Filhocentrismo, como lidar com essa nova realidade?

“”Chegamos a uma situação-limite. Está na hora de os pais recuperarem sua auto-estima e sua autoridade”
Tânia Zagury

Como é no seu lar? Eu me pergunto muito isso e me policio muito para não ultrapassar a linha (tênue) que separa os direitos dos pais e dos filhos no lar. Desde que tive contato com o livro Os Direitos dos Pais – Construindo Cidadãos em Tempos de Crise (Editora Record), no qual a educadora Tânia Zagury que defendia que práticas que andavam esquecidas na educação dos filhos sejam resgatadas, em nome do futuro do próprio jovem – e da sociedade, eu me cuido para que meus filhos não sejam os reis da casa.

Felizmente meu esposo é “old school” (das antigas) e sempre se posicionou como o pai e não amigo ou “escravo” dos filhos, o que deu às crianças a segurança de receberem amor e cuidados com limites. Mas não é sempre assim e frequentemente eu vejo famílias nas quais os pais, por conta de sua sobrecarga de trabalho ou mesmo de suas ansiedades pessoais que se projetam nos filhos, vivem quase todas as situções pensando neles e, pior, focando as ações nos filhos – e muito pouco em si. Exemplos são fáceis de achar: a mãe vai ao shopping trocar um vestido e não ousa voltar para casa sem um brinquedo novo para o filho; o pai que sacrifica a evolução da própria carreira mas não deixa de pagar todas as aulas extras para o filho. E ambos reclamam no Twitter sobre o filme infantil que vão ver no lugar na novela, sobre a repetição dos mesmos programas que reinam no canal infantil dia e noite, convivem resignados com brinquedos espalhados em todos os cômodos do lar, não planejam programas nos finais de semana que não sejam absolutamente do interesse das crianças.

Sobre estes pais li há um tempo um artigo muito lúcido do advogado Edgar Flexa Ribeiro que dizia

“Quando a criança passa a ser a única razão de ser do casal e atender o pequerrucho sempre, sem limites, passa a ser uma fixação, estamos lidando com algo muito diferente. Não se está propondo que pais abandonem os filhos, ou seja, que esqueçam que lá em casa tem alguém que precisa de atenção. De forma alguma. Quer-se aqui apenas sugerir aos pais que mantenham uma vida própria e zelem por ela. Até para que seus filhos saibam fazer o mesmo quando chegar a hora deles.

O que ele nos lembra é que, em alguma hora esta criança vai crescer e precisar conviver no mundo – sem a gente para fazer as vontades dele e também sem que o mundo gire ao seu redor como a Terra em torno do Sol. Precisamos nos policiar para que nossos filhos saibam conviver com o fato de não serem sempre as estrelas, para serem também coadjuvantes, transeuntes, enfim, partes da engrenagem em algumas situações.

Há alguns meses, nos bastidores de um programa de TV, conversei com a psicanalista Sheila Skitnevsky-Finger (doutora em Psicologia pela Massachusetts School of Professional Psychology, em Boston, USA) e sócia fundadora do Instituto Mãe Pessoa sobre o que os especialistas chamam de uma deformação contemporânea, ou seja, o filhocentrismo – forma nova e pouco saudável de agir na educação de um filho.

Superprotetor? Sim, mas não só. Os filhocêntricos se anulam e se vêem incapazes de lidar com o dever de dizer não ao filho, de estabelecer limites, de sinalizar o espaço da criança a partir de seu próprio espaço de pais, pois incineram a própria identidade sob o pretexto de amar a criança desenfreadamente. Esses negam aos filhos sua própria imagem de pai. Também conspiram contra a construção da identidade dos filhos.

E, enfim, como lidar com essa nova realidade?

Foi num texto de Sheila Finger que achei um passo a passo incial muito interessante. Ela nos propõe seguir algumas estratégias possíveis no processo de educar que requer estar ativamente envolvido, sem perder de vista a preocupação consigo próprio, enquanto pessoa, e enquanto MODELO de pessoa para os filhos:

  • Olhar Bi-Focal – presente versus futuro: manter um olhar, uma perspectiva bi-focal, onde ora privilegia-se o presente, o aqui-e-agora, ora privilegia-se o futuro, o que virá, o que será.
  • Combinação de recursos: é preciso compreender e aceitar que para cada família haverá uma combinação possível e específica. O que é possível e desejável para alguns não o é para outros. Não existem fórmulas mágicas: para se alcançar uma combinação eficaz há que se levar em conta o contexto e os recursos de cada mãe, pai, da família, de cada sistema.
  • “Vida-bilidade”: criamos o conceito de “vida-bilidade”, ou seja, de pensar a viabilidade da vida de cada um ou grupo. Trata-se portanto de buscar maneiras de tornar a vida mais viável para si e para a família, incorporando os valores, os projetos, as aspirações, assim como a realidade e as limitações pessoais e familiares; enfim, maneiras de tornar sua vida mais viável, dentro da realidade de sua realidade. Para se criar vida-bilidade, algumas premissas se fazem necessárias, como: manter expectativas realistas; ser flexível e criativo; saber priorizar tarefas, interesses e objetivos; utilizar ajuda (delegar, sabendo identificar o quê e a quem); aprender a organizar e administrar as várias funções e os vários papéis; manter constante reavaliação do processo sobre o que está e o que não está funcionando; se divertir. Em suma, lembrar que sempre existe um leque de opções; portanto dentre este leque, tentar eleger o que poderá promover maior vida-bilidade.

Possível não é mesmo? E bom para todos – e, aqui entre nós, os pais atuais vivem uma divisão interior sobre o melhor modo de se posicionar quanto aos filhos. Uma ajuda para acertar o olhar para o futuro, combinar os recursos e fazer a vida ser viável não faz mal a ninguém!

🙂


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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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