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flyermesaparaoito.jpgHoje às 19 horas a Livraria da Vila vai reunir oito poetas e convidados para falar sobre a poesia através dos tempos. A leitura de poemas será a “desculpa” para uma conversa animada sobre os cenários atuais da poesia nas diferentes mídias, gêneros, grupos, formatos.

Mesa para Oito leva poetas convidados para uma mesa, como o próprio nome diz, com oito integrantes – o que surpreende no formato é a possibilidade de ver poetas das mais diferentes gerações e estilos, sentados sob a benção de uma meia estação (entre o fim verão e o começo do outono) numa completa e irrestrita ausência de luz – apresentando seus estilos e singularidades. Você custa entender que é um evento, mas a proposta é exatamente essa – te induzir a um debate, a uma audição ao mesmo tempo em que você se percebe inserido em uma contradição: “o que é poesia para você?” e a resposta chega de todos os lados, carregada de tons e meios tons e de uma singularidade infinitamente pessoal.
O encontro foi idealizado pela poeta Lunna Guedes que realizou dois encontros do gênero em 2007 – nesta edição o evento Mesa para Oito está sendo produzido por Francy´s Oliva – uma produtora brasileira que aos poucos começa a se destacar no cenário depois de uma longa temporada em Portugal produzindo eventos do gênero. (Identidade própria)

E no fim, trata-se apenas de um convite a poesia…

O evento pede que os poetas convidados a compor a mesa levem seus poemas, um livro de um autor que seja significativo para sua composição e diferentes assuntos na manga para que sejam discutidos livremente. Para a confecção do folder do evento, fui convidada a entrevistar os poetas participantes e o resultado que obtive, ao mesclar as respostas (mandei-lhes perguntas idênticas, algumas bem fora da minha visão, como uma provocação minha) me permitiu imaginar quão rico será o encontro desta noite. Como os convites estão esgotados há um tempo, deixo-os com as respostas e que elas possam incitar sua vontade de pensar na poesia com novos olhos.

Serviço:

  • Evento Mesa para Oito
  • Poetas Convidados:André Amaral – Frederico Barbosa – Eduardo de Santiago – Eduardo Lacerda – Hernani Zanin Junior – Letícia Coelho – Lunna Guedes – Rodrigo Capella
  • Participação Especial:Emerson Natividade – Gilberto Junior – Kadu Ayala – Roberta Gutti
  • Apresentação: Vanessa Morelli
  • Data: 19 de março, às 19 horas
  • Entrada Gratuita
  • Local. Livraria da Vila
  • Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena
  • Leia a seguir as respostas dos poetas sobre a poesia atual ou olhar o resumo na imagem do folder.

    Como a poesia surgiu em sua vida?

    • SANTHIAGO Na época de escola. Sempre fui um aluno muito caxias. Mergulhava em todas as matérias letivas (exceto Geografia), e Literatura era uma delas. Na infância e pré-adolescência, a poesia era objeto de estudo obrigatório e nada além disso. Foi mais tarde, e ao longo da vida, quando fui me tornando capaz de observar e tentar compreender o ser humano, que a poesia, metódica e maçante na escola, tornou-se interessante. O gosto pela poesia cresce simultaneamente ao gosto pelas artes, e é cada vez maior e mais necessário. Hoje, escrevo poesia espontaneamente, geralmente quando o conteúdo do que tenho a dizer é tão intenso, que não cabe na prosa.
    • CAPELLA A poesia não surgiu, eu fui atrás dela. A minha avó me deu os ensinamentos e o formato da poesia. Mas, eu já nasci com folego de quebrar paradigmas. A poesia é Alma: amor, liberdade, mudança e atitude. Eu vivo poesia intensamente e nasci com o proposito de viver isso. Cada poeta tem uma missão, a minha é a de valorizar a poesia. Poesia me dá orgasmo!
    • HERNANI Ouvindo meu avô, em Cuiabá, declamando Castro Alves e Catullo da Paixão Cearense, enquanto voltávamos para a Fazenda, depois de um dia de trabalho.
    • LACERDA A poesia sempre esteve presente. A poesia, não o poema ainda, isto é, um jeito poético de entender o mundo, acredito que nasceu comigo. E entender o mundo de uma forma poética não é entendé-lo, afinal. Esse “poético”, que muitos podem entender levianamente como algo bom, sempre foi a minha sensação de deslocamento, ironia e humor.
    • AMARAL Desde que aprendi a ler e escrever, senti a necessidade de escrever “do meu jeito”, pois ficava encantado com a habilidade de alguns escritores de traduzir sentimentos e sensações. Mas a poesia sempre esteve presente em minha vida, antes mesmo de se concretizarem os poemas, ela estava á espreita em um pôr do sol, em um gesto de minha mãe.
    • LUNNA Através de minha mãe, que me deu de presente um livro de poesias – traduções para o italiano de Caeiro, Emily Dickinson, Auden, Mário de Andrade, entre outros. Depois de ler, fizemos uma brincadeira, onde reescreviamos os poemas desses mestres, fazendo uso de nossas próprias sensações e foi o que eu fiz. Escolhi o poema de Emily, o qual falava sobre o outono que desde criança era minha estação favorita e foi um exercicio prazeroso – uma aventura que me segue até os dias atuais.
    • LETICIA A poesia surgiu na minha vida ainda novinha, com 8 anos mais ou menos… Mas os versos começaram a fazer sentido no colégio, durante as aulas de literatura.

    Impresso ou virtual, qual dos dois reflete o momento da poesia brasileira?

    • SANTHIAGO Virtual. Há muito não encontro, nas prateleiras das livrarias, obras contemporâneas de poesia brasileira. Em compensação, recebo dezenas de convites para ler e comentar blogs, diariamente.
    • CAPELLA O impresso: a onda agora é publicar no formato impresso textos já publicados em blogs. Eu fiz isso, muita gente fez e tá fazendo. O blog tem credibilidade e tem ajudado muitos autores a publicarem. Blog dá status, o impresso dá mais ainda, por isso todo mundo quer publicar.
    • HERNANI Virtual, pois como bem disse o Rodrigo Capella: “Poesia não vende”.
    • LACERDA Não são antagônicos. O virtual, para a poesia, é real, o texto é passível de leitura e entendimento. A internet propicia outros tipos de virtualidades ou realidades. Pode-se até namorar virtualmente, apesar do sentimento ser real, mas não pode-se escrever ou ler virtualmente. A escrita e a leitura são reais e permitem, em todos os sentidos, a sua impressão.
    • AMARAL Sempre corremos o risco, ao pensarmos as coisas em dualidades, de cairmos no reducionismo, diminuindo as possibilidades de se pensar uma questão. O momento é virtual com a explosão de blogs e sites sobre poesia, mas não deixa de ser impresso, pois a concretização da obra impressa, sendo ela um jornal ou um livro, é importante e valiosa.
    • LUNNA Acho que nem real e tão pouco virtual. A poesia brasileira está tão perdida quanto seus poetas. Hoje se escreve muito, principalmente na internet – mas qualidade mesmo não há, nem estilo ou definição. A poesia brasileira ainda sobrevive graças a uma geração que fez a diferença, atualmente o que se vê na maioria das vezes é um amontoado de palavras sem sentido algum. Claro, há um ou outro que se sobresaí e faz a diferença, mas poderia ser mais e infelizmente não é.
    • LETICIA O momento Brasileiro para a poesia é o virtual, encontra – se mais acessível; só não lê quem não entende ou quem não gosta. Mas questiono esse não gostar de poesia; mudo para a falta de entendimento!

    E o seu momento?

    • SANTHIAGO Tenho os dois momentos. Alguns dos textos que publico no meu blog, gostaria de ver impressos. Outros não; foram escritos exatamente para o universo virtual, com um tempo cibernético, que é muito diferente do tempo impresso. Para mim, os textos virtuais devem ser breves e fortes. É incômodo, na minha opinião, despender muito tempo com leitura pela tela de um computador. Quando o texto tem o tempo do impresso, imprimo.
    • CAPELLA Estou vivenciando um momento de retiro poético. Fujo das coisas e de todos para compor poesia, para aprimorar conceitos e propor coisas inéditas. O meu livro “Poesia não vende”, por exemplo, nasceu desse retiro! Nasceu para ilustrar um momento, um movimento poetico. Estou nesse retiro há dois anos e saio só de vez enquando.
    • HERNANI Eu colocava grande parte do que escrevia no meu Blog (hernanizaninjunior.blogspot.com)… Mas de um tempo pra cá parei. Eu recebia alguns elogios… A internet demanda pressa e superficialidade. Enquanto a leitura requer bons olhos e reflexão.
    • LACERDA O meu momento é o momento da poesia brasileira, acho que estou integrado como qualquer outro. Tenho preferência pelo impresso, pelo papel e pela tinta.
    • AMARAL Minha poesia não é virtual, nem impressa, é sem pressa. Sou um aprendiz, estou pesquisando e confrontando meu próprio fazer poético. Tenho projeto de concretizar um livro com alguns de meus poemas, e talvez crie um meio alternativo de circulação na internet, mas tudo com calma.
    • LUNNA Acho que é um pouco virtual, porque acabou sendo onde realizo um grande exercício de construção porque a resposta é muito mais rápida. Também tem um pouco do Impresso (ainda) devido a compromissos assumidos, mas já não me seduz mais como no começo.
    • LETICIA Meu momento é virtual, apesar de fazer minha primeira publicação este ano. Sou meia relutante quanto as publicações atuais…Editoras grandes que realmente “compram” a idéia de publicar um livro de poesias cobram caro o exemplar; caro para o bolso do Brasileiro que ainda não tem em sua “cultura” a poesia como leitura. A maioria não paga R$ 25,00 por um livro de poesias, em contra partida pagam R$ 30,00 por livros auto – biográficos de “celebridades”, ou de auto – ajuda! Nada contra esses dois tipos de leitura, mas primeiro teríamos que introduzir apoesia como leitura e não só para cópia de “apaixonados” sem palavras.
    • Um livro impresso com 100 folhas custa em média R$ 6,00…Se o autor quiser mesmo ser lido pode cobrar R$ 10,00 ou R$ 15,00, não quero com isso ser entendida de forma errada; como se estivesse desvalorizando a poesia, só torna mais acessível.

    Atualmente muitos se auto-intitulam escritores sem ter base cultural ou talento para sê-lo. Qual sua visão sobre isto?

    • SANTHIAGO Acho o talento algo muito subjetivo de ser julgado. O talento pode estar na forma, no conteúdo, em uma palavra bem colocada, na musicalidade, ou até mesmo no caos. Vivemos uma época de explosão estilos, de ritmos, de fusão de escolas, onde tudo é permitido. Acredito que um escritor, capaz de agradar ou de incomodar uma só pessoa, nem que esta pessoa seja a sua mãe, já pode ser considerado talentoso. A gramática é outra, a grafia é outra, e estamos, cada vez mais, sem base para julgar uma obra. Eu acredito na verdade. Uma obra verdadeira, que me toca, é, para mim, talentosa.
    • Em relação à base cultural, não acredito neste conceito. Qualquer pessoa tem, no mínimo, uma base cultural, que é a sua própria cultura. Um eremita tem sua cultura, uma tribo tem sua cultura… O jovem de hoje, que “já não sabe mais escrever” – pelo menos não do modo como nós fomos apresentados à literatura – está criando a sua cultura. Obviamente, quanto maior o universo cultural de uma pessoa, maiores as possibilidades de penetrá-las e delas desfrutar. Mas, um ser que nasceu, cresceu e vive só, em uma caverna, já tem sobre o que escrever. É esta a sua base cultural.
    • CAPELLA Na literatura de hoje, existe muito escritor charlatão, muito enganador, muito cara que nunca leu nem bula de remedio e sai fazendo merda, escrevendo porcaria de versos.É preciso criar algo novo, viver uma Semana da Literatura, como em 22, viver algo realmente revolucionario. Os escritores têm que protagonizar isso, senão vai ficar tudo uma merda.
    • HERNANI Isso é natural em qualquer outro ramo. Mtos se intitulam jogadores de futebol, políticos, médicos, advogados, mesmo sem base cultural ou talento para sê-los. E eu diria que isso é até importante. Dá opções… Democratizam a leitura… Até pq. há gosto para tudo. Sobre o talento… Não sei defini-lo. Para mim, talentosos são os que conseguem expor a Vida por meio das palavras. Mas para os outros, talvez não seja. E por isso vejo o talento sempre adstrito ao gosto. Tem gente que gosta de Augusto Cury, Down Brown e Paulo Coelho, mas não gosta de Fernando Moraes, Castro Alves e Flaubert. Eu me pergunto como isso é possível… Mas apenas sei que é.
    • LACERDA Há alguns meses tenho uma resposta, para mim, definitiva sobre esse tipo de pergunta: Todos podem escrever, tendo ou não base cultural, estética e artística, assim como todos podem jogar futebol nos finais de semana como esporte e lazer, serão pessoas mais felizes, saudáveis, integradas etc em ambos os casos. São escritores e são jogadores. Já disputar a Copa do Mundo exige muito mais, exige treino, dedicação, estudo e disciplina. É preciso que cada um saiba qual é o seu objetivo com a literatura: amador ou profissional. E que, caso optem pelo profissionalismo, busquem essa chamada base cultural, sem ela nada acontece, embora cultura seja um conceito amplo e complexo.
    • AMARAL Não podemos tirar o direito de uma pessoa se auto-avaliar e se denominar como bem entende. Até mesmo Drummond foi considerado sem talento. O poeta Patativa é estudo de doutorado na França e não tem estudo. Acho complicado julgarmos o talento ou a falta de talento alheio, e base cultural todos têm, pois considero a cultura em sua etimologia de cultivo, o que é cultuado, e todos têm sua colheita. Antes de questionar a base cultural é importante questionar o que se considera cultura e quem tem propriedade de definir se um escritor tem ou não talento.
    • LUNNA A maioria dos ditos poetas ou escritores desconhecem totalmente o estilo a cerca de sua escrita porque se recusam a ler e tem na ponta da língua uma definição quanto a isso “não o fazem por medo de copiar inconscientemente o outro”. E isso sempre me faz rir, basta ler Cecília Meireles e encontrará em seus versos à influência de Guilherme de Almeida “Toca essa música de seda, frouxa e trêmula” (…) ou quiçá o próprio Álvaro de Campos que em sua poesia revela influência de Walt Withiman. Influência não é uma forma de cópia. É forma de reverência a alguém que para você tornou-se mestre.
    • LETICIA Minha visão sobre os “escritores”…Acho deprimente, e é a pura verdade! Não precisa ser jornalista ou ter feito faculdade de literatura para se auto intitular escritor, não é isso…AA base cultural, vem da informação, e “escritores” que tem o hábito de ler só o que escrevem; acabam se tornando repetitivos, e começam a ficar “chatos”. Se a literatura vive uma má fase, um dos culpados são os escritores. pessoa precisa ser informada e ler muito, mas muito mesmo!


    A métrica ainda tem importância na poesia?

    • SANTHIAGO Depende muito do estilo do poeta, ou mesmo daquela poesia específica. A métrica, ou a ausência dela, podem ser usadas a favor do poeta, e daquele texto. Se quero brincar com o romantismo, uso a métrica romântica. Se quero o modernismo, uso a métrica moderna. Dependendo do que quero causar no leitor, não uso métrica nenhuma. Em suma, a importância é que seja usada, ou não, com propriedade.
    • CAPELLA Não tem e nunca teve. Metrica é escravidão, chatice, o bom é escrever após tomar uma cerveja e viajar no tema e na construção. Escreve do jeito e como quiser, escrever poesia precisa dar tesão, se não der, eu paro de escrever na hora. O poeta tem que escrever com uma camisinha do lado.
    • HERNANI Eu escrevi um poema sobre esse tema, chama-se Rimas da Arte Contemporânea http://hernanizaninjunior.blogspot.com/2007/11/rimas-da-arte-contempornea.html . Eu acho que a métrica não é importante. Mas a sonoridade ainda é essencial. Jogar palavras a esmo, sem coerência, sem conexão, não me parece arte. Mas esta é uma opinião mto pessoal. E, inclusive, estou tentando mudá-la.
    • LACERDA Segundo Maiakovski ‘poeta não é quem segue regras, mas quem as cria’. Cada poeta, assim como estilo, precisa ter a sua própria medida/métrica e precisa conhecer as medidas tradicionais, sempre. Picasso, na pintura, para poder desconstruir as imagens, dominava completamente a técnica de pintura clássica. Bandeira e Drummond, para fazerem versos livres perfeitos passaram pelo estudo das métricas clássicas.
    • AMARAL O poema pede sua forma. Em alguns poemas utilizo, mas não fico preso á ela. Os poemas são livres e cheios de autoridade, é importante dominar o máximo de recursos.
    • LUNNA Acho que depende do estilo de cada poeta. Emily Dickinson fugiu aos conceitos pré estabelecidos em sua época, mas é possível encontrar métrica em seus versos. É preciso lembrar que é preciso ritmo, fluidez e aeridade. Você precisa converter o seu sentir em imagens – mas não pode simplesmente desconstruir a concepção.
    • LETICIA Tem importância, mas não considero essencial. Não consigo entender poesia como matemática, e a métrica me lembra regras…E tento fugir delas. Tenho a mania de contar letras e sílabas, mas não por causa da métrica, isso é quase um “cacuete” para mim, mas leio e escrevo poesia buscando o entendimento dela e não a classificação. Apesar de não considerar essencial, acredito que quem escreve deve ter o mínimo de conhecimento sobre a métrica.

    Os encontros e saraus literários, são uma renascimento da poesia em São Paulo? E no Brasil?

    • SANTHIAGO Não acho que sejam um renascimento, mas acho que são iniciativas incríveis, para dar voz e rosto aos textos, para divulgar os artistas contemporâneos, e para facilitar o acesso dos que apreciam a arte.
    • CAPELLA Isso é verdade. Sarau e encontros motivam os escritores, dão tesão, inspiração, movimento e oferecem a possibilidade do poeta ousar, trocar experiencias, xingar e gritar com outro poeta. Isso não tem preço. Sarau é uma arte por si só, um levante inconfundível de pureza e harmonia.
    • HERNANI Certamente! Só é uma pena que ainda haja um obstáculo para o público (sobretudo o mais jovem) freqüentar esses eventos, a saber, a falta de educação. O colégio/escola hoje, de modo geral, não propicia ânimo nos alunos para que eles desenvolvam o que é visto em sala de aula. Eles têm a educação como um martírio, quando era para ser um prazer. E isso aconteceu com a gente também. Diga-me como literatura foi ensinada no seu colégio… Diga-me qual é a função da Tabela Periódica… Se todos soubessem que além de divertidíssima a literatura e essa tabela também são mto simples, talvez não existissem tantas pessoas nos bares das faculdades, enquanto os Saraus e os Laboratórios estão às moscas.
    • LACERDA A poesia nunca esteve morta para renascer. Ela passa, naturalmente, por processos e fluxos de retração e expansão, objetividade e subjetividade etc. Os encontros literários realizados de forma sistemática, principalmente por instituições como a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, do Governo do Estado, onde trabalhei por dois anos, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima, da Prefeitura de São Paulo, além do SESC, Itaú Cultural etc, transformaram a poesia em uma atividade de lazer e entretenimento, sem que ela tenha perdido, com isso, a sua qualidade. Acredito que o cenário melhou extremamente em todo o país.
    • AMARAL A poesia nunca morreu, nem em São Paulo, nem em qualquer lugar do mundo, pois ela é uma necessidade humana. Os saraus em São Paulo aumentaram a possibilidade de troca e acesso entre os poetas e um público variado. Quanto ao Brasil não poderei opinar pois desconheço os saraus em outros estados.
    • LUNNA Acho que os poetas só freqüentam saraus para serem ouvidos. Eles precisam de público e geralmente conseguem isso nesse tipo de evento. Não leio em público. Gosto de ler no meu canto e pra mim, não para outros. Poetas não são interpretes (não tenho nada contra os que interpretam suas próprias poesias) mas eu prefiro deixar isso com os atores. Por isso acho que esses eventos não significam coisa alguma, apenas pessoas desejando mostrar seus escritos como auto afirmação.
    • LETICIA Acho fantástico existir em São Paulo diversos eventos relacionados á poesia, mas observo poucos movimentos nesse sentido. Moro no Rio Grande do Sul, e fui convidada para um evento no dia 29 de Abril; antes disso fui em somente dois eventos relacionados á poesia aqui! São Paulo é mais aberta para “novidades”…

    Como é sua participação ou freqüência?

    • SANTHIAGO Geralmente organizo e participo de saraus entre amigos. Acho ótima a idéia de participar de um evento aberto, destinado à poesia. Em saraus abertos, já participei muitas vezes como ator, mas nunca de uma mesa destas, como poeta.
    • CAPELLA Todo mês, sempre que possível. Atualmente, estou participando muito de Feiras Literárias, em março tenho duas, em abril três e em maio mais três, Esse ano vai ser correria!
    • HERNANI Vou sempre que fico sabendo de um. Confesso que, quando procurava, tive dificuldade de ter informações. Mas, desde então, sempre que há o convite, estou presente.
    • LACERDA Estou envolvido na organização de diversos eventos literários, alguns são realizados na Casa das Rosas ou na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. O principal deles, é a FLAP! Festa Literária Aberta ao Público, realizada anualmente no Espaço dos Satyros.
    • AMARAL Baixa. Tenho outros compromissos, curso a faculdade á noite, sou ator e dramaturgo em grupo de teatro, enfim um acúmulo de coisas. Estou numa fase de avaliar meus próprios poemas, mas pretendo ainda esse ano, ter uma participação mais assídua.
    • LUNNA Já freqüentei muitos saraus – mas o estilo e a forma me cansam e hoje vou a poucos.

    Encontros como este, Mesa para Oito, que reúnem autores de grupos tão distintos, são uma oportunidade de democratizar a poesia ou de exorcizar fantasmas?

    • SANTHIAGO Com certeza é uma oportunidade de democratizar a poesia. Não vejo muito como fantasmas poderiam ser exorcizados com um encontro desses, a não ser pelos próprios textos que serão lidos. Escrever e ler são, para mim, os melhores exorcistas.
    • CAPELLA Eu adoro os fantasmas. Eles são camarados. Encontros são bons em sua propria essencia, no seu sentimento de universializar ainda mais a cultura e de passar pelos obstáculos culturais, impostos, principalmente, por um governo corrupto.
    • HERNANI Sim, eventos como esse são excelentes oportunidades para se repelir paradigmas… quebrar barreira em prol da arte. Afinal, não é sempre que tantos estilos serão colocados no centro de uma roda, para se defenderem das suaves ‘pedradas’ que virão de todos os lados.
    • LACERDA Democratizam o acesso, com certeza. Permitem que o público tenha mais um espaço de qualidade para conhecer a produção contemporânea. Já os fantasmas da poesia ainda são outros, não acho que o Mesa para Oito possa exorcizá-los, e não sei bem ainda se devem ser mesmo exorcizados.
    • AMARAL Não sei o que está sendo considerado como exorcismo, mas democratiza com certeza. Exorciza também os fantasmas, no sentido, de imagens que as pessoas possuem sobre a poesia como algo puramente erudito e sem dialogo com a vida de pessoas simples de sabedoria popular.
    • LUNNA Acho que é apenas uma forma de visualizar as vertentes (que são muitas) da poesia. O estilo, a forma, a definição de um ou outro poeta. Para se compreender a poesia é preciso isso.
    • LETICIA Democratizar ou exorcizar? Os dois, e ainda criar “monstrinhos” novos…rsrsrs Democratiza mais com certeza!


    Como se interpreta poesia? Que significado esta leitura pode ter para a obra em questão? E para o leitor?

    • SANTHIAGO Interpreta-se poesia tentando mergulhar e captar a alma do sujeito daquela escrita, que pode ser, ou não, a alma do poeta que a escreveu. Mas a poesia é efêmera. Eu mesmo entendo meus próprios textos de maneiras distintas, dependendo do meu espírito no momento da leitura. Acredito que a cada leitura que uma obra ganha, mais ela cresce e incha. Para o leitor, é mais uma porta aberta à sua mente.
    • CAPELLA Poesia é puro sentimento, a tentação do Demo, o recuo da alma, a vivencia transposta em versos. É pura tentação, harmonia, alegria e sentimento único. O leitor que gosta de poesia é mais inteligente do que o leitor que gosta de prosa. A poesia exige criatividade, entendimento, sincronismo e muita sensibilidade.
    • HERNANI Há dois tipos de poesias. As que se interpretam e as que se sentem. Para o primeiro tipo, devemos ter uma base cultural razoável e nos atermos às referências e palavras do poema, p. ex., A língua portuguesa – de Bilac. Para o segundo, necessitamos de um MOVIMENTO INTERIOR… De uma reminiscência pessoal… Que nos ajudará a levar a doçura do poema até os confins dos nossos sentimentos, p. ex., não sei quantas almas tenho – de Fernando pessoa.
    • LACERDA http://www.litereartbrasil.org/paginas/edicoes/009/eduardolacerda.php
    • AMARAL Na minha visão existem várias formas de se mergulhar em um poema e desnudar seus significados. Como aluno no curso de Letras aprendi que existe sim técnicas de interpretação, mas que nem as mais acadêmicas estão alheias á critérios subjetivos.Toda forma é válida desde a do doutor em poesia contemporânea á dona de casa que acha lindo os sons de um poema e denomina-o como bonitinho.Aos diferentes leitores, diferentes referências, mas é claro que o contexto muitas vezes enriquece a compreensão do poema.
    • LUNNA A poesia é muito individual e a única coisa que é certo é que você tem que encontrar o seu ritmo– “ou te alcança ou se perde”.
    • LETICIA A interpretação da poesia, depende do que o leitor está sentindo. O significado para a obra, é a visão talvez o que o leitor acrescenta ao ler e comentar. Para o autor, é como apoesia “toca” o leitor. As vezes tu escreves algo, mas o leitor sente diferente, é importante ter várias interpretações para a mesma “obra”…E isso só a poesia permite.

    É necessário contextualizar a obra para compreender a poesia? Ou o contexto atrapalha?

    • SANTHIAGO Pergunta perspicaz. Eu acho que o contexto da obra deve ser ponto de curiosidade do leitor. Uma vez contextualizada, a obra deixa de ser universal, e passa a ser específica daquele que a escreveu. Se eu sei o porque de uma escrita, sei que aquela escrita não é minha, é do momento em que foi escrita. Desta forma, posso apenas pegá-la emprestada para momentos meus, similares ao dela. Se eu não sei o contexto, eu, como leitor, a contextualizo como quiser, e mudo o contexto quando quiser, e assim, tomo-a para mim mais facilmente.
    • CAPELLA O contexto é uma bomba, atrapalha tudo e a todos e a tudo. O ideal é a poesia livre, sem regras, sem normas. A poesia por ela só, o ser poético vai compreender, pode aposta!
    • HERNANI Sempre há a contextualização. Como disse acima, devemos saber se há necessidade de darmos aparência fática ao poema. Pois se o autor só quis expor sentimentos… Apenas eles nos poderão ajudar. É importante saber que às vezes nós contextualizamos a poesia… E às vezes é ela que nos contextualiza.
    • LACERDA http://www.litereartbrasil.org/paginas/edicoes/009/eduardolacerda.php
    • AMARAL Insisto no ponto de que cada poema tem sua particularidade. Alguns gritam o entendimento do contexto para serem apreendidos na totalidade, outros não necessitam dele. Atrapalhar, creio que não. Mas os poemas podem ser lidos sem um aprofundamento, mas isso gera um tipo de interpretação mais individualizada, no qual emprestamos os nossos anseios ao poema. Porém existe uma compreensão mais sublime e subjetiva e para ela, os poemas bastam a si mesmos, em sua beleza e ritmo que comunicam sem pedirem explicação.
    • LUNNA Sempre li a poesia antes de ler sobre seus autores e quando sabia da vida do homem por traz do poema, pensava “o que há por trás da imagem que não reconheço no verso?”. Cecília Meireles adorava o mar e isso fica claro nos seus versos. Mas não se explica. Mário dizia que era seu maior complexo. Logo, para que serve afinal, o contexto?
    • LETICIA Contextualizar a obra atrapalha a interpretação. Poesia é sempre carregada de sentimentos…Fala por si só, mas o significado para cada leitor difere. O que acho importante colocar também, é que alguns leitores entram “tão de cabeça” na poesia, que acreditam que o autor está triste, ou apaixonado…Quando na verdade nem sempre é assim.

    Na sua concepção, o que o grupo (do qual faz parte) representa no panorama da poesia brasileira?

    • SANTHIAGO Não entendi a pergunta. De que grupo faço parte?
    • CAPELLA Representa a valorização da poesia e a busca por uma maior inserção dela na sociedade. A posia existe, é rica, mas precisa ser mais valorizada. Precisa estar na boca do povo!
    • HERNANI Acho que não há um grupo. O que há são individualidades dissonantes que tentam integrar um todo. Hoje a independência está em voga… Assim como em 22… Mas a diferença é que hoje temos uma independência solitária… De maneira que as boas idéias não são lapidadas por falta de um revide. De uma opinião contrária. Que só os bons, boêmios e amigos poetas podem se dar ao luxo de ter. Mas infelizmente não têm.
    • LACERDA Faço parte do Coletivo Vacamarela, são 17 jovens poetas, em sua maioria universitários ou recém formados, que pretendem profissionalizar a produção de eventos literários e a sua divulgação. Realizamos a FLAP! e editamos O Casulo – Jornal de Literatura Contemporânea.
    • AMARAL Uma proposta nobre de ampliar o acesso e proliferar poemas e poesia.
    • LUNNA Não gosto de grupos e não participo de nenhum. Acho que grupos limitam as pessoas porque determinam um ritmo ou um estilo único. Na semana de 22 aconteceu isso. O famoso grupo de Mário de Andrade, que não falavam do povo e tão pouco da esquerda e tinha uma arte grã-fina produzida dentro das mansões oligárquicas de mecenas como Freitas Valle e posteriormente de Paulo Prado e Olivia Guedes Penteado. De fora da semana de 22 ficaram nomes expressivos apenas porque não faziam parte do grupo – como Monteiro Lobato que não foi convidado devido as suas críticas contra Anita Malfatti o que até pode ser compreendido, mas e quanto a Juó Bananére ou os chargistas Voltolino ou o mestre Theodoro Braga. O fato é que artistas se aproximam daqueles que despertam neles afinidades e quando se unem a um determinado grupo nesse sentido, é como se fosse estabelecido um protocolo. “Você não vem aqui e eu não vou lá” – por isso prefiro circular e apreciar a tudo que acontece a minha volta – totalmente alheia a estilos pré definidos de grupos.
    • LETICIA Representa a liberdade da escrita. A não “taxação” em estilos…Conseguir experimentar novidades, maneiras de escrever, tentar! Acabou aquela “história” que poesia é para ser lida somente pela “elite”, ela é mais acessível; não precisamos mais morrer para ter nossas “obras” publicadas, como aconteceu com diversos escritores que acho fantásticos (vou citar só dois), Augusto dos Anjos e Emily Dickinson que não tiveram a chance em vida de ver a grandeza de sua obra; poesia é publicada…O problema é que não é lida. Mudar a cultura, o entendimento…Na minha época de colégio, eu aprendia poesia na escola, mas era chato demais…O importante era só a teoria…Hoje alguns colégios não ensinam mais poesia, e é mais fácil habituar uma pessoa a ler quando é mais nova.
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    Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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