Ferrugem: uma visão de quem tem a idade dos personagens

Recém-vencedor do Festival de Cinema de Gramado e forte candidato a representante brasileiro no Oscar 2019, o longa “Ferrugem” reflete uma série de características sociais e morais de sua própria sociedade.

Assistimos ao filme na Cabine de Imprensa seguida de Coletiva com o diretor Ale Curitiba e parte do elenco, exatamente na manhã após a premiação em Gramado e o jeito “pé no chão” do time mostra muito do jeito de fazer cinema – e e deles.

O filme foi dividido em duas partes e repetimos o mesmo padrão aqui, contando da experiência de assisti-lo sob o ponto de vista de uma pessoa da geração dos protagonistas, o estudante de jornalismo Daniel Ben, e outra da geração dos pais, Sam Shiraishi, editora do blog.

Parte 1: Uma visão de quem tem a idade dos personagens

Dividido em duas tramas completamente adversas, mas em torno do mesmo enredo, o filme começa com uma cena simbólica de uma excursão escolar a um aquário, remetendo a uma possível analogia com as cenas subsequentes: enquanto um peixe observa o mundo ao seu redor através dos vidros do aquário, os jovens estudantes também o observam através das telas de seus celulares.

Na sequência, é conduzida a primeira parte da história ao redor da personagem Tati (Tiffany Dopke), uma jovem que está entre seus quinze e dezesseis anos. Na noite da excursão, ela vive um “quase” romance com seu colega Renet (Giovanni de Lorenzi), um encontro que foi atrapalhado porque ela notou que o celular desapareceu e para tudo para procurar, numa busca que envolve toda turma. Eles não conseguem encontrar o aparelho e, dias depois, ao voltar à escola, Tati descobre que vídeos íntimos seus com seu antigo namorado (também do colégio) foram compartilhados com o grupo dos alunos whatsapp.

Não apenas arrasada pelo fato de sua privacidade ter sido exposta, a adolescente tem de lidar constantemente com o bullying de vários dos estudantes. O psicológico da personagem é trabalhado com naturalidade em um processo não apenas de ser separada de seu aparelho que a conectava às suas relações sociais, mas também com a permanente desconfiança que sente em relação aos colegas, pois qualquer um poderia ter roubado seu celular e compartilhado o vídeo.

Outro ponto interessante é o fato de o conteúdo do vídeo não ser mostrado em nenhum momento do filme, permitindo ao espectador liberdade para imaginar o que realmente ocorreu, além de deixar claro que o que havia sido filmado não estava em questão, mas sim a trapaça e as reações exageradas em relação ao seu comportamento.

A segunda parte do filme é focada na construção do personagem Renet, com pouca participação até então.

O contexto escolar é substituído pelo familiar e se passa em uma casa litorânea na qual o adolescente divide espaço com seu pai, irmã e primo (estudante na mesma turma que ele e Tati). É neste momento que certos problemas do então protagonista são esclarecidos ao espectador, como por exemplo os frequentes telefonemas da sua mãe na primeira parte do longa, bem como a recusa deste em atendê-los. Renet é um personagem muito instável ao longo da trama, podendo ser visto como vilão, vítima e até mesmo “herói” em diversos momentos. Ao mesmo tempo em que se isola socialmente tanto na escola como na família, sendo antipático e grosseiro com frequência, o personagem passa pelo processo de adaptação ao divórcio dos pais, convivência com seu primo inquieto e malicioso e, não bastasse, problemas comuns da adolescência, tais como romance e autodescoberta.

A escolha de cenários para esta segunda parte consegue representar um ambiente muito semelhante ao vivido pelos personagens, sobretudo pelo protagonista: fotografia cinzenta e até mesmo sombria certas vezes, constantes tempestades e a mudança representada pelas ondas do mar.

O filme aborda diversos temas atualmente em pauta na sociedade. Uso intensivo de celulares e acesso ilimitado nas redes sociais, problemas familiares, bullying, crises de consciência e escolhas entre o certo e errado, dentre muitos outros. Uma obra feita para gerar um bom debate em família, atraindo em seu formato vários dos públicos de seu contexto.

Agora a versão “tia”, em notas da editora: 

Ferrugem recebeu os prêmios de desenho de som, roteiro e melhor filme no Festival de Cinema de Gramado 2018 e estreou nos cinemas em 30 de agosto. O filme há tinha sido bem recebido e elogiado em festivais internacionais e, naturalmente, comparado com a série da Netflix 13 Reasons Why.

De certa forma, por conta do universo, há uma afinidade, mas o desenrolar do filme brasileiro é muito melhor. E  muito mais respeitoso com a menina, com quem vai assistir, mais consciente do que significa tratar de temas sensíveis, evitando explorar o que pode ser insinuado e focando no significado dos atos.
Muritiba mergulha no universo jovem para contar a história de Tati, uma adolescente cheia de vida, que gosta de compartilhar seus melhores momentos no Instagram e Facebook e que terá sua vida virada do avesso quando algo que ela não queria compartilhar com ninguém cai no grupo de whatsapp do colégio.

O primeiro longa de Aly Muritiba, Para Minha Amada Morta, já trazia a questão dos vídeos, do registro da vida, do que essas memórias digitais podem fazer na vida da gente.

O filme conta a história de Fernando. Um homem que cuida de seu filho único após a morte de sua esposa. Todas as noites ele arruma as coisas de sua amada morta, mas um dia ele encontra uma fita VHS que mudará tudo.

Na coletiva, ele contou como passou de um para outro filme, mantendo-se fiel a uma ideia que completará com um terceiro longa:

“Depois de realizar meu primeiro filme, Para Minha Amada Morta, que fala sobre luto e de como imagens registradas através de uma câmera VHS podem ter certas consequências na vida de quem a assiste, decidi que o meu próximo filme seguiria investigando estes temas, mas agora centrando a história no mundo adolescente. Como realizador que já foi professor de ensino médio e que é pai de um adolescente, me pus a pensar acerca das redes sociais. Um comunidade do prazer e da felicidade baseada nas aparências, um universo habitado por autoimagens e promessas de prazer eterno, e de como isto acaba submetendo a todos, mas aos jovens em especial, a uma superexposição que gera confusão de limites entre as esferas públicas e privadas que muitas vezes pode ser fatal. Foi este o ponto de partida para a escrita de ‘Ferrugem’, uma história sobre medo, insegurança, crescimento e misoginia.” 
Após fazer sua estreia mundial na mostra competitiva World Cinema, do Festival de Sundance 2018 e ser exibido em diversos festivais ao redor do mundo como o 20th Taipei Film Festival (Taiwan), o 20th SEOUL International Women’s Film Festival (Coreia do Sul), o 48th Edition of the Giffoni Film Festival (Itália). Neste mês, Ferrugem será exibido no San Sebastian International Film Festival na Espanha, dentro da programação da mostra competitiva Horizontes Latinos ao lado de outras grandes produções.
Por fazer catálogo da Globo Filmes, Ferrugem estará na TV em poucos meses, provavelmente nas férias de verão. Mas eu indicaria que todos que têm adolescentes na família ou atuam com jovens assistam no cinema, para terem o impacto da telona e da imersão no roteiro de Aly Muritiba e Jessica Candal. O filme tem produção executiva de Christiane Spode, Antônio Junior e Ana Catarina, com Fernando Meirelles e Guel Arraes como produtores associados. E o elenco, boa parte jovem – Giovanni de Lorenzi (Renet), Pedro Inoue (Normal), Tiffanny Dopke (Tati), Dudah Azevedo (Renata) – com os “adultos” – Clarissa Kiste (Raquel), Enrique Diaz (Davi) – amarrando a história, mas sem deixar de agir como os coadjuvantes da vida dos jovens. É isso, afinal, que somos para os nossos filhos depois que eles chegam a adolescência!
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Daniel Benites

Estudante de jornalismo, amante eterno dá sétima arte, não passo uma semana sem frequentar às telas. Adoro viajar e ter novas experiências, toco em uma banda e espero um dia escrever um livro (ou vários).

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