era “obrigado” por conta do trabalho e que o fazia para garantir nossa segurança – sim, como genro de um dos políticos depostos, ele vivia sob observação. Fico feliz porque me parece que hoje quem vai à rua não o faz por obrigação – escolhe fazê-lo, exercendo sua liberdade de opinião e de escolha.

Anos mais tarde eu e meus pais votamos pela primeira vez para presidente da república juntos, em 1989. Eu era da “geração Se Liga 16”, a primeira menor de 18 anos a ter direito ao voto, ele da última turma sem direito de voto da década de 1960. 31 anos nos separam e mesmo assim descobrimos a democracia juntos. 



Por isso eu digo que ainda estamos amadurecendo politicamente e não devemos nos cobrar tanto de algo que ainda estamos descobrindo juntos. Respeitar o tempo do outro e dar-lhe direito de opinião é parte deste processo educativo que só temos vivido há ¼ de século.

Neste domingo em que muita gente promete sair de suas casas para fazer sua voz ser ouvida pelo Brasil, eu penso que evoluímos e que parte do nosso amadurecimento é respeitar as vozes dissonantes das nossas, todas elas, de todas as cores, sotaques, classes sociais e opiniões. 

Defendo liberdades individuais, acima de tudo. A principal delas é poder pensar. A consequência do pensar é agir. E espero de coração ver em todas as faces brasileiras a demonstração de maturidade que vem do respeito ao direito do outro, até o de ser, pensar, falar e agir diferente de nós. Isso também é democracia e é com ela que faremos este país melhor e mais parecido com o que sonhamos para ele.

Então, neste domingo, 15 de março de 2015, meu obrigada a quem faz sua voz ser ouvida nas ruas, em casa, nas redes sociais. E meu respeito a quem defende acima de sua crença, o direito de opinião de cada um. 



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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.