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Como cooperar sem destruir as diferenças que caracterizam a sociedade? Diferenças que são a própria base daquilo que chamamos de social. Como estimular o espírito local, convidando e recebendo novas culturas ao invés de expulsá-las? Expulsões que foram rompendo o tecido que ligava as pessoas – e que, agora, precisa ser refeito.

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Essas e outras perguntas nos veem à mente quando vemos as cenas da migração em massa dos sírios em busca de um local seguro, mas também quando vejo a xenofobia nos comentários ou nos olhares dos paulistanos com os imigrantes da Bolívia, do Haiti e da África que não param de chegar à nossa região.

O casal de sociólogos Richard Sennett e Saskia Sassen veio ao Brasil para participar do Fronteiras do Pensamento 2015 e debater o tema central desta temporada, como viver juntos.

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Infelizmente não estive lá pessoalmente, mas li parte dos relatos sobre o encontro deles com a plateia brasileira. E gostei do ponto de vista de que “a cooperação passa longe de consenso” e que “buscar uma unidade ou presumir que mais clareza ao expor as ideias faria surgir um ideal comum é um grande erro”

O sociólogo norte-americano Richard Sennett afirmou ainda que a “cooperação é negociação“, uma aptidão que exige qualidades como saber escutar e deixar dúvidas em aberto, permitindo que o outro tenha espaço no diálogo. A cooperação não é um meio para atingir um fim, mas sim um processo contínuo, processo este que tem sido prejudicado pela valorização da autonomia e pela fraqueza dos elos sociais em um mercado de alta rotatividade. De acordo com Sennett, conciliar competição e cooperação é o principal desafio contemporâneo.

  
A holandesa radicada nos EUA, Saskia Sassen, professora da Universidade de Columbia, em Nova York, falou pela complexidade das cidades, seu aspecto orgânico e até caótico: 

“A cidade é meio anárquica, é um espaço de fronteira, onde todos vivem juntos.” 

Segundo a socióloga, a criação de megaprojetos no espaço urbano torna as cidades mais rígidas que acabam “perdendo uma das questões mais interessantes de uma cidade viva, que é o contato de muitas pessoas de variadas culturas e procedências, como imigrantes.” 

Ela contou que estimula seus alunos a comprarem de artesãos imigrantes para que expandam a interação entre as culturas, incentivando a ideia da interdependência – ela mesma começou a aprender as lições sobre a importância da interdependência cultural em sua trajetória pessoal, como imigrante.

O Fronteiras do Pensamento, série de debates que traz mensalmente grandes nomes para o Brasil, é composto de uma conferência é um momento no qual os palestrantes respondem uma pergunta enviada pelos seguidores nas mídias digitais. Desta vez, a pergunta selecionada foi a de Ana Emilia Cardoso.  

Vocês acreditam que o Brasil, com suas cidades orgânicas e sem planejamento, está mais permeável, com tecituras mais receptivas a imigrantes refugiados do que sociedades tradicionais, como a alemã, por exemplo? 

Richard Sennett: Falar da sociedade alemã é um péssimo exemplo, porque a Alemanha está aceitando 800 mil refugiados apenas este ano. Vemos o problema de pessoas deslocadas que têm uma relação parasítica com a cidade. Esta é uma forma terrível de considerar isso. Na Inglaterra, teríamos que ter fechado os nossos hospitais, se não tivéssemos mantido os refugiados, porque são cidadãos, são enfermeiras… Nós não poderíamos ter construído a nossa infraestrutura sem a influência dos trabalhadores poloneses, porque não estamos treinando certos profissionais na Inglaterra. A fantasia sobre isso, de todos estes lugares que repelem os imigrantes, é que poderiam ser sociedades funcionais sem eles. Mas isso está errado. Na Inglaterra, eles falam sobre imigrantes que cruzaram o mediterrâneo naqueles barcos, e é um tipo de êxodo, e é difícil imaginar a complexidade dessa relação. Não é uma falha de imaginação, mas sim uma paralisia de pensar em como a sociedade é. Essa questão de refugiados é um exemplo perfeito disso.

Saskia Sassen: Quando eu penso na cidade de Nova York, nas cidades cosmopolitas, o que seria da cidade de Nova York cheia de americanos? Não seria a cidade de Nova York. Acho que seria um horror. Pensemos em Amsterdã só com holandeses. Quando você vê o que a gente chama de cidade cosmopolita, tem uma mistura de origens, de pessoas, mas a cidade tem que ser complexa e um pouco desorganizada.

Eu tenho um projeto em que estou tentando entender essa questão de uma cidade ser cosmopolita, porque não é uma questão que vem do céu, é uma questão cultural, de comunidades do Queens, do Brooklyn e dos negros que vieram do sul. Depois, na viagem do bairro para o centro de Manhattan, essa mudança assume formatos novos e, quando chega ao centro, torna-se cosmopolita. Nós não teríamos esse cosmopolitismo, essa diversidade incrível em Berlin, a melhor cidade na Alemanha de muitas maneiras, Hamburgo também é uma grande cidade, e são cidades com imigração múltipla. São cidades cosmopolitas por causa desses imigrantes.

Voltando à sua pergunta, que é uma pergunta muito boa, eu acho que a Alemanha isolou os imigrantes, como vocês sabem, devem ter visto, e isso é uma coisa muito complicada. Mas, os imigrantes aceitos ficam em guetos, é claro que esses guetos vão acabar se rompendo, mas eu acho que não é a maneira de se fazer as coisas. Eu acho que tem que misturar um pouco. Claro, sempre haverá alguma concentração, porque são comunidades que geram produtos, novos alimentos, música diferente… Agora, quando você fala de pessoas desesperadas, que estão no fim da sua capacidade de enxergar o que farão de suas vidas e de suas famílias, essas pessoas precisam de apoio. Elas não são imigrantes. Um imigrante é uma pessoa forte que procura uma vida melhor.

Já aqueles sírios eram tratados como lixo, mas não são. Eles são médicos, professores, muitas vezes pagaram 80 mil dólares para ir até o país. São pessoas de classe média, com profissões, e são pessoas que estão simplesmente se quebrando, se rompendo, se desmoronando. São pessoas que não estão procurando uma vida melhor, eles querem viver apenas. Isso é diferente. Um imigrante é forte.

Eu cheguei aos Estados Unidos como imigrante. Sabe qual era meu primeiro trabalho? Comecei fazendo limpeza. Eu vim de uma família muito abastada, então não durei muito no emprego. Mas, eu fazia parte de um grupo de mulheres da África, do Caribe africano, e nós sabíamos que o espaço da mulher diarista não descreve quem nós somos.

Você tem muitos imigrantes que começam com salários muito baixos, mas eles têm o sentido do que eles são. Já o refugiado, acaba sendo destruído. As nossas cidades precisam se preparar para os refugiados porque eles trazem muitos conhecimentos que coletivos que o Governo Federal não vai gerar, já que ele não é organizado para isso.

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Leia também: Política Municipal para a População Imigrante, texto no qual reuni as iniciativas da prefeitura de São Paulo para acomodar os imigrantes do século XXI. 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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