cidadania / educação / social good

Duas notícias sobre inclusão social me chamaram a atenção nesta semana. Não são furos não, coisas de uma semana atrás na revista semanal que assino e nem sempre consigo ler na semana certa! , Tenho notado muitas notícias na mídia sobre a casa própria, que, segundo Silvio Santos detectou no seu finado “Show do Milhão”, é o maior sonho do brasileiro comum… tá bom, ninguém precisa ser o Patrão para saber disto, muito menos eu, que, após ralar no Japão para ter a minha moradia, vendi-a em Curitiba e agora estou na luta por ter uma na maior cidade do Brasil. Um programa de urbanização em Belo Horizonte chamado Vila Viva me chamou atenção: lá não se pretende mudar a população de lugar, mas sim urbanizar (sim, traçar ruas, dar esgoto, etc) a própria favela. O sistema me lembrou o Cingapura aqui de São Paulo sobre o qual não sei muito a fundo, mas que na aparência me faz pensar que consiste na construção de edifícios simples no lugar onde estavam favelas. Daí o fato de os vermos em vários locais inusitados da Capital.

Como jovem repórter que ainda cobria Geral em Curitiba, acompanhei a “limpeza da cidade” feita pelo prefeito Rafael Grecca (sim, o que disse na Veja que até cemitério lá tinha que ser bonito) e lembro nitidamente de como foi feito. Os moradores de favela eram convidados a se retirar, com prazo marcado, e a policia militar os “ajudava” a retirar os pertences e desmontar os barracos, “conduzindo-os” com tudo a um novo bairro (Bairro Novo, no qual a palavra longe é um eufemismo exacerbado), onde ganhavam uma quantidade de lona para se estabelecer no novo terreno sobre o qual finalmente teriam uma escritura! Isto em pleno inverno de Curitiba, diga-se de passagem. Esta gente era gente como nós, mesmo na iminência da saída me ofereciam café em suas casas (sim, passamos por várias saias justas na vida) e procuravam sobreviver a tudo isto.

As diferenças do projeto curitibano de 12 anos atrás e da atual em BH é que hoje se pensa mais no social e, talvez, que o PT, que já foi muito envolvido e motivado neste movimento nacional pela moradia, seja prefeitura em BH há vários anos. O social não é só manter a pessoa perto de suas raízes (na favela mineira tinha uma senhora que há 40 anos mroava e criava cabras em plena cidade) e de seu emprego, mas também oferecer estrutura para as pessoas viverem e trabalharem. Em Curitiba o prefeito fez furor na época ao dar o nome de sua avó para a creche que abrigaria 40 crianças (num bairro onde se estabeleceriam cerca de 10 mil familias). Em BH, como a população local participava das decisões, uma das exigências foi a construção de três escolas de educação infantil, além das quadras de esportes e parques, que, como comprovam projetos na Mangueira e na Bahia, ajudam muito a tirar as crianças da linha do crime. Ter onde e com quem deixar as crianças seguras para trabalhar tem que ser um dos pilares para a inclusão social. Posso estar voltando à minha visão de mundo feminina e maternal, mas é um fato: criança sem escola, sem apoio, é um candidato ao submundo, ao crime.

Por falar em crime, remeti-me ao medo que temos dele na outra reportagem que me chamou atenção. Falava de David Cavallo, americano radicado na Bahia que coordena no Brasil o projeto One Laptop Per Child (OLPC), que pretende vender PCS especiais por cerca de 100 dólares para educação em lugares pobres. Cavallo diz que o interesse por nosso país veio do estudo de textos do educador Paulo Freire e que ele acredita que a informática ajuda a colocar em prática a pedagogia crítica de Freire, de ensinar a partir da realidade dos alunos. Na hora, ao ler que o projeto consiste em disponibilizar os computadores para que os alunos os levem para casa e possam continuar os estudos lá, com conexão sem fio e interface com os computadores de colegas, o crime organizado me veio à mente e temi. Num país em que os presos cariocas usam celulares para simular seqüestros em São Paulo e que apostam suas fotos fazendo churrasco no grill George Foreman dentro da cela na cadeia, como podemos confiar que o uso do computador em casa será para as crianças estudarem? São vários fatores que fazem as crianças não conseguirem avançar no nosso país, não apenas a falta de acesso ao computador, mesmo que eu a considere importante.

Mas não é tudo, há outros pré-requisitos para este acesso ser válido. Vivo uma experiência aqui com o filho da empregada doméstica que retrata bem o caso: separada do pai do menino, ela trabalha em vários locais, ficando pouquíssimo com ele, que almoça só depois da escola e não tem incentivo para nada, mesmo tendo vários confortos como TV a cabo e, claro, um computador próprio. Mas como estuda em escola pública, que agora tem aprovação automática, tenha o aluno aprendido ou não, o garoto aos nove anos não sabe ler o suficiente. De que adianta um computador se ele não vai ler o que tem nele? Enfim, eu e uma vizinha, uma senhora de 70 anos e com visão muito critica da sociedade, estamos fazendo um reforço com ele, ela dando aulas, eu emprestando livros para a mãe ler com ele em casa. Ainda acredito, como o fazem alguns críticos do OLPC no Brasil, que é preciso mais consistência pedagógica num plano de inclusão do que meramente oferecer um computador, é preciso ensinar a usar e pensar nas informações que ele pode nos oferecer.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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