“Há um tempo de nascer e tempo de morrer” e o que importa é sermos felizes

“Tem muito preconceito. Não falam para mim, não são doidos. Mas dizem: “Nessa idade, tinha que ser avó”. Dia desses, no supermercado, uma mulher falou: “Tsc, palhaçada”. Não podia revidar porque não sabia se era comigo, mas só tinha eu e ela no corredor.”
Solange Couto, grávida aos 54

solange couto - gravidez tardia - crédito da foto: Reprodução de site

Hoje pela manhã li uma entrevista de Solange Couto – a eterna Dona Jura, de O Clone, mas de quem eu lembro na sua estreia em Sinhá Moça – sobre sua gravidez tardia. Eu tinha ouvido falar da gestação, mas, como não tenho tempo para os programas que tratam da vida privada de celebridades, nem sabia que teve especulação sobre a possibilidade de ser fruto de fertilização in vitro ou de ser apenas um golpe de marketing para levantar a carreira.

Nos comentários da atriz – que tem outros filhos, de 36 (!) e 19 anos – o que se nota é uma defesa contra o preconceito. Daí eu pensei: a pessoa já deve ter sofrido pacas por ser uma mulata linda (sim, ainda pesa ser mulata e bonita no Brasil, mais ainda quando ela era jovem e começou a carreira) e agora que é uma “senhora” e conquistou espaço e respeito como atriz, precisa sofrer porque está grávida? Ser abençoada com uma saúde excelente e poder viver uma gestação natural e saudável, num relacionamento estável, não é uma coisa boa? Por que será que a sociedade questiona e classifica esta situação como um equívoco?

“E o que é idade de ser avó? Por que depois dos 45 a mulher só pode ser avó? Se tiver saúde, vida sexual ativa, onde é que está o senão? É preconceito, cara. Por que o homem não é tratado assim? É preconceito contra a mulher, e principalmente da mulher contra a mulher.”

Quer um exemplo: no dia da posse as pessoas não criticavam o Temer (casado com Marcela, 40 anos mais jovem, com quem tem o filho Michel), apenas comentavam a beleza da esposa dele. Minha mãe teve um pai mais velho – meu avô tinha 20 anos mais do que minha avó – e sinto que ela e minha tia tiveram muito mais do pai maduro do que teriam tido de um pai jovem (considerando a realidade da época, gente, meu avô nasceu em 1904 e minha mãe em 1948).

maternidade tardia e paternidade tardia michel temer  - crédito da foto: Reprodução de site

E aqui quero chamar atenção para outros preconceitos embutidos na visão que temos atualmente da maternidade. Um deles, o de achar que “toda mulher nasceu para desejar ser mãe“, eu já debati, há anos, ao compartilhar aqui o livro L’amour en plus (Um Amor Conquistado – O Mito do Amor Materno), da filósofa francesa Elisabeth Badinter, que na década de 1990 surpreendia o mundo ao defender que o amor da mãe pelo filho se constrói no dia a dia e que o instinto materno não é inerente a qualquer mulher.

Em seu novo livro, o, Le conflit, la femme et la mère (O Conflito – A Mulher e a Mãe), a pensadora que é referência no debate da figura feminina atual, coloca como centro do debate o dilema (obsessão) naturalista que vê como desafios para as mães de hoje que, segundo ela, buscam uma perfeição sem sentido.

”Em vez de pedir às mulheres que lavem as fraldas sujas dos bebês ou seus tampões higiênicos, como faziam nossas avós, seria melhor pedir à indústria que fabrique fraldas biodegradáveis. O cuidado com o planeta não deve se transformar em uma nova religião em que as mulheres sejam escravas.”

Vale ler aqui uma entrevista com Badinter sobre o assunto. E para um pensar coletivo sobre o tema, não só da maternidade tardia (como a de Solange Couto), mas do papel que homens e mulheres querem desempenhar em suas vidas pessoais, sugiro a leitura dos textos que o Estadão trouxe neste final de semana com um breve perfil dos blogs de mães e de pais no Brasil, trazendo inclusive parte do debate sobre as mães que usam a internet para alardear aos quatro ventos a perfeição de sua vida de @dorianamae (alusão ao comercial de margarina) e as que são vítimas de bullying por outras mães “mais xiitas” (militantes de extremos no desempenho das funções maternas como parto, aleitamento, consumo e relação com a mídia) que são chamadas ou se autointulam @maedemerda.

Da minha parte, a conclusão sobre o tema é a que rege minha vida como um todo: em primeiro lugar, cada um sabe seu tempo e sua hora para viver (lembram que eu adoro a passagem de “há um tempo para tudo” em Eclesiastes 3?), em segundo lugar, como ouvi hoje num vídeo, há um equilíbrio que não está nem em você, nem em mim, mas num meio termo entre nós dois.

[update em 11/04/2011]
Dois posts que são interessantes para quem está lendo este aqui:
Culpa zero no Lichia Doce
A construção da irrealidade no Vinhos, viagens, uma vida em comum… e dois bebês
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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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