destaque / entretenimento

Dê uma chance a Jackie. Eu não ia ver, algumas amigas minhas não gostaram. Mas acabei me encantando com o trabalho da Natalie Portman e com toda a reconstituição dos dias que se sucederam ao assassinato do presidente norte-americano John F.Kenneddy.

Não é uma cinebiografia da ex primeira-dama: eu continuei sem saber como ela foi parar na Casa Branca, não há análises do panorama político, não se esclarece quem Jacqueline se tornou depois daquele 22 de novembro de 1963, não fala do casamento com Onassis. O foco está na preparação para o funeral de JFK, numa investigação entre sua dor particular de viúva e a dor que mostraria publicamente ao mundo.

jackie_cartaz

 

E é aí que a escolha da atriz é crucial: Natalie consegue mimetizar-se em Jackie por meio de uma construção apurada de corpo, voz e figurinos. Mas vai além: consegue dar credibilidade a momentos intensos que não estão registrados em foto ou em vídeo. Aqueles momentos que nunca paramos pra pensar se (e como) aconteceram. A cena do atentado pode ser vista inúmeras vezes, de um ponto de vista externo; mas como a cena se deu, de perto, a partir do lugar de Jackie? Podemos acompanhar o choque, o susto, os medos que a atravessaram — não a primeira-dama, mas a mulher de 34 anos. O sangue… ela precisou lavar o sangue do rosto, dentro do banheiro do avião que a tirou de Dallas. Como contar aos filhos pequenos sobre a morte do pai? Que cicatrizes aquela mulher levava anteriormente?

Dirigido pelo chileno Pablo Larraín, o filme usa do recurso de uma entrevista a um jornalista (que Jackie efetivamente concedeu), e das conversas com um padre, para fazer a personagem central mostrar (ou não) o quão consciente estava de suas decisões e de seu papel em toda a mise-en-scène daqueles 4 dias.

Se tem uma coisa que o filme deixa claro é como Jackie sabia da importância dos últimos registros do presidente e de sua família, da imagem que seria imortalizada pelas tevês, pelos jornais. Existe a cena de um tour pela Casa Branca, no qual Jackie fala sobre a reforma que empreendeu lá, e de sua percepção sobre a preservação do passado, sobre as ideias que os objetos carregam (muitas vezes, mais longevos que uma vida humana) e a mensagem que transmitem, sobre a valorização do belo. Essas imagens estão disponíveis em arquivos no youtube, mas achei uma montagem que coloca, paralelamente, o tour real e o cinematográfico. Vejam que interessante:

Talvez seja empolgação de atriz, visto que sei o quanto é difícil empreender essa mímese, no teatro ou no cinema. Aviso também que achei o roteiro, por vezes, repetitivo, perdendo o ritmo. Mas é incrível quando torna a ganhar força nos momentos em que acompanha Jacqueline bem de perto, em closes que colocam a mulher no centro da cena – e, não mais, atrás do grande homem (!).

Nesses momentos, pelos olhos de Natalie Portman, a gente se pergunta o que a personagem está pensando, querendo, duvidando. Não terminei apaixonada pela Jackie histórica (ou seu senso estético apurado, suas realizações), mas pela forma como interpretamos nossa história – no espaço de uma vida, ou na trajetória de uma nação. É um aproach menos catártico, mas que ficou reverberando por alguns dias no meu pensamento…

Nota da Editora: o filme está disponível na Netflix 😉

The following two tabs change content below.

Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas