entretenimento

 

hotel-ruanda.jpg

Alguns filmes, bem como faces de nossa realidade mundial, a gente evita ver. Se compadece ao ouvir falar, mas, digo com franqueza sobre mim, não encaramos. Parece-nos que não encarar a imagem mudaria a realidade. Em alguns momentos eu ajo assim. Não sou como minha amiga Aline, que consegue viver focando só o positivo, mas noto em mim uma tendência, especialmente depois que me tornei mãe, de evitar os confrontos emocionais de notícias e imagens duras. Claro, vejo telejornal (ao acordar e ao deitar) e acompanho notícias na mídia, não fujo da realidade. Mas evitei por meses um filme que sabia que era bom, mas não sentia que conseguiria acompanhar até o fim: Hotel Ruanda.

Já indiquei outros filmes de guerra na África aqui e é mais fácil falar de um personagem fictício criado por Leonardo di Caprio do que citar um homem real como Paul Rusesabagina, um gerente de hotel de luxo que salvou a 1268 pessoas durante o genocídio de Ruanda em 1994. Vale a pena ver para nos sentirmos mais capazes de solidariedade e misericórdia com o próximo.

Eu lembrava deste momento da história da humanidade como da limpeza étnica semelhante que ocorreu na Iugoslávia. Os mais jovens nem devem saber direito, mas era o nome de um país que hoje chamamos de Bósnia-Herzegovina, da Sérvia, de Montenegro, da República da Macedônia e a maior parte da Eslovênia e da Croácia. Os conflitos da ex-Iugoslávia e de Ruanda eram-me tema de leitura da Folha de S. Paulo, que lia avidamente quando estudante de jornalismo para entender o mundo que mudava rápido, deixando para trás as certezas geográficas e ideológicas que fizeram parte de minha formação. Lembro-me que diariamente, no caderno Mundo, havia mais notícias desoladoras dos tutsis e hutus. A história é a das diferenças irrisórias entre etnias que só se confirmam com exatidão nos documentos, de tão sutis e irelevantes, mas que no fundo são prova da desigualdade de oportunidades e da capacidade de um ou outro grupo estar mais próximo do poder. Os tutsis sempre foram mais próximos do poder dos colonizadores belgas e um dia os hutus reagiram e daí surgiu uma revolta popular com requintes de crueldade que nem um filme hollywoodiano consegue retratar.

O que se fala en passent mas não fica claro no filme é que, como em outras guerras do gênero, o genocídio foi parcialmente financiado com o dinheiro de programas de ajuda internacionais. Estima-se que 134 milhões de dólares foram gastos na preparação do genocídio em Ruanda – uma das nações mais pobres da terra – com 4,6 milhões de dólares gastos somente em facões, enxadas, machados, lâminas e martelos. Seria o equivalente à distribuição de um novo facão a cada três varões Hutus, resultando na morte de 4/5 da população tutsi, cerca de um milhão de pessoas. Não é um número expressivo o suficiente para que ouçamos sua história?

P.S. Don Cheadle, que interpretou Paul no filme, atuou também em Crash, que discute igualmente dificuldades de convívio étnico, só que no contexto de uma cidade norte-americana.

[update em 2018]

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas