Pão e circo no caso Isabella

854540_-handprint.jpgNem ia tocar neste tema aqui, apesar de ter sido a história da semana na mídia, como bem escreveu Najda: o caso de Isabella Nardoni, vítima de um crime ainda sem explicação plausível e que, por isso mesmo, foi explorado ao extremo pela mídia. Tudo no crime assusta: a pouca idade da mãe (23), do pai (29, já com 3 filhos), da madrasta (24), a sucessão de histórias mal-contadas, a decisão da polícia de assumir suas dúvidas sobre a história (que deveria ser sigilosa, para evitar pré-julgamentos, mas serve para trampolim e promove imagens pessoais de muitos envolvidos na repercussão) e a impossibilidade de se conter uma comoção coletiva em casos como este. Quem lembrou do menino João Hélio? Eu lembrei imediatamente e pensei na família, que conseguiu me surpreender dia a dia com atitudes como a de liberar imagens da menina via orkut.

Estudante de comunicação, Nadja, no blog Quase Tudo, relembrou a gravidade dos julgamentos precipitados que a mídia tem feito e nos faz pensar no quão importante é termos uma postura isenta diante dos casos.

Lembram do caso da escola Base em São Paulo?Em que a mídia julgou previamente o fato, e depois da descoberta da inocência dos seus diretores, nenhum deles tem uma vida normal hoje. E o pior é uma ferida que a própria mídia não curou, e não aprendeu.(A mídia no caso Isabela)

A comparação com a Escola-Base foi feita em dois textos que o Observatório de Imprensa destacou: A leviandade também é crime (de Clovis Rossi na Folha de S. Paulo) e O caso Isabella Nardoni é uma nova Escola Base (de Luiz Antonio Magalhães, no Diário de S. Paulo).

Ruth de Aquino, redatora-chefe da revista Época, levanta o mesmo caso (e como não?) na sua coluna Nossa Antena, comentando como o Brasil esqueceu da dengue, do dossiê contra Dilma e de tudo o mais para vasculhar o orkut da família da vítima.

O sorriso de Isabella, os olhos castanhos de Isabella, as fotos no Orkut de Isabella abraçada à mãe e no colo do pai, o corpo de Isabella com marcas de asfixia, as cartas de despedida a Isabella escritas pelo pai e pela madrasta em papel com coraçãozinho. Só mesmo um crime pavoroso de classe média para derrubar das manchetes Lula e os fantasmas que rondam o país: o terceiro mandato, a farra dos sindicatos entregues a Deus e a ministra que sonhava ser dama de ferro, mas derrete no primeiro escândalo chinfrim. Dilma quem?
A morte covarde da menina de 5 anos, arremessada como um traste inútil pelo buraco tosco recortado na tela, hipnotizou o Brasil. Depois de assistir, na televisão, a mais detalhes sobre o crime, Brasília fica parecendo cenário de Casseta & Planeta, uma capital desconectada da realidade. (Um corpo que cai)

Como a sociedade pode mudar tão radicalmente de foco? Pão e circo, infelizmente, o povo reage com paixão e a miséria alheia serve como cortina de fumaça para os problemas da nação. Não minimizo a gravidade do caso, nem tampouco deixo de entender a curiosidade acerca do trabalho da polícia forense neste caso, mas não estamos vendo o filme Gladiador ou um episiódio do CSI.

Max reverberou o tema ontem no Nossa Via, levantando o ponto que devemos focar e que eu lembro bem de outros casos. Lembram da morte do Senna? Eu estava na faculdade e lembro bem das discussões na aula de sociologia da comunicação. Quantas vezes mataram Airton naquele ano? Quantas vezes o faremos com Isabella?

A espetacularização da violência, o julgamento em praça pública, os desvarios de uma mídia que faz tudo pela audiência têm que acabar. Temos que entender que a mídia influi na consciência da população e que isso, em minha opinião, até agora tem sido feito de uma maneira bastante equivocada! (Basta de espetacularização do sofrimento alheio!)
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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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