Homens invisíveis: retratos de uma humilhação social

Hoje pela manhã via uma reportagem sobre o TEDxRio e a Rio+20 (assunto do mês, queiramos ou não) e navegava ao mesmo tempo. Na hora em que ouvi a frase “hoje precisamos cuidar do desperdício de energia humana”, vi também esta imagem que incorporo acima e pensei no quanto precisamos cuidar da vida humana.

Na hora a imagem me lembrou um post que publiquei aqui, sobre o filme Quem se importa.,. no qual narrei uma situação que vivi e que pode ter acontecido também com você que me lê e retrata o desperdício de vida, levando-nos a uma reflexão sobre a correria do cotidiano e os valores que damos para as coisas e as pessoas ao nosso redor.

Posto novamente o trecho abaixo (e sim, estou me citando, mas porque a história merece ser relembrada, me perdoem pela egotrip, ok?):

“No domingo, 01/04, eu estava no aeroporto de Fortaleza esperando o embarque para São Paulo. Passei dias lindos por lá com a família e naquele dia tínhamos visitado um parque aquático incrível, muito distante do centro da cidade e bastante elitista.
Passei no banheiro antes de embarcar e me deparei com uma senhora com semblante bem cansado e olhar desanimado que fazia a limpeza das pias. Cumprimentei-a, como é natural quando a gente entra num lugar e encontra alguém, mas ela não me respondeu. Tudo bem, pensei. Em seguida, quando fui lavar as mãos, pedi licença e desculpas por atrapalhar o trabalho dela e notei uma imensa surpresa em seu olhar quando percebeu que, de fato, eu falava com ela.
Viajei para casa com o coração ligado naquela senhora. Pensei no quanto ela parecia crer que quem passa lá, na correria das idas e vindas de avião, não se importa em lhe dirigir uma palavra, um olhar, uma atenção. Conversando com minha família sobre o passeio daquele dia, pensei no quanto aquele parque, mesmo sendo na terra dela, era quase inatingível para sua realidade financeira e como era injusto que alguns pudessem aproveitar a beleza da sua terra enquanto que ela vivia uma vida de servidão.
Talvez esta servidão, as desigualdades sociais e culturais sejam questões fora do nosso alcance individual resolver, mas se importar com o outro, lhe dirigir uma palavra educada (quiçá gentil) e sorrir para o rosto cansado que lhe atende, isso está ao nosso alcance e é um exercício que devemos fazer todos os dias.

Quando escrevi sobre o caso do aeroporto de Fortaleza eu pensava acima de tudo na invisibilidade de certas pessoas. Por isso o trecho de “Homens invisíveis: retratos de uma humilhação social” me chamou atenção e caiu como uma luva. Quando escrevi não conhecia esta obra, mas vai ao encontro do meu pensamento e das minhas reflexões. Vou procurar o livro para ler.

Descobri, numa busca, que Fernando Braga da Costa (o autor do livro, que é doutor em Psicologia), publicou a obra contando dos seus dias de trabalho voluntário entre os garis da USP. As histórias de vergonha, humilhação, invisibilidade, marcaram profundamente outro escritor e foram a inspiração primordial para o romance Cria da casa: Histórias de empregadas & escravos, de Alex Castro.

Este título, por sua vez, me lembrou a excelente crítica social por trás da divertida novela das empreguetes, Cheias de Charme, que tenho assistido sempre que posso, bem como a discussão social que permeia parte da trama do subúrbio e do lixão de Avenida Brasil, outra novela que está nas TVs atualmente e que vi por conselho de dois amigos jornalistas – Alexandre Inagaki e Renato Guimarães. Ambas nos fazem pensar e rever aquele debate que Caco Barcellos trouxe à tona, há uma década, quando lançou O Abusado e nos fez ver que levar “a realidade do morro para o asfalto” é inevitável sim, assim como levar “a realidade da Zona Sul para o barraco” porque somos pessoas e ao interagir levamos e trazemos coisas, mesmo que em silêncio, mesmo que sem falar abertamente.

Fica o convite para reflexão neste dia: por quantos silêncios e rostos baixos você passou hoje? E o que fez ao encará-los?

 

Posts relacionados:

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook