Qual é a melhor forma e momento para orientarmos uma criança sobre os riscos do abuso sexual infantil?

Há alguns anos eu assisto o seriado Law & Order SVU, que mostra o cotidiano de um departamento de polícia de Nova York, nos EUA, responsável por casos que envolvem vítimas especiais (menores, incapazes ou, mais comum, vitimas de violência sexual). Sempre que vejo como eles lidam com a situação – que me parece ou mais comum por lá, ou enfrentada com mais firmeza – eu reflito que aqui no Brasil não temos ainda uma política para lidar com esta realidade que vitimiza muitas crianças.

Quando surgem notícias como a da moça que teve vários filhos com pai, lá nos rincões do sertão ou do norte, a gente pensa que tinha algum vizinho que podia ver a pessoa tendo filhos e reagir né? Porque, como insisto em muitos temas aqui no blog, é o “controle social” que nos permite andar na linha… se os vizinhos dos austríacos que mantiveram meninas cativas por anos até se tornarem adultas não se fizessem de surdos, quem sabe?

Mas nós pais muitas vezes nos fazemos de mudos. Para não assustar as crianças deixamos de tocar em assuntos tristes ou delicados, não é mesmo? Pois ao ler sobre o livro “Segredo Segredíssimo“, de Odívia Barros, pensei em como teria sido a realidade da personagem Adriana se a amiga não a encorajasse a contar o segredo para a mãe. Nossos filhos podem não ser a vítima, mas sua capacidade de reagir ao mundo (e para reagir às coisas ruins do mundo precisamos ter conhecimento) pode mudar a vida de alguém. A autora fala sobre o tema por experiência própria (e imagino que duro deve ter sido tratar do assunto e ao mesmo tempo reviver tudo em cada entrevista para o lançamento da obra!), pois sofreu abuso sexual na infância. Se a personagem –  menina triste e medrosa que guardava em segredo os abusos cometidos por um “tio” – é um retrato fiel de Odívia pouco importa, vale muito sua iniciativa de mesclar histórias e compor uma realidade que deve ser encarada como essencial na formação de nossas crianças, tanto nos lares quanto nas escolas, logo nos anos iniciais do ensino fundamental.

Felizmente não estou só na defesa desta ideia. Especialistas na área de políticas públicas na infância e adolescência defendem que o tema precisa ser discutido no ambiente escolar, mas requer uma formação dos educadores. Em entrevista ao G1, a escritora argumentou que especialistas avaliam que a partir dos 5 anos já é possível orientar as crianças sobre a abordagem sexual imprópria por parte dos adultos.

“Eles apontam que, após o convívio familiar, a escola mostra-se como situação ideal para detecção e intervenção junto aos casos de abuso sexual, justamente pelo tempo considerável em que a instituição, a criança e seus familiares interagem. É imprescindível discutir o tema. Ou fazemos isso ou os abusadores continuarão chegando primeiro.”

Para ela, a escola tem o compromisso ético e legal de notificar às autoridades casos suspeitos ou confirmados de maus-tratos, que incluem a violência sexual. “O ambiente escolar é um excelente lugar para que as discussões sobre abuso sexual aconteçam, sempre respeitando a faixa etária e o nível de conhecimento da criança.”

E hoje acontece um ato público no Vão do MASP (e em outros endereços do Brasil) para reduzir este silêncio. Não sei se poderei ir, mas em coração me junto aos que lutam pelas crianças que convivem com esta violência e aos adultos que sobreviveram a ela e tentam ser felizes. Oro sinceramente por todos e cada um.

P.S. O vídeo abaixo, da campanha 15 segundos, é impactante, tá? Se quiserem saber mais, vale visitar site da marcha 15segundos.net. E neste Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual da Criança e do Adolescente, o site Carinho de Verdade também nos convida para trazer o tema à discussão popular, tornando pública a importância de combater e denunciar crimes dessa natureza. O convite é para usarmos a hastag #carinhodeverdade no Twitter, em uma grande ação coletiva para que todo país veja a força da mobilização e perceba a importância do tema.

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[update] Um post de mãe blogueira que foi vítima de assédio sexual na infância na escola onde estudava: http://contosmamaepolvo.blogspot.com/2011/05/pedofilia-eu-fui-vitima.html [/update]

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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