Analisando o filme ‘Mãe!’: Contém Spoilers.

 

Esse texto é para você, que assistiu o filme e está fritando para ler e conversar sobre ele.

Aconselho àqueles que ainda não assistiram, mas querem assistir, que não leiam ou busquem spoilers antes de ver o filme. Boa parte da emoção de Mãe! está em ir entendendo aos poucos e sair da sala do cinema com a cabeça derretendo e o coração apertado.

Bom, tudo que escreverei aqui faz parte da minha própria interpretação. Sei que outras pessoas receberam esse filme com diferentes olhos. Não há uma única possibilidade de análise!

 

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O filme começa nos mostrando uma relação um tanto quanto fria entre um casal: O Criador e sua Criação. Ela, a Terra, reclama que sua presença não parece ser o bastante para o Marido. Ele nos parece pouco atencioso com sua Amada e essa impressão só aumenta conforme o filme avança.

Mas aqui está a chave que usei para entender todo o filme. Pensei que foi como se o diretor, Darren Aronofsky, tivesse sentado e pensado: ‘o que a nossa Terra, a Criação, pensa sobre tudo o que tem acontecido até aqui? Qual a opinião dela sobre o Amor de Deus com os Humanos? E sobre os planos d’Ele?’

E então, houvesse buscado gravar o filme todo sob o ponto de vista único da própria Terra, mostrando os seus sentimentos sobre nós e sobre Deus.

E uma boa forma para se perceber isso é observar a escolha do diretor em captar as cenas. A maior parte das gravações foram feitas a partir da perspectiva da Mãe: tudo o que ela observava, ou as expressões que ela fazia, enquanto as coisas aconteciam.

O filme nos passa a impressão de um Deus inconsequente e não é à toa. Só pelo Amor d’Ele podemos entender como Alguém cria seres tão perversos e entrega sua Criação nas mãos deles.

Só Deus para se entender…

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Temos uma Criação que não entende a insanidade do Marido em receber visitantes extremamente incovenientes de maneira tão afetiva e hospitaleira. A Mãe acredita que, por Ele não se satisfazer apenas com Ela, Deus busca a atenção e o amor da humanidade, por mais falha que possa ser.

A Mãe não é capaz de entender o Amor sincero e louco de Deus por nós. A Mãe vê apenas maldade, loucura e egoísmo no que a Humanidade faz. Especialmente porque, nessa história toda, Ela é quem mais sofre.

 

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É nela que construímos nossas moradas e buscamos comida e matéria-prima. É Ela que ferimos, matamos, queimamos e descartamos. Chegamos no Lar como se fosse tudo nosso e pudéssemos fazer o que quiséssemos. Sem se importar em manter a mesa não-chumbada intacta e as paredes, limpas e naturais.

A Mãe se sente traída. Porque Deus preferiu a companhia dos homens e ainda a entregou aos humanos para que eles cuidassem dela.

O Poeta nos ama de uma maneira que nem mesmo nós conseguimos entender. Destruímos seu Lar e tudo que Ele faz é sorrir e nos chamar de volta para perto d’Ele.

‘Não é possível’, a Terra pensa, ‘Ele deve gostar de ser a atenção deles. Senão, não fazia isso’.

 

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Após Adão, Eva, Caim, Abel e o próprio dilúvio acontecer, (A mesa não-chumbada estoura e a Terra grita em desespero) o mundo é silenciado. Deus se silencia. E assim continuaram-se muitos e muitos anos sem que Ele nem ao menos tocasse na Terra.

Até que Deus promete um Filho. Uma nova salvação à humanidade, um presente que Deus enviará à sua adorada Terra. Ele escreve as Boas Novas e emociona sua Criação.

A Terra se emociona ao ler que seu amado será morto por Amor. Se entristece ao pensar que Ela provavelmente o perderá.

 

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As pessoas recebem o Evangelho com entusiasmo. O Poeta finalmente falara com eles novamente. Cada um busca sua própria interpretação e logo nada mais se entende. Guerras, falsas promessas, mortes, tiroteios, e todo tipo de maldade se espalham pela Terra e Ela clama a Deus por socorro.

“Mande-os embora. Por favor. Eu quero ficar sozinha com Você. Mande-os embora.”

Deus nem ao menos cogita a possibilidade. Ele os ama demais. E por mais que Ele saiba que tudo tende para que dê errado e que sua Criação morra, o Poeta não desiste. Ele tem um Amor insano por essas pessoas.

 

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Seu filho nasce, e nós O matamos. Deus chora e diz à Terra que foi uma oportunidade para que todos eles fossem salvos. A Terra não acredita no que ouve. No filme, há a impressão de que Deus não planejara nada daquilo. De que Ele estava desesperado, buscando uma desculpa para explicar porque entregou seu Filho às mãos daqueles assassinos.

A Terra sofre. E porque sofre, não consegue de fato compreender.

A humanidade chega ao limite da calamidade e a Criação finalmente cede. Ela se reduz às cinzas e chora inconsolável.

 

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Deus, com toda sua onipresença, retorna ao Princípio, para que pudesse recomeçar. Desde lá, no Princípio de tudo, Ele já sabia o que aconteceria. Ele conseguia enxergar as florestas em cinzas e as águas contaminadas em suas mãos. Mas por Amor, esse Amor insano e incompreensível, Ele Cria. Cria o Lar e as pessoas que nele habitarão.

Ele termina sua Criação, descansa e ri. Ri com gosto. Porque ele vê que tudo o que Ele fez foi muito bom.

E Ele não se arrepende.

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Vinii ainda é estudante de jornalismo e tem muito o que escrever pela frente. Paulistano de berço, se esforça pra não se acostumar com o cinza e o cruel de Sp. Acredita que há amor aqui, e em qualquer outro lugar, e luta contra o futuro de Black Mirror.