sustentabilidade

Enquanto milhões de pessoas marchavam pela liberdade de expressão e contra o terrorismo em Paris, meninas de 10 e 12 anos explodiam com bombas amarradas em seus corpos frágeis, em um mercado na Nigéria. Apesar de achar aterrorizante ver exaustivamente as cenas dos dois homens que assassinaram jornalistas e cartunistas franceses, o que os meus olhos não vêm e a minha imaginação se nega a reproduzir, quebranta mais o meu coração. As duas meninas, provavelmente, foram sequestradas pelo grupo terrorista Boko Haram, o mesmo que sequestrou mais de 200 garotas em uma escola no ano passado e vendeu algumas pelo equivalente a US$13. O mesmo grupo que utilizou uma mulher em 2014 para explodir um outro mercado e que não foi devidamente combatido por nenhuma força de coalização internacional.

Mulheres e meninas sequestradas pelo grupo Boko Haram

As meninas-bomba, sem nome e sem face, que morreram na tarde desse domingo, não entram na contagem oficial das vítimas dos ataques sangrentos do Boko Haram, que já  mataram mais de duas mil pessoas na Nigéria somente na última semana. De acordo com os poucos jornais internacionais que noticiaram o atentado, elas são “suspeitas“, “responsáveis”  e “suicidas“. Ou seja, elas não foram assassinadas, porque estavam com bombas amarradas ao corpo e explodiram. Elas agiram como parte do grupo, do plano e, se duvidar, serão condenadas pelas três mortes, essas sim de vítimas do atentado terrorista. Mais do que isso, os jornais se esquivam de assumir que a ação é de autoria do Boko Haram, mesmo tendo diversos indícios, mas não têm problema algum em escrever que as meninas “ativaram as bombas”, por exemplo. Ou de usarem a palavra “suicídio” para um evidente assassinato. O que querem os jornais com isso?

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Eu não sei, ainda que tenha algumas impressões. Pessoas que explodem a si e aos outros não merecem a nossa compaixão. Suicidas querem morrer, não é? E quem somos nós para impedir? Sem falar que o sexo feminino, não importa a idade, está sempre “procurando” esse tipo de situação, onde se faz de vítima, quando, na verdade, é culpada: do estupro pela roupa curta, da agressão que sofre por “ter dado liberdade”, do “assassinato passional” por ter se envolvido com a pessoa errada… As meninas-bomba não são diferentes, estavam lá na hora da explosão, sabiam o que carregavam. Nós, com toda a nossa valiosa liberdade de expressão, temos o poder de sentenciar em palavras que “elas mataram”, mas não que morreram, não que sentiram, não que não tinham escolha… Ao nos afastar das meninas e transformá-las em um objeto de destruição, a bomba, perdemos a empatia e não precisamos nos preocupar em chorar pelos corpos e almas despedaçados. Pelas histórias brutalmente interrompidas. Pela vida que não mais será.

E podemos seguir marchando, em Paris, Nova York ou São Paulo, dizendo que somos o cartunista, o jornalista, sempre a vítima… Nunca as meninas, usadas como armas pelos terroristas, não é?

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@talitaribeiro

Apaixonada por palavras e viagens, gestora em formação, jornalista não praticante, esposa, amiga, prima-irmã, filha, neta, futura tia e mãe.

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