Livre-arbítrio

Que os filhos nos ensinam muita coisa, ninguém duvida – nem discute mais. Mas às vezes as lições destas novas gerações são surpreendentes demais.

Estava no mercado agorinha com Enzo e caímos num papo de que tênis dourado é para mulher (ele está calçando meu número e já de olho no meu Croocs e num Nike). Tentei explicar que dourado só se for homem que se veste de mulher e ele falou, natural: é para viado? Ui!, frio na espinha. Respondi, é – e calei em seguida. Enfim, achei que era hora de falarmos mais do assunto, que começamos outro dia quando ele levou um DVD da série de documentários Maravilhoso Mundo dos Animais da Disney (que, aliás, é ótimo e recomendo) para escola e o dos veados foi motivo de piadas. (Como diz o Enzo, "a escola é uma selva!") Naquela ocasião eu falei que é um homem que tem o jeito de agir ou de vestir mais feminino, usando como exemplo um amigo de amigos que é gay e tem um filho (fruto de "one night stand") com quem os meninos brincam às vezes. No dia, foi suficiente. Hoje expliquei melhor, que é homem que namora homem . Ele, óbvio, perguntou se mulher também namora mulher – já deve ter visto várias namoradas no Ibirapuera e estava esperando para tocar no assunto 😉 . Confirmei e fomos nós, seguindo nossas compras, com o papo assim, casual, tranquilo e profundo ao mesmo tempo.

Meu filho quis saber se os gays casam. Sim, mas não legalmente, porque no Brasil não pode ainda, respondi. Aí resolvi contar de alguns amigos meus que são gays e que ele conheceu, comentando que são boas pessoas e que não são tão diferentes de mim, do papai, enfim, são pessoas e o que importa é que sejam éticas, corretas, honestas e que nos respeitem como lhes respeitamos . A conclusão do Enzo foi emblemática: eu entendo, eles estão exercendo seu livre-arbítrio e o que fazem na vida deles não é da nossa conta . Depois dessa, eu precisava falar mais alguma coisa?

Bem, agora vou contar porque achei que estava na hora de tocar no tema homossexualidade. Um dos melhores amigos que tenho, o Brian, que mora no Japão, está aqui em São Paulo visitando os pais, aproveitando o feriadão de Golden Week japonês. Ele é um tiozão dos meninos, quando morou em Curitiba era quase um pensionista da nossa casa, cuidou do Enzo várias vezes para eu trabalhar e é da família, tanto da minha quanto do Gui. Mesmo sem conhecer pessoalmente Giorgio, ele sempre está atento ao que comento que os meninos gostam e manda livros ótimos de presente para eles. Acontece que Brian também é gay e é casado há quatro anos com um japonês, o Hiro. E como veio nos visitar pela primeira vez desde que se assumiu, ele precisava sentir que nada mudou na nossa amizade. E sentiu, almoçou aqui em casa sábado e foi ótimo, como nos velhos tempos. E nem tinha por que ser diferente, né?

E você, já teve que lidar com esta situação na sua família?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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