Fazer o bem e olhar a quem! #gife2014 (por @AnaMariaCoelho)

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Depois de uma manhã de pura inspiração no 8º Congresso GIFE – Por um investimento social transformador, aceitei o convite à reflexão sobre a capacidade transformadora do investimento social privado. Seriam as empresas mocinhas ou bandidas no processo de criação de uma nova sociedade? Quais as características de empresas numa sociedade sustentável? Como o investimento social pode apoiar o desenvolvimento de empresas com novos valores? De que forma os negócios de impacto se relacionam e complementam as ações de investimento social?

Uau… Quantas perguntas… Quanta reflexão!

A amplitude do atual contexto econômico e político, a organização da sociedade civil e a capacidade da geração de valor pelas empresas trazem para as perspectivas de responsabilidade social empresarial e de investimento social privado o desafio de romper com o isolamento e pensar em novas estratégias que fortaleçam a competitividade empresarial, a atuação social, e por que não, a contribuição às políticas públicas.

Se antes entendia-se que com o pagamento de impostos, salários de funcionários em dia e campanhas de doações uma vez ao ano a empresa cumpria seu papel social, atualmente esperamos que uma boa gestão contemple a análise dos impactos de suas atividades e a forma pró-ativa de suas ações na reversão e na prevenção desses impactos. Quando uma empresa produz bens e serviços de forma socialmente responsável, diz-se que ela possui mecanismos de gestão de responsabilidade social empresarial. Já quando decide investir em ações sociais de outras empresas, ou em organizações não governamentais, seus esforços são focalizados por meio de investimento social privado. Melhor? Pior? Filantropia?

A filantropia empresarial é uma atividade pontual que não visa a sustentabilidade dos negócios. Ela normalmente está ligada ao desejo do empreendedor em atuar sobre alguma “mazela social”, sendo que a responsabilidade da empresa se encerra no ato de doar e não há grande preocupação sobre os impactos e a aplicação de seus recursos privados para ações de interesse público.

“O investimento social não deve ser compreendido como um campo isolado, como um setor fechado em si mesmo, mas como um conjunto diverso de estratégias que estão ligadas a outros setores e organizações, público e privados. Nesse contexto, ganham relevância e sentido as conexões em rede, capazes de potencializar, qualificar e avaliar o próprio investimento social” (Beatriz Gerdau, Presidente do Conselho GIFE).

Por isso, costumo dizer que é o jeito que as empresa tem de fazer o bem, mas de olhar muito bem a quem. Com a intenção de afirmar sua singularidade e se dissociar de práticas exclusivamente assistencialistas, o investimento social deve acontecer de forma planejada, monitorada e sistemática, com a promessa de gerar impactos efetivos e de longo prazo na sociedade.

E IMPACTO talvez seja a nova palavra de ordem no universo empreendedor! Desde que as startups tomaram conta de parte do cenário de abertura de novos negócios, negócios de impacto têm sido financiados por fundos de investimento, que criaram uma nova lógica de retorno financeiro: retornos não tão pequeno e em prazo não tão longos quanto os dos negócios tradicionais. Será que esse mecanismo de investimento funcionaria também para investimentos em negócios sociais?

Empreendimentos que aportem ganhos sociais merecem o reconhecimento dos agentes financeiros. Princípios como inovação, novos modelos e soluções que beneficiem a população de baixa renda não podem caminhar sozinhos. Se o setor é novo, ele precisa ser estruturado sobre novos paradigmas.
Essa foi a discussão do painel “Quando negócios de impacto e o investimento social se complementam?” que contou com a mediação de Vivianne Naigeborin, assessora estratégica da Potencia Ventures e a participação de Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare, Valdemar de Oliveira Neto, o Maneto da Fundação Avina, e Claudio Sassaki, empreendedor responsável pela startup Geekie.

Se ainda não temos uma ampla regulação sobre os investimentos sociais ou sobre empresas filantrópicas – aquelas que abordam questões globais como pobreza ou fome como suas estratégias centrais – podemos lamentar ou aproveitar. Afinal, onde não há regras, não existem também limites e podemos, então, criar a nossa própria forma de estreitar os laços entre os negócios de alto impacto e o investimento social.
O empreendedor Claudio Sassaki que atuou por dez anos no mercado financeiro decidiu deixar o cargo de vice-presidente em um banco de investimento em 2011 para fundar a Geekie, uma startup que atua com tecnologia de ensino adaptativa e que recentemente foi adotada como plataforma oficial de apoio para estudantes que fazem ENEM. Ele escalou o negócio com recursos próprios e hoje, a Geekie recebe investimentos do Fundo Virtuose e da Fundação Lemann para que exercesse seu papel social: dar acesso gratuito e adequado ao perfil de cada tipo de aluno do ensino público. Seria sua startup uma empresa social? Não! Sassaki tem uma empresa privada de interesse social e é assim que a vida é! Híbrida. Complexa. Complementar.

Ao empreendedor, cabe o desafio de desenvolver o produto ou serviço, errar e corrigir antes que o dinheiro acabe! Em qualquer startup é assim!
Às empresas financiadoras, compete fazer boas escolhas que gerem impacto, escala e que possam, ao mesmo tempo, influenciar políticas públicas e incrementar mecanismos de mercado orquestrando um novo ecossistema de negócios onde será preciso saber se os recursos que estão sendo gastos trazem ou não um retorno efetivo para a sociedade.

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Ana Maria Coelho (@anamariacoelho) é coach, consultora em planejamento e gestão de pessoas e professora universitária nas áreas de Recursos Humanos, Liderança, Empreendedorismo, Desenvolvimento Regional e Economia Criativa. É autora do blog Lounge Empreendedor e co-autora do livro “Empreendedorismo Inovador” lançado pela editora Évora em 2012. Desde então, realiza mentoria para startups.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.