Marvin

Recentemente exposto no Festival Varilux, chega aos cinemas nesta quinta o longa dirigido por Anne Fontaine, “Marvin”, filme que vimos em primeira mão em cabine de imprensa. 

O filme tem como motivação principal retratar a mudança interior de um indivíduo utilizando-se de seus problemas e limitações para superar a si mesmo.

Oscilando entre dois focos narrativos distintos, o enredo se pauta tanto na difícil infância do protagonista Marvin Bijou, como em sua passagem para a vida adulta, na qual alterou seu nome para Martin Clement. Sem dar espaço para quaisquer possíveis confusões entre as duas tramas, a direção de Anne Fontaine permite uma identificação clara de cada uma, mesmo com o enredo discorrendo fora de ordem cronológica.

Ao longo da infância, Marvin sofre bullying de colegas na escola por se comportar de modo diferente e considerado por alguns como “afeminado”. O garoto permanece quieto a maior parte do tempo, sem interagir com muitos colegas e professores e tentando fugir de estudantes que o perseguem para agredi-lo. Já não bastasse, Marvin também não tem refúgio em casa. Sua mãe não faz ideia das provações que o jovem sofre na escola, e seu padrasto, ainda que jamais agrida nenhum membro da família, nunca perde a oportunidade de ofendê-lo. Ainda assim, é seu irmão mais velho de quem mais tem medo. Violento e filho do primeiro casamento da mãe, o adolescente nutre certo ódio pelo irmão, acreditando que os pais deveriam surrá-lo para ele deixar seu jeito quieto e “estranho”.

Na idade adulta, Marvin é um ator teatral, e tem a oportunidade de dirigir uma peça ao lado da consagrada Isabelle Hupert, interpretada por ela mesma no filme.  

Aos poucos, detalhes das vivências de Marvin em sua história vão sendo transmitidos, permitindo ao espectador um panorama do que levou aquele menino quieto e isolado a colocar sua posição em uma sociedade repressora. Personagens como a Srta. Clement, professora do colégio, e amigos da idade adulta possuem um importante papel na vida de Marvin para que este consiga superar seus traumas e sofrimentos por meio da arte e, sobretudo, do teatro.

Sob certa perspectiva, o filme sugere uma análise um tanto simplista de problemas sérios. Mesmo que com uma série de dificuldades, o protagonista consegue se impor no mundo por meio das artes e aos poucos, ser aceito socialmente como é, algo que pode soar um tanto idealista, ou mesmo utópico.

Além disso, muitos dos personagens do enredo são estereotipados. Não apenas o protagonista aparenta ter apenas seus conflitos internos como defeitos, mas seus colegas e parentes são quase sempre retratados como vilões e agressivos em relação a ele, algo que dificulta uma análise mais completa dos problemas vividos pelo protagonista e de todos os que se encaixem em seu contexto realidade afora.

Ainda assim, não são desmerecidos de forma alguma os trabalhos de fotografia e cenário. Frequentes comparações entre o garoto e o adulto ao longo do filme, bem como um trabalho singular de atuação por parte, sobretudo de Finnegan Oldfield, intérprete do protagonista, bem como também dos demais integrantes do elenco, faz de “Marvin” um filme propício a uma reflexão a respeito de entendimento alheio e de superação individual a partir das artes.

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Daniel Benites

Estudante de jornalismo, amante eterno dá sétima arte, não passo uma semana sem frequentar às telas. Adoro viajar e ter novas experiências, toco em uma banda e espero um dia escrever um livro (ou vários).

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