Luthier encontra no lixo materiais para mostrar seu amor à música

Quando passa por um terreno abandonado com sofás e guarda-roupas jogados em meio ao lixo, o que você vê? O abandono da cidade, a falta de cuidado da prefeitura, o descaso dos cidadãos… pois este luthier de 20 anos da periferia de São Paulo vê insumos para produzir instrumentos musicais.

Ao ver a reportagem de Vanessa Correa (com versão em vídeo, que incorporo abaixo) me emocionei com este jovem que descobriu em 2009 o universo da luteria (arte de “construir” instrumentos musicais) e que busca no lixo a madeira para montar seus próprios instrumentos.

O tampo desse violão clássico é de abeto, uma madeira da Europa parecida com o pinho. Veio de uma caixa de bacalhau da Noruega que eu peguei no Mercadão“, conta, com simplicidade, David Rocha, que já construiu com materiais como estes “um alaúde, um cavaquinho, um bandolim, uma rabeca e um violão barroco“.

O mais curioso é ver de onde isso surgiu!

Ele conta que sempre gostou de música e ainda criança assistia pela televisão aos concertos da Sala São Paulo (viva os canais como TV Cultura e outros que têm estes programas na grade!) e aos 16 aprendeu a tocar em uma igreja evangélica. Como queria um violino (instrumento pouco acessível, como bem sei, pois minhas duas irmãs estudaram violino e nem para meus pais foi fácil comprar um bom violino, que dirá dois), David decidiu montar um usando a madeira de móveis descartados. Achei lindo ouvir, no vídeo, ele contando que cheira a madeira para sentir se ela serve! Que alma sensível!

David cursa o último ano do ensino médio e hoje é monitor da oficina de luteria durante a tarde, trabalho pelo qual recebe uma bolsa de R$ 450 da Fundação Tide Setúbal (@TideSetubal no Twitter), que promove o curso no Galpão de Cultura e Cidadania de São Miguel Paulista.

Para além da história do jovem luthier (cujos instrumentos ainda não são considerados violinos de fato, constam como rabeca popular), chamo atenção para o valor de trabalhos sociais em todas as comunidades, carentes ou não, e do papel que cada um de nós tem na promoção humana. Um jovem como este poderia não evoluir em sua habilidade musical, tampouco aprender este ofício para o qual parece ser tão naturalmente qualificado e, pior, deixaria de ser um “inspirador” para que outros jovens descubram uma vida que vê mais ao seu redor, que busca qualificar para ter qualidade.

Creio que trabalhos como este – há três décadas, em trabalho com o Corpo Municipal de Voluntário de São Paulo, Tide Setubal expressou a importância de despertar a consciência de que cada cidadão é responsável pela sua comunidade – nos mostra que o trabalho integrado de todas as instituições e recursos é capaz de criar condições para o despertar de toda a população.

Se desejamos mudar a realidade, além de debater leis e nos unirmos em manifestações por direitos, urge que consigamos nos mobilizar como grupo, unindo diferentes atores, colocando as demandas que nos parecem importantes em discussões transparentes e concretas que desencadeiem de fato mudanças no caminho do desenvolvimento local sustentável.

E pensar que se a gente apoiar podem surgir muitos talentos como este. Não dá vontade de arregaçar as mangas e começar a participar mais da comunidade já?

P.S. Sobre a madeira e a luteria: a reporter contava que “o interesse de David por materiais reciclados pode se tornar uma vantagem, já que o ofício sofre com a falta de madeira nacional disponível”. Acontece que a maioria dos bons violões é feita com jacarandá-da-bahia, madeira que tem o corte proibido, ou de mogno, madeira difícil de ser encontrada.

P.S. Obrigada @deborahdubner por compartilhar!

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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