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Atriz Cate Blanchett sem tratamento digital (photoshop)

A atriz Cate Blanchett na capa da revista Intelligent Life, sem tratamento digital (photoshop!) ou maquiagem excessiva

Eu tenho sardas, linhas finas e (ainda) tênues no rosto, dobrinhas tímidas, celulites e estrias, fruto de doces, refrigerantes, genética ou qualquer outra justificativa. Mas eu não tenho culpa, no sentido mais religioso e moral da palavra. As marcas que carrego no corpo e na alma me diferenciam da tábula rasa em que algumas revistas querem que eu me converta.

Nas bancas, as chamadas da eterna juventude ou da plástica beleza são, quase sempre, direcionadas a nós, mulheres. Com suas personagens de capa trabalhadas no photoshop ou na combinação milagrosa dieta + academia + maquiagem, as publicações vendem o ideal, sufocando a possibilidade real de felicidade e aceitação. Através da auto-ajuda, páginas e páginas tentam, em vão, apagar as marcas que as experiências ruins, ou apenas finitas, deixaram em nós.

Sou os meus fracassos, os percalços no caminho, os amores passageiros, o medo, a preguiça e a falta de atitude em alguns momentos. “Use, compre, faça, seja…”, eu também não sou. E é isso que as revistas, que deveriam conversar comigo e expandir o meu mundo, não entendem. Ter cicatrizes faz parte da vida, assim como marcas de nascença, de tombos, dos ancestrais, do inverno e do verão… E não quero abrir mão de tudo isso para sair bem na foto, despertar inveja e depois “ter que afastá-la”, com sal grosso, simpatias ou indiretas em redes sociais.

Até mesmo as revistas que se consideram libertárias, perdem linhas tentando menosprezar as nossas fragilidades, valorizando tudo aquilo que podemos parecer ao vestir essa roupa, frequentar aqueles lugares e ouvir tais artistas. E se gostar de novela, chorar com um romance, quiser casar, não ir para a Augusta e detestar a Vila Madalena? E daí? O hype de ser “contemporânea e moderna” cansa tanto quanto a obrigação de se moldar feito miss. Mas, talvez, o pior seja uma publicacão voltada para mulheres de negócios, cuja capa é uma atriz qualquer, um galã bobo é o colunista e dentro, escondidinho, estão perfis de líderes admiráveis, como se fosse pecado ser interessante sem ser linda ou famosa.

Também quero transformar as minhas marcas em grandes conquistas e belas recordações, sem precisar anulá-las. Ver estampado, seja no meu rosto ou nas capas da banca, as pequenas revoluções e descobertas femininas, o que nos une para além do que aparentamos. Com ou sem salto, de cara limpa ou pintada, sem precisar seguir à risca o que as revistas A, B ou C esperam. Sem manuais para chegar ao orgasmo, nem desculpas para fingí-lo. Com todas as palavras que merecemos, independente do gênero, mas com respeito pelo que somos e podemos ser, assim, imperfeitas.

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@talitaribeiro

Apaixonada por palavras e viagens, gestora em formação, jornalista não praticante, esposa, amiga, prima-irmã, filha, neta, futura tia e mãe.

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