Maternidade

Outro dos meus comentários em textos dos outros que me fizeram pensar na vida:
Estreou ontem no Desabafo uma jornalista que, caiam de costas, não é mãe. Mas o que faz no Desabafo de MÃE? Ela se diz uma mãe teórica muito boa. E me fez lembrar do texto da Badinter sobre a maternidade não ser natural. Quando descobri o tal texto, numa EntreLivros de 2005, foi uma coisa revolucionária na minha vida. Tirei um caminhão de peso das costas, pensando que não era minha culpa não ter nascido para isto, que era apenas natural! E que dava para eu ir aprendendo, como fazemos com tudo que não é natural mas a gente insiste em querer. Afinal amar é natural do ser humano e eu conseguia amar muito, mesmo sem ser uma mãe perfeita.
Mas afinal, sobre o desabafo dela, respeito toda esta geração de homens e mulheres que se assumem como pessoas, não titeres da sociedade. Parece exagero, mas do jeito que as pessoas vão nos conduzindo com suas perguntinhas sobre a vida da gente, parecemos marionetes. -“Quando vai casar? Quando vai ter filhos? E o segundo?
Eu tenho dois e agora me perguntam:
-“Ah, não vai mesmo tentar uma menininha?
Puxa, quem merece?! Eu tenho certeza de que não mereço!
Lembro de uma vez que jantava com uns amigos que não tem filhos (embora tenham uma relação ótima, estável e longa) e outro casal (tb na época sem filhos) lhes perguntava: não tem filhos? E cachorro? E gato? E passarinho?… Minha amiga respondeu: tenho sobrinhos! E ela é uma excelente mãe teórica, aliás, os dois são pais teóricos maravilhosos. Mas adoram viajar por semanas direto, são apaixonados pelo trabalho, estão sempre estudando e têm uma casa tão organizada para suas coisas pessoais que não caberia um quarto de bebê. No entanto, jamais saíram com meus filhos sem colocá-los no banco de trás com cinto de segurança adequado ao tamanho deles. Quer gente mais responsável?
Deve ser este senso de responsabilidade e de seus próprios limites que faz algumas pessoas maravilhosas optarem por não ter filhos. É bem duro admitir que é preciso dom para ser mãe; eu admiti tarde, depois de passar a vida achando que tinha nascido para isto. Agora sei que não nasci, mas ainda assim amo esta opção (sim, escolha) que fiz.
A obra da feminista francesa Elizabeth Badinter de que falei acima é L’Amour em plus (Um amor conquistado – o mito do amor materno). Para ela, que é mãe e avó, a mulher deve sempre se perguntar se realmente quer ser mãe e em que condições. Ela diz:

Deduzindo-se o feminino da capacidade materna, define-se a mulher pelo que ela é e não pelo que escolhe ser. E não há definição simétrica do homem, sempre apreendido pelo que faz e não pelo que é”.

E discute o mito do amor materno, tido como natural mas por ela comprovado (em pesquisas sobre gestação e aleitamento nos séculos passados) como mais um fruto de convivência do que um instinto natural! Por isso homens e mulheres podem ser bons nisto, igualmente. E por isso hoje, por conquistarem o direito de ser, alguns optam por não ser pais. Nada mais justo, não é verdade?

Obs: em 28/02/2006 o comentário que a Andréa deixou aqui virou desabafo.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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