Marielle e as veias abertas do Rio de Janeiro | #imaginajuntas

Ontem à noite, já na cama, vi a notícia da morte de Marielle. A ficha não caiu. Pisquei o olho, fiz uma nova busca e estava lá – era ela mesma.

Conheci Marielle através da minha prima, também socióloga, durante as eleições de 2016. Saí do trabalho, andei alguns passos e parei num palanque da Cinelândia. Minha primeira marcha de mulheres. Mulher forte, fala lúcida e aberta sobre o cotidiano que ela e tantos outros cariocas moradores de favela conhecem bem. Não era meu lugar de fala e ainda não é. Mas numa sociedade onde a humanidade segue destroçando uns aos outros, empatia é fundamental. E foi ali, naquele momento, que decidi meu voto.

“A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la” – Eduardo Galeano

Falar que Marielle foi a 5ª vereadora mais votada do Rio é pouco. Marielle, cria do Complexo da Maré, foi eleita para servir de voz para mais de 46 mil cariocas. 46 mil pessoas que lutam pela dignidade da população – não somente, mas também, da favela. Uma mulher negra, favelada, bacharel em Sociologia e mestre em Administração Pública na Câmara trouxe representatividade para quem é constantemente esquecido pelo estado.

Mataram uma mãe, mais uma vez, e 46 mil eleitores.

A execução de Marielle foi mais que um atentado às mulheres: é um recado nítido para as minorias ficarem com medo mesmo; um recado de que a manutenção da barbárie será feita a todo o custo; um recado bem nítido de que denunciar a truculência do Estado pode custar caro e ser fatal.

Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre” – Eduardo Galeano

Marielle começou sua militância em direitos humanos após ingressar no pré-vestibular comunitário e perder uma amiga, vítima de bala perdida, num tiroteio entre policiais e traficantes na Maré. No seu 1º ano de mandato, foi eleita como presidente da Comissão da Mulher da Câmara e no último dia 28 de fevereiro, como relatora da Comissão da Intervenção na Câmara, que investigará (ou investigaria…) a intervenção militar no Rio.

Marielle e Anderson, seu motorista, são as últimas vítimas, dentre muitas, de um sistema de segurança falido e um estado rasgado, numa guerra que persiste desde os anos 90 – ou mais.

“Não temos segurança.
Não temos transporte público eficiente.
Não temos segurança.
Não temos saúde.
Não temos segurança.
Não temos educação.
Não temos segurança.

Não temos prefeito.
Não temos governador.
Não temos presidente.

Estão acabando com o Rio de Janeiro.” por Gilberto Porcidonio

*os trechos do texto em vermelho, assim como parte do título do post, fazem referência ao livro “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano

Gente, parem de matar a gente. #mariellepresente

A post shared by Ana De Cesaro (@anadecesaro) on Mar 15, 2018 at 2:04am PDT

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Eu sei falar de muitas coisas, mas na maioria das vezes sai tudo bagunçado. RP, saúde, doação de sangue e amor (sobre tudo).