Espionar os filhos é a solução? (com a colaboração de @ligiamarqs)

“Um em cada dez pais admitiu que espionar o dia-a-dia dos filhos é a única razão de terem aberto uma conta no Facebook.”

Há alguns dias li uma matéria que trazia à tona aquele velho embate do controle parental e a “espionagem” da vida online dos filhos como forma de protegê-los na web. A notícia dava conta que, segundo uma pesquisa (da One Poll para BullGuard) feita na Grã Bretanha, mais da metade dos pais ‘espionam’ filhos no Facebook.

Segundo a pesquisa, dos dois mil pais entrevistados, 55% monitoram os filhos através do site de mídia social e 5% só não o fazem porque não sabem como. Quatro em cada dez pais checam regularmente o status dos filhos, outros 40% monitoram os perfis para monitorar as mensagens no mural, e 30% visitam a seção de fotos postadas pelos amigos.

Pelo menos os pais sabem que estão exagerando: mais de um terço deles admite estar sendo superprotetor ao monitorar os filhos pelo Facebook, mas 24% creem que a estratégia é a única maneira de saber ao certo o que os jovens estão aprontando.

E não basta ser amigo?

Eu acho que sim e não estou só. A pesquisa mostrava que 16% dos pais disseram que até tentaram ser amigos dos filhos nas redes sociais, mas 30% deles tiveram o pedido de amizade recusado, indicou a pesquisa.

No meio da conversa sobre o assunto vários pais se manifestaram no Twitter e no Facebook e Lígia Marques, que já colaborou aqui no @avidaquer no post sobre Twitter: Follow Back e Engajamento, me sugeriu este texto a quatro mãos sobre o assunto. Vale ver o paralelo que ela faz com os conceitos de Vigiar e punir, de Michel Foucault.

Vigiar e punir é um clássico livro do filósofo frances Michel Foucault, publicado em 1975, uma obra que alterou significativamente o modo de pensar a política social no mundo ocidental. Apesar de ter surgido há mais de 20 anos,mostra-se ainda atual em seus conceitos quando pensamos num paralelo com nossa presença no mundo digital.

Foucault, nessa obra, trabalha sobre os mecanismos sociais e teóricos que se produziram nos sistemas penais ocidentais durante a era moderna. Segundo ele a disciplina se constrói no indivíduo, sem que para isso se imponha uma força excessiva, apenas pelo fato do transgressor saber estar sendo observado,sem poder,no entanto, se certificar em quais momentos realmente se dá essa vigilância.

Ele exemplifica esta situação de vigilancia constante para se conseguir disciplina através do uso do design de um modelo prisional feito por Jeremy Bentham, conhecida como Panóptico. O Pan-óptico era uma construção onde os detentos ficavam em celas dispostas ao redor de uma torre e eram assim vigiados de forma que não podiam ver seu vigia. Uma observação constante caracterizada pela “vista desigual”.O recluso não poderia nunca saber quando (e se) realmente era observado. Esta estratégia faria com que os detentos interiorizassem a necessidade de não transgredirem as normas estabelecidas por temerem uma punição . Assim ele mostra que se é menos induzido a transgredir regras se se acredita estar sendo observado, mesmo quando a vigilância não é (momentaneamente) praticada. Quer um exemplo atual? Pense nas inúmeras cameras de monitoramento espalhadas pelas cidades com a intenção de coibir crimes. Funcionam.

Lembrei desta teoria ao ler sobre a pesquisa que mostra ser comum pais espionarem os perfis de seus filhos no Facebook,com a intenção de protegê-los. Seria esta a melhor forma de garantir-lhes uma segurança no mundo virtual?

O ambiente digital no qual marcamos presença hoje apresenta alguns pontos em comum com o modelo do panóptico: estamos nos tornando visíveis a muitos sem que possamos saber quem e quando nos olham.

A insegurança percebida pelos detentos de Foucault é também percebida pelos pais que,numa ânsia de diminuí-la, sentem-se livres para espionarem os perfis de seus filhos,tal como faria qualquer desconhecido, sem maiores questionamentos a respeito da ética que permeia este comportamento.

Confirmei esta situação através de uma enquete nas minhas redes sociais e realmente a maioria dos pais sente-se no direito de zelar pela segurança de seus pimpolhos agindo desta forma.

Na educação de filhos o que podemos fazer é comparar experiências e resultados. Não creio que ninguém seja dono da verdade, mesmo porque as infuências culturais,tradições,experiências individuais positivas e negativas, são bastante importantes e diferentes dentro de cada familia.

No caso em questão, porém, creio que vale um paralelo ainda com Foucault:
Como no caso do panóptico, a disciplina virá naturalmente se nossos filhos souberem que existe a possibilidade real de a qualquer momento darmos uma espiada em seus perfis. Eles saberão,no entanto e de antemão, que podem contar com nossa ajuda,mas que não vamos fazer nada escondido deles, sorrateiramente,pois nossa preocupação é legítima e não há por que escondê-la.

Devemos explicar-lhes os riscos de uma presença on line em detalhes,e creio que tenhamos mais resultados se criarmos um ambiente de confiança mútua e não de espionagem em relação às suas páginas nas redes sociais.

No mundo de hoje temos que estar atentos, sim, aos perigos que podem atingí-los via redes sociais, mas antes de tudo temos que deixar claro a eles, para que levem por toda a vida, que mesmo sendo menores (nem vou comentar sobre a “ilegalidade” de menores estarem no Facebook, pois seria muita ingenuidade e perda de tempo) tem direito a serem tratados com transparência e honestidade,pois estes são os princípios que permeiam a vida de seus pais sob quaisquer circunstâncias e aqueles que nós gostaríamos de ver arraigados em suas almas.



Ligia Marques é Consultora em Etiqueta , MKT Pessoal e Mídias Sociais. É também autora do Etiqueta 3.0. Siga-a no Twitter (@ligiamarqs) e no site pessoal.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, casada, mãe de 3, jornalista no @avidaquer @maecomfilhos @biblianafamilia.

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