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Acho que a primeira vez que ouvi falar de Lou Salomé foi no livro “Quando Nietzsche chorou”, do psicoterapeuta Irvin Yalon. Imaginei um Nietzsche apaixonado por Lou, enredado numa espécie de loucura, enaltecendo a pessoa desejada – e, com a mesma força, no segundo seguinte, acabando com qualquer vestígio de respeito por aquela paixão. Mas era um homem que escrevia, e sobre um dos filósofos mais “durões” do século XIX. Que mulher seria tão poderosa? Fiquei curiosa, mas não fui procurar saber.

Quando “Lou”, filme que estreia hoje nos cinemas, foi anunciado, a sinopse deixava claro que havia muito mais pra ser conhecido. E, depois de assistir ao filme, isso se confirma.

“No fim do século XIX a escritora e psicanalista Lou Andreas Salomé vive de forma livre e contestadora. Suas ideias e atitudes seduzem as mentes mais brilhantes da sua época, como os filósofos Paul Rée e Friedrich Nietzsche, o psicanalista Sigmund Freud, o poeta Rainer Maria Rilke, além do jovem filólogo Ernst Pfeiffer. Auxiliando Lou nos registros das suas memórias, ele também acaba se apaixonando por ela”.

 

Depois do filme – e, é claro, sob o impacto de reflexões recentes (nos âmbitos privado e público) – percebo que ainda não fazemos justiça a Lou, associando-a sempre aos grandes homens que teriam sido “seduzidos” por ela, por terem ficado “encantados” com sua beleza e gênio!

 

[Uma pequena digressão: ela me lembrou de Pagu, nossa militante brasileira, poeta, tradutora, jornalista bela e sagaz – e muito conhecida apenas como “amante de Oswald de Andrade”!]

 

Saí do cinema com vontade de buscar saber quem foi Lou e o que ela escreveu, o que ela defendeu, como resolveu essa equação de ser uma mulher inteligente e sedenta de conhecimento, numa sociedade que esperava, apenas, que ela se casasse e tivesse filhos.

Cordula Kablitz-Post é a diretora deste filme. Seu grande trunfo, a meu ver, é apresentá-la a nós. Mas que tenhamos os olhos abertos, porque o roteiro reforça aquela narrativa da mulher devoradora das mentes e dos corações dos homens mais brilhantes da época. Vez por outra saltam questões importantes para o feminismo: quem pode se dar ao luxo de escolher o que quer fazer de sua vida? Quem financia a liberdade criativa a que Lou aspira? Quais as distâncias entre a admiração, o amor, a amizade, a paixão e o abuso entre um homem e uma mulher? Mas, assim como apenas saltam, não são desenvolvidas.

Outro trunfo é a escalação do elenco. Em minha opinião, Nicole Heesters (Lou septuagenária), Katharina Lorenz (Lou dos 21 aos 50 anos) e Liv Lisa Fries (Lou adolescente) dão conta deste recado: uma pessoa cheia de vida, inconformada com os limites que querem lhe impor.

Para alargar esses limites, Lou teve que sair da Rússia e ir a Zurique, para se matricular em uma universidade onde aceitavam mulheres. Lou foi uma psicanalista, uma das poucas do Círculo Psicanalítico de Viena. Foi amiga, confidente e analista de Anna, filha de Freud. Teve seus livros confiscados, pouco antes de sua morte, em 1937, acusada de praticar “ciência judaica”. Autora de ensaios como “A humanidade da mulher” e “Reflexões sobre o problema do amor”, e de vários livros que não encontraram, ainda, tradução para o português, ou estão esgotados.

Alguém aí estuda alemão?

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

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