Um novo jeito de medir a qualidade de uma cidade: contar as crianças na rua

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Criada no interior, numa cidade de 15 mil habitantes, já morei numa das grandes metrópoles do mundo (Tóquio) e estou radicada em São Paulo, mas com um pé no Rio por conta do trabalho e outro em Curitiba por conta dos meus pais e sogros.

O trabalho também me permite viajar e conhecer lugares interessantes e novos de quando em quando. Nos últimos anos estive em Recife, Palmas, Paris, João Pessoa, Florianópolis… cidades muito diferentes mas que, na sua essência humana, me fazem pensar na minha cidade pequena do interior do Paraná.

Me “perco” facilmente em reflexões sobre o que achei de bom nestes lugares quando começo a ouvir falar em qualidade de vida nas cidades. É o que acontece neste início da Semana da Mobilidade.

Uma amiga virtual me chamou atenção para um texto que trazia reflexões muito parecidas com as minhas e que começava a “avaliar” a qualidade de a cidade pela liberdade e autonomia das crianças.

“Quer saber se uma cidade é boa ou ruim? É simples: olhe para fora da janela e tente calcular a proporção de crianças entre as pessoas que estão na rua. A cada 100 pessoas que passam, quantas são crianças caminhando para a escola, pedalando pela rua, brincando na calçada? Se forem muitas, sua cidade está saudável. Se forem poucas, sua cidade está doente. Se não houver nenhuma, a doença é grave: sua cidade precisa de uma intervenção urgente. Seu prefeito está trabalhando errado.”

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Como não concordar, minha gente?!

A quantidade de crianças na rua é o melhor indicador para medir a qualidade de uma cidade porque ele é multidimensional: traz ao mesmo tempo informação sobre saúde, segurança e educação, três itens centrais para definir qualidade de vida.

Por mim, menina criada como a Turma da Mônica, brincando na calçada da frente de casa, em quintais vizinhos, indo e voltando da casa dos amigos a pé ou de bicicleta, brincando “na rua” até chegar a hora de dormir, este tripé de qualidade de vida basta e nem precisa de explicação. Mas o texto recomendado por minha amiga bióloga explicava item por item:

Saúde – Caminhar ou andar de bicicleta por meia hora ao dia é o suficiente para uma criança afastar muito o risco de sofrer das típicas doenças de estilo de vida que estão afetando tanta gente nas grandes cidades: diabetes, câncer, doenças do coração. Criar condições para que todas as crianças façam exercício na ida-e-volta da escola é uma forma infalível de garantir uma população saudável e economizar uma fortuna de dinheiro público em hospitais.

Segurança – Está bem estabelecida a relação estatística entre o número de crianças e mulheres pedalando e a segurança no trânsito. Crianças de bicicleta são um indicador preciso: se há muitas delas na rua, praticamente não ocorrem acidentes, em parte porque seres humanos são geneticamente programados para tomar cuidado quando há pirralhos por perto. Além disso, crianças aumentam muito a quantidade de “olhos da rua”, que são as pessoas que ficam na entrada de casa olhando para o movimento da calçada, e que fazem com que o índice de crimes naquele lugar caia imensamente (um conceito criado pela grande urbanista americana Jane Jacobs). Ruas com muita vida comunitária tendem a ter muitos “olhos”, e portanto são bem mais seguras. Crianças ajudam muito a fazer com que haja vida comunitária.

Educação – Uma pesquisa divulgada este ano com 20 mil estudantes dinamarqueses entre 5 e 19 anos demonstrou que crianças que vão para a escola a pé ou de bicicleta têm uma capacidade bem maior de se concentrar na aula, e aprendem mais do que aqueles que vão de carro. A pesquisa revelou que, quatro horas depois do começo da aula, os alunos que pedalaram ou caminharam continuam mais atentos e aprendendo mais do que os outros. Outra pesquisa reveladora foi feita na Califórnia, em 1993. Os cientistas pediram a crianças que vão para a escola a pé, de bicicleta ou de carro para que elas desenhassem o bairro, e depois as entrevistaram. A conclusão foi que crianças que caminham ou pedalam tem habilidades cognitivas muito maiores: elas têm mais noção de espaço e desenvolvem mais suas capacidades sociais.

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Aqui eu e meu marido optamos por permitir que nossos filhos tenham autonomia no bairro e convivam com os vizinhos no comércio, no clube, no caminho para escola. Mas não o fazem sozinhos: estimulamos que estas descobertas sejam feitas em turma e isso traz socialização e senso de comunidade. Esta autonomia começa quando eles ingressam no Ensino Fundamental 2 (antigo ginásio), mas só foi possível e funcionou bem porque nós éramos usuários do bairro que escolhemos para morar. Desde os 2 e 4 anos os meninos acompanham a gente nas compras no bairro, então são tratados com atenção e respeito na mercearia, padaria, açougue. O mesmo acontece no clube, na frutaria onde comemos açaí nas tardes de calor, na rotisserie, enfim, no entorno do lugar que chamamos de lar e, sobretudo, tratamos como tal.

Nesta semana da mobilidade urbana, quando se discutem novas formas de conviver com a cidade, convido-os a passarem mais tempo a pé convivendo com seu bairro e redescobrindo a cidade com olhos de criança que ganha o direito de ir e vir. Aposto que se concentrar suas atividades perto o suficiente para fazê-las a pé, além de descobrir que consegue viver sem seu carro ou seu ônibus/metrô para fazer as coisas básicas, você perceberá como pode se integrar na sua comunidade e até melhorá-la! E, se não gostar do que viu ou perceber que é inviável fazer da sua região um lugar com qualidade de vida, você poderá tomar coragem e colocar nas metas de 2014 mudar este lado da sua rotina e se dar uma vida mais simples e mais feliz!

Que tal um esforço concentrado para criar muitos e muitos espaços nas nossas cidades com crianças nas ruas?

Vamos nos unir para reduzir as cidades sem crianças nas ruas que, por consequência, têm índices maiores de obesidade infantil e gastam mais combatendo diabetes, câncer e doenças do coração, são mais violentas no trânsito e têm maior criminalidade, atrapalham o rendimento escolar das crianças, reduzem a eficácia da educação, prejudicam as capacidades cognitivas e sociais das crianças.

E neste movimento vamos sonhar com um futuro no qual a qualidade de vias não seja contabilizada simplesmente contando quantos veículos passam por determinada rua em uma hora e que o número de veículos não meça a “eficácia da via”.

P.S. Os trechos entre aspas e a inspiração do post vieram de Amanda Wanderley e do coletivo Gangorra pelo Dia Mundial Sem Carro de 2013.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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