75% dos médicos da minha cidade natal eram cubanos

Eu sou natural de Ponta Grossa, um município do Paraná, distante 103 quilômetros de Curitiba (capital do estado), que tem população, conforme estimativas do IBGE de 2018, de 348.043 habitantes.

A cidade, que acolhe a familia da minha mãe desde que os pais dos meus bisavós, Anna Luiza e João, chegaram da Rússia, ainda em meados do Segundo Império, viveu três grandes impulsos durante o século XX – época que viveu meu avô Juca Hoffmann, que nasceu em 1904 e foi um pontagrossense dedicado e amante da região.

O primeiro impulso econômico da região foi em meados de 1900 com a instalação da ferrovia, o segundo na década de 70 com a instalação de grandes indústrias da área alimentícia e moageira, e o terceiro na segunda metade da década de 1990 com a instalação de grandes empresas nacionais do setor logístico e de produção e investimentos de grandes redes do setor de serviços.

O município está próximo dos principais mercados consumidores do país, São Paulo e Curitiba, e é ponto de passagem para a exportação de produtos pelo Porto de Paranaguá e pelo Corredor do Mercosul, rodovia que liga o Sudeste do Brasil aos países do Mercosul. É a quarta principal cidade exportadora paranaense e a décima do Sul, em especial, para o Japão e a Europa.

Tem uma dezena de faculdades sendo duas universidades públicas – Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) – 33 centros municipais de Educação Infantil (CMEIs), 18 centros de educação infantil comunitários (CEIs) e 84 escolas municipais de Ensino Fundamental de primeira a quinta série.

O município tem um dos maiores valores de PIB do Paraná, mas, paradoxalmente, apresenta déficits pronunciados de infraestrutura. Uma evidência disso são os números de 2007 do IPARDES, indicando que Maringá tem uma população semelhante, mas apresenta maior rede de água e esgotos, maior área asfaltada e um número menor de pessoas em situação de pobreza.

Segundo pesquisa realizada pela Revista Você S/A, Ponta Grossa é a 84ª melhor cidade para se fazer carreira no Brasil.

Mesmo assim, a cidade não conseguiu atrair médicos para atuar lá e recorrer ao Mais Médicos. É esse o municipio paranaense com maior número relativo de médicos cubanos. Lá 75% dos médicos que atendem o SUS são do programa Mais Médicos.

Digo uma coisa para vocês: nosso problema não é de estrutura, de oferta de mão de obra especializada, tampouco de diplomacia: é falta de vergonha na cara. Não só de quem aceita este “convênio” abusivo que tem tratado os profissionais cubanos com desrespeito que beira o trabalho escravo. Mas de cada um de nós que, até o Bolsonaro declarar que mudaria as regras deste jogo, não tínhamos consciência da situação!

As pessoas não percebem a incongruência de falar de estado de direito e democracia, defender empregabilidade no Brasil e ao mesmo se posicionar a favor desse “acordo” abusivo entre o governo Dilma e Cuba que abusavam dos profissionais envolvidos.

Precisamos rediscutir a estrutura desse programa, abrindo inclusive a possibilidade de aumentar o número de vagas de outros profissionais valiosos para saúde da família na comunidade, como enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, dentistas. Entender a saúde como um todo é um desafio para nosso país que está envelhecendo.

A questão é que as pessoas que opinam sobre o tema geralmente moram nas grandes cidades e usam planos de saúde, não são o verdadeiro público-alvo de programas do SUS.

(Dados daqui e daqui)

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.