Os baby boomers e a gerontolescência

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“Envelhecer não é mais o que era antes graças aos baby boomers, que estão transformando esse período e vivendo de forma diferente das gerações anteriores”. Quem afirma isso é uma das maiores autoridades em envelhecimento do mundo, o médico brasileiro Alexandre Kalache. Há cerca de 40 anos, ele adotou o tema do envelhecimento para sua tese de mestrado e nunca mais deixou de pensar no assunto. Tornou-se o primeiro Presidente do Centro Internacional Longevidade Brasil, e é Embaixador Global do HelpAge International para estudos do envelhecimento. Foi Diretor do Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o fundador da Unidade de Epidemiologia do Envelhecimento na London School of Hygiene and Tropical Medicine.

Em entrevista à BBC Brasil, que repercutiu em vários veículos, ele disse que o brasileiro terá que trabalhar mais tempo “quer goste ou não”, acima de tudo porque terá uma vida mais longa. Mas a boa notícia, afirma, é que a chegada à velhice da geração do pós-guerra cria uma nova construção social, o que chamou de gerontolescência.

“A gente tem que se preparar para uma vida muito mais longa e pensar no processo de morte, porque no Brasil três quartos das mortes são de pessoas idosas e por doenças crônicas, inclusive aquelas arrastadas que causam sofrimento e despesas. Então é preciso tentar assegurar qualidade de vida até o final.”

Num ano em que a minha geração é exatamente a idade do corte da controversa Reforma da Previdência, a perspectiva da velhice assombra.

Eu nunca fiz previdência privada. Ao invés disso, tive filhos. Eles me custaram (e ainda custam) bem mais do que o valor economizado mensalmente por quem não tem filhos e pode se dar ao luxo deste cuidado com o futuro. Daí eu faço piada, dizendo que com 3 filhos, de fome ou sem teto eu não morro, né?

Mas, na verdade, quem saberá?

A minha geração é daquelas que viverá muito mais do que seus avós e pais. A gente não tem nem parâmetros para saber como será nosso futuro.

E essa é uma realidade que deve ser levada em conta especialmente no Brasil, que envelhece a passos largos. Estimativas da Organização das Nações Unidas apontam que até 2050 o Brasil terá 64 milhões de idosos – ou 30% da população, em comparação aos atuais 12%. Em 2001 esse total era de apenas 9%. Em menos tempo – em 2025 – o país deverá ocupar o sexto lugar em número de idosos no mundo.

Além de estar envelhecendo rapidamente, o Brasil percorre esse caminho em um padrão sem precedentes.

“Estamos envelhecendo com uma grande parcela da população em pobreza. É um desafio grande porque não temos precedentes, modelos. Nenhum país até hoje envelheceu sem ser rico. E estamos envelhecendo rápido e ao mesmo tempo sem recursos para políticas sociais e de saúde que possam responder a uma população já muito envelhecida, como seremos em três décadas.”

Alexandre Kalache critica o “luxo” do nosso sistema previdenciário atual.

“Vai ter que trabalhar mais tempo? Eu acho que sim. Um país como o Brasil que se dá ao luxo de ter a aposentadoria média aos 54 anos é um país inviável. Não existe nenhum país que tenha conseguido por muito tempo manter tanta gente aposentada, sobretudo porque a base da pirâmide, que são os jovens, está diminuindo. Então, a gente goste ou não, vamos ter que nos preparar para uma vida laboral mais longa. E já que vai ter que trabalhar mais tempo, vamos trabalhar para ter projetos e para ser estimulante.”

Segundo ele, será necessário pensar em uma política pró-natalidade para equilibrar a pirâmide social, ou seja, ter uma proporção menos desigual de jovens e idosos no país, e ainda garantir um envelhecimento melhor aos mais velhos. Ele afirma que, para isso, são necessários quatro capitais fundamentais: saúde, conhecimento para não se tornar obsoleto (o manter-se antenado), bem-estar financeiro e bem-estar social (ou o “capricho nas relações para ter para a quem recorrer quando o negócio apertar”).

“A gente sabe que a pensãozinha só no fim da vida não vai dar conta. Aproveite para fazer suas economias porque, no final da vida, a gente precisa de mais renda e mais dinheiro, e não de menos.”

Para ele, o envelhecimento deve ser um processo ativo. “As pessoas precisam refletir sobre o assunto o mais cedo possível. Afinal, ficamos mais velhos desde o momento em que nascemos. Muita gente se dá conta de que envelheceu só quando se aposenta. E aí o choque é inevitável. Se a vida for planejada para evitar mudanças tão bruscas quanto parar totalmente de trabalhar ou de deixar de ganhar um bom salário para se contentar com a aposentadoria, o processo de envelhecimento é menos dolorido.

Como eu gosto de ir além, fui buscar alguns vídeos do especialista e salvei aqui muita coisa boa para quem quiser pensar comigo!

Existe hoje um novo marco politico do envelhecimento ativo. Estamos preparados individualmente e socialmente para a velhice? Segundo o médico Alexandre Kalache, a velhice pode ser maravilhosa, uma vez que já não temos mais as pressões de construir uma carreira, criar filhos, dar conta de mil tarefas e demandas… Desde que você tenha boa saúde, renda suficiente, conhecimentos, apoio familiar e amigos, o tal do capital social. Mas pode também ser uma etapa da vida com solidão, sofrimento, inseguranças. Portanto, é fundamental se sentir protegido e amparado. Mas no Brasil a prevenção deixa a desejar. Segundo Kalache, é necessário o desenvolvimento de uma cultura do cuidado, pois estamos sofrendo uma “síndrome da insuficiência familiar” e precisamos melhorar nossas relações intergeracionais.

O que vocês estarão fazendo na noite em que completarem 85 anos?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.