Fica mais escuro antes do amanhecer

Há muito tempo, recursos como flashback e diversas histórias ocorrendo simultaneamente são utilizadas no cinema. Quando bem usados, podem ser o meio certo para cativar o público e conquistar seus objetivos. Entretanto, quando muito sutis e enigmáticos, podem gerar justamente o efeito inverso, confundindo por vezes o espectador e frequentemente deixando dúvidas ao final do filme. Este último caso é muito comum em “Fica mais escuro antes do amanhecer”, longa dirigido e protagonizado por Thiago Luciano.

A trama apresenta dois focos narrativos, ambos protagonizados por Iran, personagem interpretado pelo diretor. Ele vive com sua mulher em um vilarejo que passa por mudanças climáticas inexplicáveis ao longo do filme. Em um determinado momento, a cidade mergulha em uma “quase Era do gelo”, com temperaturas glaciais. Posteriormente, a vila passa por um longo período de calor extremo, quando os cidadãos praticamente enlouquecem sem ventiladores ou demais utensílios para refresco.

Iran trabalha na fábrica de gelo da região, algo simbólico durante as difíceis passagens climáticas. Durante a onda de calor, a cidade inteira corre para conseguir o gelo para se refrescar. As vendas sobem e o estoque se esgota. Por outro lado com a chegada da onda glacial, a fábrica chega praticamente a falir, visto que os habitantes da vila já tinham gelo gratuito no próprio quintal, proporcionado pela natureza.

Além dos conflitos climáticos, Iran também enfrenta dificuldades com sua esposa, depressiva desde a perda do filho. O que o filme busca mostrar é justamente a relação entre as abruptas mudanças climáticas com as tristezas e sentimentos do protagonista na relação com sua família. Entretanto, as constantes alternâncias entre passado e presente não são muito claras, de forma que se torna difícil para o público acompanhar e compreender a trama.

Apesar de a narrativa não fluir de modo ideal, vale a pena ressaltar outros elementos. A atuação do elenco consegue se manter em evidência ainda que com um roteiro um tanto confuso. Além disso, a fotografia em cada passagem diferente constitui uma boa construção para a narrativa. Por fim, a trilha sonora que acompanha o protagonista ao longo de seu sofrimento, consegue se encaixar dentro de cada situação, chegando a emocionar o público nos momentos mais importantes da obra.

 

Nota da editora: 

Foi a primeira que Lucy Ramos contracenou com o marido,  Thiago Luciano, diretor, produtor e roteirista do filme. Ela atuou como coprodutora e protagonizar um filme tem significado extra, pois no final do ano passado, Lucy foi convidada a participar da campanha #LugarDoNegro, organizada pelo Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Em entrevista, ela disse:

 “Quanto mais vermos os negros em posições boas, em comercias, capas de revistas, novelas e filmes é uma barreria a ser quebrada, até pra ajudar as pessoas que ainda não conseguem enxergar que o negro é um ser humano.”

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Daniel Benites

Estudante de jornalismo, amante eterno dá sétima arte, não passo uma semana sem frequentar às telas. Adoro viajar e ter novas experiências, toco em uma banda e espero um dia escrever um livro (ou vários).

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