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Quando eu era criança, James Bond era realmente um símbolo mundial.

No auge da Guerra Fria e antes da Aids assustar, o espião inglês totalmente politicamente incorreto (ele desrespeitava leis o tempo todo, para falar apenas de um comportamento não recomendável) e pegava todas as mulheres que passavam pelo caminho.

infográfico criado pelo Economist comparou e compilou a média de pessoas mortas, mulheres conquistadas e martinis degustados pelo agente 007 ao longo da história:

infográfico criado pelo Economist comparou e compilou a média de pessoas mortas, mulheres conquistadas e martinis degustados pelo agente 007 ao longo da história.

Nos anos 1990 Bond começou a ficar “chato” justamente quando começaram a resolver parte dessas questões: ele ficou “monogâmico” durante os longas (em cada um, só uma aventura diferente) e reduziu seus erros, sendo até punido por alguns deles.

Mas era o herói de muitos e reforçava uma visão comum: a da mulher como simples elemento decorativo para os heróis, um estorvo para suas missões (lembram- se como Lois Lane faz Clark Kent perder tempo para enganá-la?) ou uma distração sensual usada como armadilha pelos inimigos.

Terri Hatcher foi Lois Lane e uma Bond Girl

Terri Hatcher foi Lois Lane e uma Bond Girl

 

Isso ficou no século XX e felizmente o novo Universo Marvel promete fazer pelas heroínas o que Merida (Valente) e Elsa (Frozen) fizeram pelas princesas: criar protagonismo sem necessidade de um par romântico lhes dando credibilidade no final da história.


Será? Infelizmente parece que não!

Numa entrevista para o Digital Spy sobre Vingadores: Era de Ultron, Jeremy Renner e Chris Evans são questionados exatamente sobre o perfil da companheira de equipe, a que Renner prontamente responde “Ela é uma Vadia”. O vídeo você pode ver aqui.

Tem mais.

Quem traduziu o assunto com muita propriedade nos comentários foi Rebeca Puig no blog Colant Sem Decote: 


A verdade é que esse tipo de comportamento reflete tão bem o universo dos quadrinhos e da representação feminina dentro e fora dele que a resposta de Renner e a reação de Chris Evans ao comentário do companheiro de filme não parecem fora de lugar.

A Marvel vem cada vez mais se preocupando com a representatividade dentro dos filmes e dos quadrinhos, e isso é muito legal. Como eu disse no review sobre Vingadores (e só leia se você já viu o filme porque tá cheio de spoilers), a movimentação é positiva mas ainda há muita coisa pra ser feita. Os comenetários dos atores, óbvio, não necessariamente refletem a política da empresa, mas quando você insiste tanto num clichê que reflete tão negativamente na mulher, não é assim tão estranho que seus “funcionários” caiam na bobeira de reproduzir ainda mais misoginia.

James Bond é garanhão, Viúva Negra é vadia.


Essa entrevista levanta uma outra bola, o do cúmplice/espectador. Quando alguém faz um comentário misógino, homofóbico, transfóbico ou racista ao seu lado e o seu primeiro reflexo é ficar quieto, talvez rir forçadamente junto, por medo ferir o orgulho do amigo ou de ser tachado de politicamente correto é completamente compreensível, mas ao mesmo tempo você está assumindo uma postura de silêncio frente a uma sociedade que está constantemente oprimindo e disseminando conceitos ultrapassados e prejudiciais. Não me pareceu que Chris estava reagindo por nervosismo, talvez por ter se dado conta da merda que o colega tinha dito. Mas fica aí um daqueles momentos perdidos em que o Capitão América podia ter levantado uma bandeira bem mais importante do que o orgulho do amigo.

Todo mundo pode cometer erros, ninguém é perfeito – eu sei disso. Mas esse tipo de comportamento é tão sintomático dentro de uma indústria que repetidamente tenta diminuir e desvalidar a participação feminina dentro dela. Espero, de verdade, que os dois atores venham com pedido de desculpas bem estruturados, sem tentar jogar a culpa em quem “viu maldade” e em quem se ofendeu. Só mais uma página nessa história chata que é a misoginia nos quadrinhos e no cinema. Perderam uma chance de, ou ficar calado, ou discutir um assunto realmente interessante.

[Atualização]

Chris Evans e Jeremy Renner soltaram pedidos de desculpas depois da repercussão da entrevista.

Chris disse:

“Ontem nos perguntaram sobre os rumores da Viúva Negra querer estar em um relacionamento com Gavião Arqueiro e o Capitão América. Nós respondemos de maneira infantil e ofensiva que justificadamente irritou alguns fãs. Me arrependo e sinceramente peço desculpas.”

Renner disse:

“Eu sinto muito que essa piada de mau gosto sobre um personagem ficcional ofendeu alguém. Não era para ser séria de maneira nenhuma. Apenas um pouco de diversão durante uma exaustiva e tediosa sessão de imprensa.”

O pedido de desculpas de Chris Evans me parece muito mais sincero do que o de Renner, que faz questão de lembrar aos ofendidos que a Viúva Negra é uma personagem ficcional, como se isso diminuísse a ofensa. Não é perfeito, mas estão aí os pedidos de desculpas. 

[Fim da Atualização]

Nas minhas redes sociais foi outro vídeo que viralizou:

Scarlett Johansson e Mark Ruffalo protagonizaram uma entrevista engraçadinha para alertar sobre o frequente machismo que atrizes sofrem com perguntas da imprensa. A brincadeira aconteceu poucos meses após a campanha #AskHerMore, reforçada no último Oscar pela atriz Reese Witherspoon, com o objetivo de estimular perguntas para as atrizes cujos temas não sejam apenas vestidos e dietas. Falta instruir os coleguinhas jornalistas para reinventarem também as perguntas que fazem para os homens e não sexualizarem todas as questões  relacionadas às colegas atrizes.

Relembre: no lançamento do primeiro filme da série Vingadores, Scarlett (a única mulher entre meia dúzia de super-heróis) sentou ao lado de Robert Downey Jr. em uma coletiva de imprensa. Uma repórter levantou a mão e perguntou a Downey Jr. o que ele tinha aprendido com seu personagem. De Scarlett, a mesma repórter quis saber apenas se ela tinha feito dieta para caber no figurino. Recebeu outra pergunta como resposta: “Por que ele fica com as perguntas interessantes e eu tenho que falar sobre, sei lá, comida de coelho?”.

Está faltando mulher em Hollywood?

O episódio é sintomático: são poucas as mulheres que conseguem papéis de destaque no cinema, e menos ainda as que conseguem papéis que fujam do estereótipo “jovem e sexy”, como prova um levantamento feito recentemente em Hollywood.

 

I'm so proud of these new girls! 🙂 Lembram-se do texto da semana passada sobre o imbroglio envolvendo a Viúva Negra,…

Posted by Sam Shiraishi on Terça, 28 de abril de 2015

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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