Jornada do herói é o foco do grupo Cincoincena

Entrevista que fiz com o Cincoincena e foi publicada no Desabafo de Mãe.

Jornada do herói é o foco do grupo Cincoincena

21 de fevereiro de 2007

Samantha Shiraishi, mãe de Enzo e Giorgio

São Paulo, SP – Em seu mais recente trabalho infantil, o grupo Cincoincena conseguiu uma proeza que considero fantástica: transpor para o teatro alguns dos memoráveis personagens da deliciosa obra poética de Cecília Meireles, o livro Ou Isto Ou Aquilo, na peça teatral O Menino e o Burrinho . Segundo o grupo, o espetáculo surgiu da vontade de falar sobre escolhas. "Quando lembramos do livro entendemos que queríamos contar uma fábula de coragem", explica a diretora Bia Borin. "Cecília começou a escrever quando menina e não parou mais. É uma de nossas maiores poetisas e tinha uma preocupação profunda com as crianças". Trabalhar com poesias, dar-lhes forma no palco, foi um desafio para o grupo, que construiu o texto coletivamente.
Cincoincena é um núcleo da Cooperativa Paulista de Teatro, constituído há nove anos por ex-alunos da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e da Fac. de Artes Cênicas da ECA-USP. Dentre seus trabalhos, chama atenção um estudo coordenado com a atriz Bia Borin sobre Teatro de Rua, que resultou no auto de natal "A quem buscais?", apresentado em parques, em unidades do Sesc e do CEU, além de participação em mostras e festivais como o de Curitiba.
Conversei com as atrizes depois da peça de teatro e com Bia no dia seguinte, resultando no bate-papo a seguir:

Desabafo de Mãe: Escolher é muito difícil, diz o texto de divulgação do espetáculo. Como foi escolher as histórias de Ou isto ou aquilo para a peça? E por que este livro?

Cincoincena: Este é um livro que marcou nossas infâncias, ainda lembrávamos de várias das poesias da Cecília e então foi natural querer levá-las para o palco. Num primeiro momento, cada uma escolheu as poesias de que mais gostava. Depois, escolhemos como norte da nossa pesquisa dramatúrgica a poesia "O menino azul", porque ela trazia uma história sobre a dificuldade do menino de trilhar seu próprio caminho.

2. Transformar várias poesias, aparentemente desconexas, numa história uníssona é uma tarefa incrível. Que caminho vocês tomaram para escolher, por exemplo, a bailarina e o Chico Bolacha como companheiros de viagem do Menino Azul?

Cincoincena: Desenvolvemos a trajetória do nosso herói, o Menino Azul, e selecionamos poesias que traziam personagens que pudessem interferir nesta história. Para isso, estudamos textos de Aristóteles, Campbell e Christopher Vogler, que nos revelaram a estrutura da jornada do herói mitológico. O Chico Bolacha, por exemplo, representa o falso mentor; a Bailarina, por sua vez, representa o encontro com o amor e a possibilidade da jornada encontrar o seu fim.

3. Não assisti a outros espetáculos da companhia, como a Bicicleta do Condenado e Para ver com o coração. O que eles tem em comum com o Menino e o Burrinho? E com ao público infantil?

Cincoincena: "Para ver com o coração", de Nelson Albissú, era um espetáculo infantil e foi a primeira montagem do grupo voltada a esse público. Contava a história de uma menina que brincava no seu jardim com um amigo de outro mundo. "A Bicicleta do Condenado", de Fernando Arrabal, era uma peça para adultos. A história de um pianista que luta incessantemente para criar sua música também apresentava vários obstáculos. Portanto, o tema da jornada do herói é universal. A forma é que muda. No caso do Cincoincena, sempre procuramos conjugar dramaturgia às áreas da criação teatral. Um ponto importante em "O menino e o burrinho" é a relação com a trilha sonora, por exemplo. Os trechos de Villa-Lobos e Bela Bartók complementam as ações das personagens e ajudam a criar a atmosfera sugerida pelas poesias.

4. Notei que as crianças se encantaram com a sonoplastia sendo feita ali, à sua vista. É uma característica do trabalho de vocês? Que expectativas vocês tinham sobre a reação dos pequenos quando planejaram esta exposição?

Cincoincena: É uma característica desde o Auto de Natal, nosso trabalho com Teatro de Rua. Em "O Menino e o Burrinho", o Andarilho sobe no palco e inventa sons e histórias com o que encontra e carrega consigo. Observa o que está à sua volta, assim como faz a poesia de Cecília Meireles. Cria um universo mágico com objetos simples, assim como qualquer criança que encontra numa bacia um mundo de possibilidades imaginativas.

5. A criança deve ir ao teatro com os pais ou com a escola? Há diferenças nas apresentações para estes públicos? E quanto ao teatro de rua, como do no auto de natal "A quem buscais"? Como as crianças reagem no ambiente aberto?

Cincoincena: São experiências bem diferentes e importantes. Com a escola, existe uma liberdade diferenciada, que é a de mesclar-se a um grupo e ser não somente um indivíduo, mas parte de um todo. Torna-se necessário um pacto desse coletivo: se esse grupo não quiser que a peça aconteça, é fácil. Mas, geralmente, existe um respeito grande pelos atores e os espetáculos acontecem lindamente. Nesta vivência é importante frisar o papel do professor que, preferencialmente, prepara o aluno para assistir a peça, dando-lhe embasamento intelectual. O trabalho antes e depois do espetáculo aprofunda a relação com os temas abordados e com o papel cívico do Teatro.
A experiência da criança ir ao teatro com os pais viabiliza o aprofundamento dessa relação, pois ambos vivenciam o mesmo acontecimento. E existe também o fato dos pais levarem a criança a um evento social e, portanto, ensiná-los as "regras" sociais: como ir ao teatro? Onde estacionar? Dar dinheiro pro guardador de carros? Onde é a bilheteria? Quantos ingressos? Onde esperar? Onde eu jogo o saco de pipoca? Onde é a fila? Pais e filhos se divertem, mergulham no jogo, e saem do Teatro companheiros, marujos da mesma viagem.
Já no Teatro de Rua, existe o indivíduo, um coletivo e o espaço público. Na rua, todos os indivíduos são iguais. Executivos e mendigos ocupam o mesmo espaço e representam o mesmo papel: a platéia. Apresentamos, por exemplo, a peça "A quem buscais?" no Parque Villa Lobos. Era incrível como as crianças e adultos interagiam com o espetáculo, faziam silêncio e nos respeitavam. Todos, atores e público, estavam no mesmo jogo: por ser um espaço aberto, é difícil falar e escutar. Portanto, cada um fazia a sua parte. Quanto às interferências negativas, apenas não dávamos foco aos engraçadinhos e eles acabavam se cansando! Temos que nos fortalecer em cena com quem está atento e jogando junto!

6. A linguagem clownesca é o que aproxima Íris das crianças? Meu filho caçula ficou absolutamente encantado com a proximidade dela na fila, à espera do inicio do espetáculo. E o mais velho não foi embora sem uma conversa e um autógrafo. Como você sente que as crianças reagem a esta "intimidade"? É uma troca?

Cincoincena: A ligação não é direta, mas já trabalhei bastante com essa linguagem e percebo que a referência é inevitável. O palhaço deve estar sempre permeável e livre para interagir. O Andarilho passa por um teatro e resolve entrar para assistir ao espetáculo, o que ele quer é entrar na sala para ver uma peça pela primeira vez, o que vai fazer para conseguir vai depender do que acontecer na fila. A reação das crianças é que determina como ele precisa agir, às vezes ajudam ele a se esconder, vão junto com ele na bilheteria para tentar consegui um ingresso ou até mesmo dividem seu convite com ele. É uma troca direta e muito especial.

7. Notei que a Lívia tem experiência no ensino de teatro, com a AABB e nas escolas públicas. Qual a importância que você vê no ensino de teatro para crianças de diferentes classes sociais?

Cincoincena: Eu vejo importância no ensino de teatro para crianças de um modo geral. Criança embarca facilmente na viagem do teatro, usando a imaginação, usando todos os recursos disponíveis com a ajuda da criatividade. Mas, às vezes, é preciso lembrá-las que a regra é brincar, é inventar e não copiar um modelo pronto que seja "o certo". A influência da televisão e dos filmes de ação se faz muito presente hoje, independentemente da classe social: na linguagem, na estrutura das histórias, na estética mesmo. Então, procuro sempre encaminhar as aulas no rumo do que é realmente importante para elas, no que toca o cotidiano dessas crianças, do que está no imaginário, na cabeça e no coração delas, no que elas podem criar – em grupo e com propriedade. Elas podem descobrir que um guarda-chuva pode ser um remo mas, ao mesmo tempo, podem descobrir tanta coisa que nem tem a ver com o teatro!… Que a gente tem acesso a um montão de histórias se souber ler; que o pai ou a avó tem umas músicas bacanas para ensinar, se a gente quiser ouvir; que chegar a um acordo em grupo é difícil, mas, quando acontece, é muito legal; que a gente pode ver o mundo com olhos diferentes…tanta coisa!

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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