blogosfera / educação
[update] Este post entrou no ar sem minha tradicional apresentação de como conheci o autor. Era tarde e eu estava envolvida nas atividades de mãe – ajudando #aos11 no fechamento de um trabalho sobre a Turquia e fazendo massagens nas perninhas cansadas do #aos8 que é aprendiz de futsal – e por isso publiquei sem explicar quase nada.

Felizmente o texto, excelente, dispensava minha explicação porque confesso que como fã de Natércia (desde que descobri, numa edição do livro Quem ama, educa!, que ela atuava na mesma área do pai, Içami Tiba), eu me sinto sem fala para descrevê-la.

Mas posso contar a vocês que nos conhecemos nas redes sociais e que foi compartilhando ideias profissionais, preocupações cidadãs, corujices maternas, cenas da cidade e curiosidades dos maridos sulistas nós descobrimos afinidades que vão além da obvia ascendência japonesa.

Que honra imensa ter um texto dela no @avidaquer!

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Blogagem Coletiva #EstudarValeAPena As imagens são selos que a equipe de Leandro Ogalha, um dos apoiadores oficiais do movimento, criou para quem quiser usar como apoio nos seus posts. http://www.samshiraishi.co​m/o-dia-do-estudante-e-a-b​logagem-coletiva-estudarva​leapena/

Recebi um gostoso convite da jornalista Samantha Shiraishi para escrever na “Blogagem Coletiva” para o Dia do Estudante, 11 de agosto. Nada mais justo do que comemorar o dia daquele que será o futuro do nosso país. Esta é também uma oportunidade para refletir, conversar e pensar em no papel que cabe a cada um de nós para a melhoria do ensino, a motivação dos estudantes e dos professores, conscientização da situação da educação no Brasil e da consequente diminuição da alarmante evasão escolar.

Me sinto feliz e honrada por ter sido convidada e muito me alegra ter a chance de falar um pouco sobre esse tema. Acredito que esta seja também uma forma importante de contribuir. Tento aqui seguir um caminho diferente da teoria, que está à nossa disposição caso tenhamos interesse. Minha vontade é colaborar contando um pouco da minha vivência pessoal e das minhas crenças em relação à escola, ensino, educação, parceria família-escola no meu olhar de aluna, de mãe e de psicóloga (olhares que dificilmente se separam).

Ao relembrar minha história escolar, mais do que pensamentos, sou tomada por sensações. Sensações fortes e ainda vívidas que nunca apagarão: o barulho dos tênis pisando nas pedrinhas do pátio, o cheiro da cantina, o som do sinal tocando, a buzina “mico” que meu pai tocava no dodge quando nos buscava (eu e meus dois irmãos). Consigo sentir ainda o sabor do picolé de groselha e o barulho que fazia o tio do bijú para chamar atenção dos alunos. Sensações que me fazem viajar no tempo e me transportam para 20 anos atrás ou mais.

Sou tomada também por muita saudade… saudade dos amigos, dos professores, das aulas (muitas das quais adoraria assistir novamente, com a maturidade que tenho hoje), daquele ambiente tumultuado pela agitação dos alunos e ao mesmo tempo organizado pela rotina escolar.

Tudo isso faz parte de mim, de quem sou hoje. Não posso dizer que lembro de todo o conteúdo que tive na escola, mas tenho registrado todos os encontros, os modelos dos meus mestres e os relacionamentos. Tenho certeza que a escola me ensinou muito mais do que matemática, português, história, geografia e tantas outras matérias.

Acredito que a relação do aluno com a escola tenha início antes mesmo de frequentá-la. Começa em casa, com a forma com que os pais a vêem e principalmente como os pais tratam a curiosidade que a criança tem pelo mundo, por descobrir coisas.

A criança descobre explorando, não olhando. A criança aprende fazendo e não só observando. Dá trabalho valorizar e manter essa curiosidade. Sou mãe de dois meninos, sei bem o trabalho que dá, mas ao mesmo tempo, essa postura ativa das crianças é preciosa e quando mantida, pode ser transformada em motivação, algo que os professores buscam estimular tanto nos alunos, mas tantas vezes se sentem frustrados.

A criança que pode explorar o ambiente que vive, criar hipóteses e testá-las, se sente ativa nas descobertas, na produção do conhecimento, seja ele qual for. Quando colocada como observadora, se distancia e na maior parte das vezes se atém ao resultado, perdendo o envolvimento e provável encantamento advindo do processo. O aprendizado não é apenas um resultado, é principalmente um processo (um processo contínuo, independente da idade). Estamos sempre aprendendo, descobrindo, nos desenvolvendo.

Dar espaço para a ação não implica em permissividade por parte dos pais, muito pelo contrário. Os pais que permitem que os filhos sejam ativos, que estejam inseridos nos processos de descoberta, devem estar atentos para que arquem diretamente com as consequências dos seus atos. Este é um dos momentos mais importantes do aprendizado, como o que faço ou penso me afeta e atinge aos demais ao meu redor.

Quando damos liberdade e a criatividade pode fluir, as crianças podem achar caminhos diferentes e podemos aprender muito com isso (principalmente porque a maioria da nossa geração que hoje tem filhos, aprendeu a receber o conhecimento pronto e não produzí-lo).

Um professor que quer manter os alunos quietos em sala de aula, no modelo tradicional de ensino, terá muito mais resistência por parte dos mesmos do que aquele que aproveita a energia dos alunos para que ajudem a produzir e chegar no conteúdo que precisa ser passado (e que então será aprendido e não “dado” como costumamos dizer). Pode ser que os caminhos sejam diferentes do que o professor seguiria, mas não é maravilhoso descobrir formas novas?

Acredito que um dos “pulos do gato” da parceria família-escola seja esse: transformar a postura curiosa e ativa da criança, em motivação diante do ensino formal, mantendo-o na adolescência e também na vida adulta. Mas o ponta pé inicial é, sem dúvida, na primeira infância. Não vejo outra forma de isso acontecer sem que o emocional de ambas as partes entrem em jogo.

Como? O que quero dizer com isso? Falo em relacionamento, encontro, em olhar para o outro com suas potencialidades e dificuldades, como seres humanos que somos, convivendo com nossa maravilhas e imperfeições, acreditando, acima de tudo, que o outro sempre tem algo a acrescentar.

Em geral, um aluno que gosta do professor se interessa muito mais pela matéria. Quando se sente valorizado pelo outro, tende a valorizá-lo também. Quando percebe o encantamento do professor, tende a se encantar. O link emocional do aluno com a escola, se dá com muito mais facilidade quando há uma boa relação professor-aluno. Não falo necessariamente em empatia, que nem acontece e não é voluntária. Falo em humanidade, humildade e um olhar diferenciado, uma postura de disponibilidade de estar com o outro e sair engrandecido da relação.

Muitos dos ensinamentos que valorizo até hoje vieram de mestres da escola. Chamo de mestres porque, para mim, foram mais do que professores, foram modelos de seres humanos que fazem sua parte, que praticam o bem. Sempre me esforcei para ser uma boa aluna. Lembro que meus pais não cobravam notas altas, mas diziam que dar 50% de mim à escola, era um desperdício. Meus pais nunca foram modelos de pessoas 50%. Sempre foram 100% em tudo que fizeram (e ainda fazem) do trabalho à vida pessoal, como pais e companheiros, juntos há 42 anos.

Hoje posso dizer que sou também uma pessoa 100%. Não 100% em termos de resultado necessariamente, mas 100% no envolvimento, na doação ao que vivo e ao que acredito, na curiosidade e na emoção. Tanta intensidade assim cansa? Cansa, bastante, mas não saberia e nem gostaria de ser diferente.

Com tanto empenho, claro que de modo geral, colhi bons resultados. Mas o melhor dele foi inesperado, quando aos 16 anos, tive dificuldades em matemática. Nada dramático a ponto de não passar, mas não conseguia ter o desempenho que gostaria. Na escola que eu estudava na época, ao invés de notas, eram conceitos (A, B, C, D e F) e acabei ficando com C no boletim (claro que não era a nota que eu gostaria. “C” equivalia aos 50%, queria pelo menos B). Ao receber o boletim, recebi logo em seguida uma cartinha de uma das professoras de matemática, a Lígia (jamais esquecerei seu nome , seu rosto, seu olhar doce e sua letra redondinha espalhada sobre o papel de carta). Ela dizia o quanto se sentia gratificada por ter uma aluna interessada e empenhada como eu e que eu não deveria me abalar pelo C final, mas sim ficar orgulhosa do meu esforço e da superação das minhas dificuldades na matéria. Acabava a carta dizendo: “são alunas como você que nos fazem ter força para continuarmos nosso duro ofício de ensinar.”

O quanto uma atitude como essa me ensinou?

Não dá pra medir. “A” ou “10” seria pouco para a atitude dessa professora não acham?

Claro que tive também professores ruins. Não podemos dizer que o fato de serem professores os torna bons exemplos ou tragam à tona o melhor de nós. Nessa minha intensidade toda, sempre me envolvi muito e muitas vezes fui representante de classe. Tomava iniciativas para mudar situações que julgava questionáveis ou inadequadas (mesmo que em vão em alguns momentos). Mas afirmo veemente que a grande maioria dos professores e coordenadores que tive, tinham sempre algo que me chamava atenção e que me ensinava, mesmo que não fosse o conteúdo em si.

Acredito que esse olhar tenha vindo da minha família. Eram tantas as histórias que eu ouvia dos meus pais sobre a época da escola, sobre professores que tiveram e marcaram suas vidas que meu olhar ia sempre em busca de algo especial, o melhor que cada um poderia oferecer, do vigilante, à tia da cantina, dos professores, coordenadores e diretores aos amigos, é claro.

Não tenho dúvidas de que, quando olhamos para o outro procurando ver o melhor que tem a oferecer, recebemos em troca o melhor que o outro pode dar. Isso vale tanto do aluno para o professor, quanto do professor para o aluno.

As escolas que estudei foram perfeitas?

Não, claro que não, mesmo porque tinham aulas! Não seria muito mais gostoso podermos papear, conversar com os amigos, fazer social do que sentar na carteira e assistir aula?

A resposta automática seria sim, mas não consigo imaginar o que eu seria hoje sem as intermináveis aulas de exatas, as intrigantes aulas de filosofia, as polêmicas aulas de história e confusas aulas de geometria (que continuam sendo um universo paralelo para mim).

Até porque, aprendi muito ao ter que lidar com situações que não eram totalmente prazerosas, a respeitar professores que tinham posturas não tãoencantadoras, ao me rebelar diante do que não achava correto, a ter que me submeter a situações que eu discordava e não tinha nas minhas mãos a possibilidade de mudar.

Aprendi minhas forças e também minhas fragilidades. Minhas capacidades de luta e também os momentos de desistir. Aprendi a admirar e criticar. A adorar e odiar. A me divertir e me entediar. Não posso imaginar nada melhor do que a escola para nos treinar para a vida. A família é também um treino, mas é um ambiente muito mais protegido e restrito. Sou muito grata às escolas que estudei, a TODOS os professores que tive e aos amigos com quem convivi.

Independente da escola em que estudou, dos professores e amigos que teve, tenho certeza que tem, dentro de si, boas recordações. Pode ser que não prevaleçam, pode ser que tomem conta de você, o que importa é que elas podem te ajudar a ser uma mãe ou um pai que motiva seu filho, um professor que acredita e não perde a fé em meio às dificuldades e adversidades ou um aluno que dá mais valor ao que aparece de bom do que aos problemas.

Uma coisa tenho certeza, a escola nos dá oportunidade de sermos pessoas melhores, nos dá ferramentas para irmos em busca dos nossos sonhos e metas, cabe a nós, agarrá-las e aproveitá-las ou deixar passar como mais uma obrigação a ser cumprida da vida.

O que você escolhe?

Natércia Tiba (@natercia_tiba) é psicóloga clínica, atende crianças, adultos e adolescentes. Especializada em casais grávidos e também Psicoterapeuta de casais e famílias. Casada com um editor-sonhador-batalhador, mãe de dois meninos sapecas como devem ser e de um cachorro da paz. Seus trabalhos estão no site e no blog.

Agradecimentos aos meus mestres:


Depois desse passeio interno, sinto uma vontade imensa de agradecer especialmente alguns mestres: meus pais, Tiba e M.Natércia; Tia Sônia, minha 1a professora, Tia Silvia, que fui até dama-de-honra aos 3 anos; Tia Nara, sempre deslumbrante com seus longos cabelos (que durante anos copiei); Waldívia Rangel, que sempre “pegou no meu pé” por acreditar muito em mim;Teacher Célia Figueiredo, minha 1a professora de inglês, que me despertou a paixão por falar outras línguas, Robert Kairalla, lição de vida, talento e amor às artes; Anna Rozov, sempre amiga e ao mesmo tempo exigente; Vitoria Colella, que ampliou meu universo nipo-lusitano para italiano também; ao time maravilhoso do Colégio Santa Cruz: Malú Montoro, Kátia, Zuca, Ana Bruner, Zink, Lucy, Marcelo, Lígia e tantos outros mestres maravilhosos; ao Prof.Hélio Deliberador, que nos desconcertava com as supervisões existencialistas na PUC; Ana Maria Knobel, Rosa Cukier e José Fonseca Filho, mestres no psicodrama e do desafio de viver comigo mesma; Marcos Naime Pontes, Denise Gomes, Janice Rechulsky e Adriana Fraguas, sistêmicos que me acolheram sempre e muito me ensinam. Não deixaria jamais de agradecer aqueles que mais me ensinam hoje: Maurício Machado, marido muito amado que me acompanha há 13 anos no casamento e 23 na amizade e que me ensina diariamente sobre amor e companheirismo, aos meus maravilhosos filhos, Dudu e Ricardo, que me ensinam, me enlouquecem e resgatam a aluna que fui, despertam a mestra que posso ser e me permitem me apaixonar agora pelas suas professoras, como Fernanda Freitas, Regina Patrício, Mônica Toutin e Paula Mills, que despertam neles o amor pela escola e mantém o prazer por aprender.

Não esqueçam NUNCA de agradecer aos seus mestres e valorizem sempre o mestre que há dentro de vocês!

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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