Julliette Binoche em três filmes

No começo de 2008 postei num blog coletivo que eu coordenava um post sobre a atriz Julliette Binoche. Vira dois filmes com ela e estava encantada com a capacidade que a “musa francesa na década de 1990” – papel que assumiu com filmes como Trois Couleurs ( dirigida por Krzysztof Kieślowski trilogia com as cores da bandeira francesa e as frases que guiaram a revolução de 1789), The English Patient e Chocolatela sempre me agradara com a escolha de roteiros não-óbvios.

Explico: ela poderia se manter como pretensa beldade – pretensa porque a beleza é muito relativa e definitivamente não é o que recebemos como “enlatados de USA de 9 às 6” – mas prefere tratar dos dilemas humanos num contexto que é íntimo e social ao mesmo tempo.

Em Jet lag: Décalage Horaire (“Fuso horário do amor”, outro daqueles péssimos títulos em português) Binoche e Jean Reno fazem aquele casal impensável que o cinema gosta muito de explorar e o público adora ver. Ele é um chef de cuisine que deixou a França ainda jovem e fez fama e fortuna nos EUA e é ela uma maquiadora premiada. Ambos estão emocionalmente abalados e uma confusão no aeroporto Charles De Gaulle os deixa numa suíte por uma noite num hotel próximo. Neste ponto eles passam a compartilhar a contragosto suas frustrações afetivas e a falta de compreensão e reconhecimento paternos. Ele do pai que descende de uma geração de chefs franceses e não aceitou suas inovações levando-o ao sucesso com congelados americanizados, ela dos pais comunistas que lhe negavam o sonho de uma casinha burguesa e a levaram a uma carreira das mais burguesas – claro, renegada pela família. O confronto dá aos personagens a redenção na percepção de que seus aparentes fracassos são humanos.

Considero o cinema entretenimento agradável quando nos traz esta aceitação e foi primoroso neste filme, que, apesar do final piegas e da pobre trilha sonora com músicas francesas, é uma produção singela que conta com a química destes atores que conseguem, como o personagem de Reno tenta, sair de sua França e viver uma realidade mundial sem fronteiras. Aliás, Reno, geralmente visto como símbolo do cinema francês como Gérard Depardieu, não é francês, é nascido no Marrocos de pais franceses. Deve ser seu segredo para transitar tão bem pelos papéis de “eterno estrangeiro” sem se importar com pecha!

Outro filme de Binoche que eu lembrava na época era Entering and Breaking (no Brasil, sob o péssimo título de “Invasão de Domicílio”). Num triângulo amoroso com Jude Law e Robin Wright Penn (de quem lembro inevitavelmente como a Jenny, de Forrest Gump), ela interpreta Amira, uma refugiada da Bósnia que vive em Londres com o filho de 14 anos. O filme, além de redimir Law para mim depois de Closer (muita gente vai discordar de mim, mas não gostei deste filme apesar de gostar do elenco e tê-lo visto mais de uma vez pela TV a cabo), traz à tona discussões sociais tendo como mot a incorporação do diferente: dos refugiados numa Europa que não está preparada para receber estranhos, da mãe que se fecha num mundo à parte com a filha autista, da empresa que vende o verde sem sê-lo, do projeto urbano que quer modernizar o lado marginal da cidade com concreto e aço, sem levar em consideração o ser humano. É uma Europa cruel, em alguns aspectos lembrando Cidade de Deus e o Abusado, onde as diferenças e semelhanças são visíveis, mas só vê quem quer. (Que país, na verdade, está pronto para receber imigrantes na atualidade? Fora o Canadá que tem uma política efetiva de imigração que inclui estes casos, não sei se há algum que caminhe neste sentido.)

Sugestão: Preste atenção no detalhe poético da personagem Amira tocando obras de Bach nas teclas pintadas numa prancha de madeira. Poucos momentos do cinema me foram tão caros e lembrou-me o final de Cinema Paradiso.

Eis que nesta semana fui convidada para uma sessão especial de lançamento do filme que dizem ser o melhor desta atriz. Segundo li, com Copie Conforme (“Cópia Fiel”) ela foi eleita a Melhor Atriz no Festival de Cannes do ano passado – e conta agora com os três mais importantes prêmios do cinema, pois tinha sido premiada em Veneza por “A Liberdade É Azul” e em Berlim por “O Paciente Inglês”, que também lhe deu um Oscar). Estou ansiosa para ver o filme – e na volta eu conto para vocês se a musa francesa me agradou de novo – ou não!  :p

No meio da tristeza pelo Japão, chega um mimo do filme @copia_fiel ;-)

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.