Como sair das bolhas? Como distinguir notícias falsas das verdadeiras neste mundo de pós-verdades?

Desde que fiz meu primeiro detox digital, num verão há alguns anos, eu tenho descoberto um novo mundo em mim mesma e ao meu redor. Apesar de usar smartphone desde 2006* nunca fui aquela pessoa incapaz de ter uma conversa ao vivo sem olhar mais na tela do celular do que no olho do interlocutor, mas mesmo assim, deixava muito da minha vida real se perder no mundo digital.

Ter minha filha caçula num turbilhão de trabalhos e viagens para meus trabalhos de engajamento de influenciadores digitais pelo Brasil, às vésperas dos meus 40 anos, me fez parar um pouco. Meus pais terem lidado com questões gravíssimas de saúde nos anos seguintes, pesou mais. E em 2017, me vi num ano sabático – forçado, involuntário, fruto do mercado complicado e de um momento de vida e encontro espiritual que me fez ver várias coisas com clareza, das que eu queria às que eu não queria mais.

Vida com propósito

 

Assim…

Passei o primeiro ano da minha vida de blogueira sem conta de internet móvel!

Acreditam?

Pois é.

Decidi que já que não precisava ser achada o tempo todo, podia me dar a liberdade de não precisar usar internet quando estava vivendo minha vida.

Redescobri conversas, olhares, pensamentos, livros e músicas, pois parei de ficar na espera olhando para baixo, para minha telinha, e passei a olhar ao redor. Descobri muita gente diferente de mim e, maravilha!, muita coisa minha nas pessoas que eu nem conhecia.

Menos é mais – Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida

 

Neste mesmo período, mudei radicalmente do que chamam de “padrão de vida”, meus filhos foram para escola pública (coisa que estou adorando, sou até presidente do Conselho da EMEI), passei a usar o SUS (e só lá uma pediatra finalmente está cuidando da minha filha asmática como ela deve ser atendida, com regularidade e sem meias palavras), voltei a usar transporte público com regularidade (e eu sempre o defendi aqui no blog) e voltei a fazer comida todo dia, com ingredientes básicos, sem conservantes nem estabilizantes, confiando na química da vida.

Quando a escola pública é sim a opção! (ou sobre deixar filhos melhores para o mundo)

 

Foi neste momento em que volto ao mundo real com força que a querida Pollyanna Ferrari me contou do seu novo livro e me convidou a resenhá-lo. E assim entrei numa viagem sem volta para um mundo onde sair das bolhas, exatamente o que eu tenho feito de um jeito absurdamente real, é a única opção na vida digital para onde eu sei que tenho que voltar!

Uma das primeiras pesquisadoras em mídias digitais no Brasil, a jornalista Pollyana Ferrari estava preparando sua tese de pós-doutorado em Portugal quando este livro surgiu, em 2016, quando percorria redações na Europa pesquisando um tema de imensurável valor para nós, mas pouco conhecido ou entendido pela maioria: como as fake news podem mudar nosso destino. E, sobretudo, a pergunta que não tem preço:

Como distinguir notícias falsas das verdadeiras neste mundo de pós-verdades?

Nunca ouviu esta expressão? O Dicionário Oxford elegeu o termo pós-verdade como a palavra do ano de 2016, com o seguinte significado:

“pós verdade: relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais”.

Mas Sam, não estávamos falando de sair da bolha, depois de fakenews, agora você vem com essa de pós-verdade… 

Como o sair da bolha se relaciona com o enfrentamento às fakenews?

Pollyanna Ferrari explicou numa entrevista:

Os algoritmos são softwares e ele fortalecem as bolhas. Se você fala de comida orgânica, só receberá anúncios e marcas desse tipo, aí entra no círculo. Os produtores de fakenews também compram perfis falsos para entrar nas bolhas e oferecer discursos sob medida. Os algoritmos seguem as nossas pegadas nessas redes para oferecer conteúdo. Então, se você é uma pessoa que transita, é possível confundi-los e isso é benéfico a partir do momento que você não fica na mão da plataforma, sai desse universo e consegue fazer outras leituras e estabelecer diálogos.

E o que são as bolhas?

Bolha são as redes sociais e proponho uma reflexão sobre a necessidade de sairmos desse espaço que te induz a compartilhar com os seus “iguais”. Sobretudo nesses tempos de polarização, temos cada vez mais excluído os que pensam diferente de nós, o que nos deixa em uma zona de conforto, mas também nos prova de uma leitura de contexto. E a gente não tem ideia do perigo disso. As pessoas acabam se refugiando naquilo que entendem ser igual a elas e com isso perdem embasamento e senso crítico para o debate. Precisamos transitar mais pelos grupos divergentes, ver mensagens de outros grupos, da grande mídia porque, ainda que manipulado, o discurso dá uma dimensão do que está acontecendo. Costumo dizer que até para criticar algo, precisamos conhecer, entrar em contato, senão só reproduzimos a opinião pasteurizada da bolha.

😉

Esse trecho explica parte disso na nossa vida cotidiana:

Li ⅓ da versão digital do livro Como sair das bolhas, mas me deparei com uma limitação pessoal: preciso dele em papel! Toda hora fazia um print de tela e mandava para meus filhos, para meu marido, queria marcar e fazer anotações! Por isso, desisti de tentar fazer uma leitura a jato a tempo da resenha e espero estar hoje lá na Livraria Cultura do Conjunto Nacional para entrar na fila e pegar um autógrafo da Pollyana.

(*2006, juro: eu tive um Qtek, um aparelho com tecladinho e que rodava muita coisa em Windows Mobile, que em 2008 foi trocado por um dos muitos Nokias da minha vida e substituído em definitivo por um iPhone em 2011)

 

[update] Em 25/10/2018

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.